Pular para o conteúdo

Brinquedos podem ficar perigosos rapidamente: saiba como se proteger neste Natal.

Homem monta brinquedo colorido em mesa de sala com árvore de Natal e presentes ao fundo.

Começámos oficialmente a maratonar filmes de Natal no fim de semana passado (tá bom: há três fins de semana). Um deles foi o tão ruim que chega a ser engraçado Um Herói de Brinquedo, com Arnold Schwarzenegger, Sinbad (o comediante, não o marinheiro) e o menino que interpretou Darth Vader.

Como acontece com muitos filmes festivos, ele acabou virando um clássico cult pela identificação: dois pais em desespero na véspera de Natal atrás de um brinquedo de super-herói esgotado, depois de não terem conseguido “se organizar” a tempo.

Muita gente que cria filhos reconhece bem esse tipo de provação - inclusive a minha família. A minha mãe ainda se lembra de quase perder a paciência quando eu a pressionei sem parar, nos anos 1990, enquanto ela caçava um Tamagotchi para mim. Ela conseguiu o que o Arnie não conseguiu, porque ela é fora de série.

E isso leva a uma pergunta legítima: por que alguns brinquedos despertam uma procura tão desesperada - ainda mais quando parte deles vem acompanhada de riscos reais à segurança?

Antes de entrar nos exemplos, vale lembrar que “febre” de brinquedo raramente é só acaso. Publicidade, modas nas redes, personagens do momento e, sobretudo, a sensação de escassez (estoque curto, lançamentos limitados, “últimas unidades”) podem acelerar o desejo e empurrar compras impulsivas, muitas vezes sem a atenção devida às recomendações de idade e aos alertas de risco.

No Brasil, um cuidado adicional que ajuda é procurar selo e instruções em português, conferir a faixa etária indicada e dar preferência a marcas com rastreabilidade e informações claras de assistência. Isso não elimina todo perigo, mas reduz bastante a chance de o brinquedo “problemático” entrar em casa por engano.

Bate-bate (clackers): a febre barulhenta que machucava

Quem nasceu nas décadas de 1960 ou 1970 talvez se lembre do brinquedo infantil conhecido como bate-bate (clackers). Eram duas esferas duras de polímero, presas nas pontas de um cordão. Quando a criança balançava o conjunto num ritmo de sobe e desce, as bolinhas se chocavam repetidamente - alto, insistente e, para muita gente, até meio assustador (basta lembrar o tom tenso de algumas propagandas da época).

Aqueles olhares desconfiados de lado, aliás, faziam sentido. As crianças tinham motivos concretos para temer: o bate-bate conseguia causar tantos ferimentos quanto as bolas argentinas, arma em que o brinquedo foi inspirado.

Nas versões mais antigas, as esferas eram de vidro. Com o impacto, podiam - e com frequência acabavam por - estilhaçar. O resultado eram fragmentos afiados voando para todo lado e, em casos pontuais, atingindo olhos. O vidro foi substituído por plástico, mas isso não transformou o brinquedo em algo realmente seguro.

Além disso, muitas crianças passaram a usar o bate-bate como um tipo de mangual improvisado. Daí vieram olhos roxos, sangramentos no nariz e até fraturas. Em muitas escolas, ele foi proibido, junto com “jogos perigosos” como o de castanhas (conkers) e outras brincadeiras “ousadas” que parecem saídas do livro A Turma do Guilherme.

Ainda existem variações do bate-bate, normalmente em plástico barato e com bem menos força no choque.

O brinquedo inclusive viveu um retorno recente no Egito (onde chegou a ser proibido por ser considerado vulgar) e também na Indonésia e nas Filipinas, onde recebeu o nome de lato-lato e chegou a inspirar competições. É de supor que os ferimentos continuem a aparecer.

Ímãs (magnets): pequenos, comuns e perigosos por dentro

A minha filha já teve um conjunto de blocos de montar imantados em forma de triângulos e quadrados - ela adorava. Ímãs aparecem em muitos outros brinquedos, e é fácil subestimar o quanto podem ser perigosos.

O problema fica evidente quando uma criança consegue soltar um ímã de dentro do brinquedo. Isso cria não apenas risco de engasgo, como também um perigo interno grave se for engolido. Em qualquer suspeita de ingestão, é preciso procurar atendimento médico imediatamente.

O risco vem da própria atração magnética. Se a criança engole dois ou mais ímãs (ou ímãs junto com outras partes metálicas do brinquedo), eles podem se atrair através das paredes do intestino e “prender” segmentos do trato digestivo uns contra os outros.

Isso pode provocar obstrução, perfurações e hemorragia interna, entre outras complicações sérias. Ímãs engolidos - ou objetos metálicos em qualquer quantidade - nunca devem ser “esperados” para sair naturalmente. A situação é sempre uma emergência médica.

Bolinhas de água (water beads): crescem no corpo e podem obstruir

As bolinhas de água (water beads) são uma adição mais recente ao universo dos brinquedos. Tratam-se de pequenos grânulos de polímero que incham de forma impressionante quando entram em contacto com a água. Inicialmente vendidas para arranjos florais, tornaram-se populares em artes e trabalhos manuais e também como brinquedos sensoriais.

Essas bolinhas são feitas de polímeros superabsorventes que conseguem aumentar até chegar a 1 ou 2 cm de diâmetro em poucas horas. Tal como os ímãs, representam risco de engasgo. E, se forem engolidas, podem expandir dentro do organismo e bloquear o intestino.

Um estudo recente descreveu dois casos de obstrução intestinal causada por bolinhas de água. Em um deles, uma bolinha chegou a 4 cm e foi necessária cirurgia.

Infelizmente, não são episódios raros, e alguns registos incluem outras complicações médicas graves. As bolinhas de água também foram divulgadas para crianças com transtornos do processamento sensorial e autismo.

Isso é particularmente preocupante, porque essas crianças podem não conseguir comunicar sinais iniciais de desconforto caso acabem engolindo alguma bolinha.

E os pais no meio do caos?

Vale a pena ter empatia pelos adultos que ficam no olho do furacão dessas febres. Não apenas a minha mãe, que enfrentou algo próximo do sétimo círculo do inferno numa grande loja de departamentos lotada para encontrar o “bichinho digital” que eu queria.

Ao longo dos anos, brinquedos e personagens como os Power Rangers, os Teletúbis e o Buzz Lightyear também geraram corridas e pânico semelhantes. Houve até casos de ferimentos graves e mortes causadas por tumultos durante disputas por brinquedos na Sexta-Feira Negra.

O recado é direto: escolha brinquedos seguros e adequados à idade e, quando for o caso, supervisione a brincadeira. Um brinquedo aparentemente inofensivo pode transformar-se em algo bem mais perigoso em poucos segundos.

No Natal, quando a casa está cheia, a rotina sai do eixo e as distrações se multiplicam, um pouco de cautela extra faz uma diferença enorme.

Dan Baumgardt, Professor Sênior, Escola de Psicologia e Neurociência, Universidade de Bristol

Este artigo foi republicado de A Conversa sob uma licença CC. Leia o artigo original.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário