Mas, afinal, o que faz bem para o gato - e o que pode causar prejuízo?
Quem convive com um gato de apartamento conhece a cena: marcas de arranhões nos móveis, risquinhos nas mãos e, às vezes, até um furo na poltrona preferida. Daí é um pulo para colocar um cortador de unhas no carrinho. Só que as unhas (garras) são muito mais do que “unhas” para os gatos. Quando o corte das unhas do gato é feito do jeito errado, uma tentativa de ajudar pode provocar dor e até alterar o comportamento do animal por muito tempo.
Cortar as unhas do gato não é o mesmo que remover as unhas
Em muitas conversas sobre o tema, duas coisas completamente diferentes acabam misturadas: aparar apenas a pontinha da unha e procedimentos cirúrgicos que tiram as unhas de forma permanente.
Aparar levemente a ponta da unha pode ser útil em algumas situações - já a remoção cirúrgica das unhas é crueldade.
Procedimentos cirúrgicos: por que são devastadores
Em alguns países, ainda existe a prática de “desgarrar” gatos por cirurgia. Nesses casos, o veterinário não remove só a unha: muitas vezes, remove também a última falange do dedo. Além de extremamente doloroso, isso muda a biomecânica do corpo e costuma resultar em:
- dor crónica ao andar
- alteração de marcha, com risco de artrose ao longo do tempo
- insegurança, medo e aumento de agressividade
- dificuldades para usar a caixa de areia (katzentoilette)
No Brasil, um procedimento desse tipo é amplamente condenado do ponto de vista de bem-estar animal e só faria sentido em raríssimas emergências médicas. O gato precisa das unhas para escalar, brincar, se defender e até se comunicar (marcação e comportamento de arranhar fazem parte da rotina natural).
Quando cortar as unhas do gato pode fazer sentido
Já o corte das unhas (sem cirurgia) é outra história: aqui se remove apenas uma pequena parte da ponta de queratina - parecido com cortar unha humana - desde que se saiba exatamente onde parar.
Situações em que o corte pode ser útil:
- Gatos de apartamento sem boas opções de arranhador: o desgaste natural tende a ser insuficiente.
- Gatos muito idosos ou doentes: com menos movimento, as unhas podem crescer demais e até encravar.
- Gatos com má formação ou unhas deformadas: o ideal é orientar-se com a clínica veterinária.
- Pessoas com imunidade baixa em casa: reduzir o risco de pequenos arranhões pode ser uma medida extra de segurança.
Em contrapartida, gatos saudáveis e ativos com acesso ao lado de fora (árvores, superfícies firmes para arranhar) geralmente não precisam de “manicure” humana.
Como são unhas saudáveis (e como avaliar se passou do ponto)
Antes de pegar a tesoura, vale observar as patas com calma. Unhas saudáveis costumam ser pontiagudas, sem enrolar, sem rachaduras, sem manchas estranhas e sem odor. Para ver a unha, dá para fazê-la “sair” com cuidado pressionando suavemente acima e abaixo do coxim do dedo.
Se bater dúvida sobre o comprimento, esta referência ajuda:
| Unha | Indício |
|---|---|
| Reta, sem enrolar | normalmente ainda está ok |
| Enrolando visivelmente em direção ao coxim | é melhor cortar, para evitar que encrave |
| Rachaduras ou muita quebra | peça avaliação numa clínica veterinária |
| Cheiro forte e/ou alteração intensa de cor | pode ser infeção; investigar com urgência |
Como cortar as unhas do gato corretamente (passo a passo)
Se a decisão for cortar, o segredo é agir com calma e método. Estresse passa para o gato na hora - e aí a tarefa fica mais arriscada para todos.
Preparação: o que realmente precisa
- Cortador de unhas para pets (tesoura ou alicate próprio) de pet shop; não use tesoura de unhas humana
- Boa iluminação, para enxergar a parte viva da unha
- Uma toalha, caso seja necessário conter o gato de forma gentil
- Petiscos, para criar uma associação positiva
Tesouras de unha de pessoas costumam esmagar a unha em vez de cortar limpo. Isso pode doer e até rachar a unha.
Cortar as unhas do gato: passo a passo com segurança
- Leve o gato para um lugar tranquilo, de preferência depois de comer ou brincar (quando está mais relaxado).
- Pressione de leve o coxim do dedo para expor a unha.
- Procure a área clara da unha; por dentro há uma faixa rosada (a “parte viva”), onde ficam nervos e vasos.
- Corte somente a pontinha transparente, mantendo alguns milímetros de distância da parte rosada.
- Corte pouco e, se necessário, repita após algumas semanas em vez de tentar “acertar tudo” de uma vez.
Se você cortar a parte rosada, atinge nervos e vasos. Além de doer muito e sangrar, isso pode deixar o gato desconfiado por muito tempo.
Atenção extra para unhas escuras: em alguns gatos, a unha é mais pigmentada e a parte viva fica difícil de ver. Nesses casos, é mais seguro cortar mínimas pontas ou pedir que a clínica veterinária mostre o ponto certo na primeira vez.
Se der errado durante o corte
Se o corte passar um pouco do limite, o gato costuma se assustar, puxar a pata e pode haver sangramento. A regra é simples: manter a calma.
- Examine a unha rapidamente e pressione com um pano limpo para conter o sangue.
- Se sangrar mais, um pó hemostático indicado pela clínica veterinária pode ajudar.
- Pare por ali: não tente continuar cortando outras unhas naquele momento.
Se o sangramento não parar em pouco tempo ou se o gato começar a mancar claramente ao apoiar a pata, procure uma clínica veterinária o quanto antes.
Muitas vezes dá para resolver o “problema das unhas” sem cortar
Em várias casas, o conflito aparece porque o impulso natural de arranhar não encontra um lugar adequado. Ao corrigir o ambiente, o corte das unhas passa a ser raro - ou desnecessário.
Ofereça arranhadores de forma inteligente (kratzmöglichkeiten)
O gato precisa de mais de um ponto de arranhadura, bem firme e bem colocado na casa:
- arranhador alto e estável perto de uma janela
- prancha/placa de arranhar ao lado do sofá
- superfícies verticais e horizontais, conforme a preferência do animal
Muitos gatos gostam de materiais naturais mais ásperos, como sisal ou madeira sem tratamento. Retalhos de carpete, por outro lado, nem sempre são os favoritos.
Treino e recompensa funcionam melhor do que punição
Ao pegar o gato arranhando um móvel, não grite e nunca bata. Além de quebrar a confiança, isso não ensina o que você quer. É mais efetivo:
- pegar o gato com calma e afastá-lo do móvel
- colocá-lo imediatamente no arranhador
- incentivar com brinquedo perto do arranhador
- quando ele usar o arranhador, elogiar e oferecer um petisco na hora
Com consistência, o gato passa a associar o arranhador a algo positivo - e o sofá tende a sofrer bem menos.
(Extra) Habituar ao toque nas patas desde cedo ajuda muito
Um ponto que costuma ser esquecido: o resultado melhora quando o gato aprende, aos poucos, que mexer nas patas não é ameaça. Faça sessões rápidas (30–60 segundos), toque nas patas, recompense e pare antes do gato se irritar. Essa adaptação reduz estresse tanto no corte das unhas do gato quanto em inspeções de rotina.
Fique de olho na saúde das unhas
Checar as patas regularmente é um cuidado que previne dor. Muita gente só percebe tarde demais que a unha enrolou e começou a pressionar o coxim - o que pode virar inflamação e exigir tratamento até com sedação.
Em gatos idosos ou com excesso de peso, vale olhar a cada poucas semanas. Se houver insegurança, peça para a clínica veterinária (ou uma fisioterapeuta veterinária experiente) demonstrar o corte correto e ajudar a avaliar o comprimento ideal.
Mitos sobre unhas de gato - e o que é verdade
Há muita desinformação circulando. Três ideias aparecem o tempo todo:
“Se eu cortar as unhas, ele não consegue mais escalar.”
Não necessariamente. Cortando só a pontinha, o gato mantém a capacidade. O que prejudica mesmo é encurtar demais ou remover unhas cirurgicamente, o que compromete defesa e escalada.“Gato indoor nem precisa de unhas.”
Precisa, sim. Mesmo em apartamento, o gato caça brinquedos, sobe em móveis e usa as unhas para equilíbrio e segurança.“Quanto mais eu cortar, mais rápido elas crescem.”
O crescimento depende principalmente de metabolismo e nível de atividade, não do ato de cortar.
Quando as necessidades do gato são entendidas e respeitadas, a intervenção “corretiva” vira exceção. Com ambiente bem montado, estímulo adequado e boa observação, muitos problemas desaparecem antes de começar.
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