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Estudo com 500 mil prontuários liga vírus ao Alzheimer repetidamente.

Médico explica imagem digital de cérebro para idosa em consultório com medicamentos e laptop na mesa.

Um levantamento publicado em 2023, baseado em aproximadamente 500 mil prontuários médicos, indicou que infecções virais graves - como encefalite viral e pneumonia - podem estar associadas a um maior risco de doenças neurodegenerativas, incluindo Doença de Parkinson e Doença de Alzheimer.

O que o estudo encontrou sobre infecções virais e doenças neurodegenerativas (Alzheimer e Parkinson)

Ao examinar dados de cerca de 450 mil pessoas, os pesquisadores identificaram 22 associações entre infecções virais e diferentes condições neurodegenerativas.

Uma das ligações mais fortes envolveu a encefalite viral, um tipo de inflamação do cérebro causada por vírus. Entre pessoas tratadas por essa condição, a probabilidade de desenvolver Doença de Alzheimer foi estimada como 31 vezes maior. Em números: a cada 406 casos de encefalite viral, 24 evoluíram para Alzheimer - cerca de 6%.

Também foi observado que indivíduos internados com pneumonia após contrair gripe pareciam apresentar maior suscetibilidade a Doença de Alzheimer, demência, Doença de Parkinson e esclerose lateral amiotrófica (ELA).

Além disso, o estudo apontou associações envolvendo: - Infecções intestinais e meningite (ambas frequentemente de origem viral); - O vírus varicela-zóster, responsável pelo herpes-zóster (também conhecido como “cobreiro”).

Em alguns cenários, os efeitos das infecções virais sobre o cérebro aparentaram persistir por até 15 anos. E, segundo os autores, não houve nenhum caso em que a exposição a vírus tivesse efeito protetor.

Por que alguns vírus têm mais impacto no sistema nervoso

Cerca de 80% dos vírus associados a doenças cerebrais foram classificados como neurotrópicos - isto é, capazes de atravessar a barreira hematoencefálica e alcançar o tecido nervoso.

Esse ponto ajuda a explicar por que determinadas infecções, especialmente as mais graves e inflamatórias, podem deixar consequências duradouras no sistema nervoso, mesmo após a fase aguda da doença.

Vacinação contra gripe, herpes-zóster e pneumonia: um possível caminho para reduzir risco

Os pesquisadores destacaram no artigo que já existem vacinas para alguns dos agentes envolvidos, incluindo gripe (influenza), herpes-zóster (varicela-zóster) e pneumonia.

Eles ressaltaram que, embora as vacinas não impeçam todos os casos de doença, é bem estabelecido que reduzem de forma expressiva as taxas de internação. Com base nesse conjunto de evidências, a equipe sugeriu que a vacinação pode atenuar parte do risco de desenvolver doenças neurodegenerativas.

Como complemento prático, esse achado reforça a importância de manter a caderneta de vacinação em dia, especialmente em grupos mais vulneráveis a complicações infecciosas (como idosos e pessoas com comorbidades). Reduzir infecções graves e hospitalizações pode ter benefícios que vão além do sistema respiratório, alcançando também a saúde neurológica no longo prazo.

Evidências anteriores: vírus Epstein-Barr e esclerose múltipla

Em 2022, outro estudo - com mais de 10 milhões de participantes - relacionou o vírus Epstein-Barr a um aumento de 32 vezes no risco de esclerose múltipla, somando evidências de que certos vírus podem desempenhar papel relevante em doenças do sistema nervoso.

Como os cientistas chegaram a essas associações

Segundo o autor sênior Michael Nalls, neurogeneticista do Instituto Nacional sobre Envelhecimento (Estados Unidos), por muitos anos a ciência buscou, de forma isolada, ligações entre um vírus específico e um distúrbio neurodegenerativo por vez. Ao se depararem com esse cenário, os pesquisadores optaram por uma abordagem diferente, mais orientada por ciência de dados.

A estratégia foi usar prontuários para procurar, de maneira sistemática, todas as conexões possíveis em um único esforço analítico.

Primeiro, a equipe avaliou registros médicos de cerca de 35 mil finlandeses com seis tipos diferentes de doenças neurodegenerativas e comparou com 310 mil pessoas sem diagnóstico de doença cerebral. Essa etapa apontou 45 associações entre exposição viral e doenças neurodegenerativas.

Em seguida, as evidências foram refinadas com uma nova análise, usando 100 mil prontuários do Biobanco do Reino Unido, o que reduziu o conjunto para 22 associações mais consistentes.

O que o estudo não prova - e por que ainda importa

Por se tratar de um estudo observacional retrospectivo, os resultados não demonstram causalidade. Ou seja, eles não confirmam que o vírus, por si só, tenha causado a doença neurodegenerativa. Ainda assim, o trabalho amplia o conjunto de pesquisas que sugerem um possível envolvimento de infecções virais e da inflamação no sistema nervoso no contexto de Doença de Parkinson e Doença de Alzheimer.

O coautor Andrew Singleton, neurogeneticista e pesquisador de Alzheimer, além de diretor do Centro de Alzheimer e Demências Relacionadas, destacou que as doenças neurodegenerativas formam um grupo com poucos tratamentos realmente eficazes e múltiplos fatores de risco. Para ele, os resultados sustentam a hipótese de que infecções virais e a inflamação associada podem ser fatores de risco frequentes - e possivelmente evitáveis - para esse tipo de condição.

Vale acrescentar que, mesmo sem prova de causa, estudos desse tipo ajudam a orientar prioridades de saúde pública e pesquisa clínica: por exemplo, acompanhar sintomas neurológicos após infecções graves, investir em prevenção de hospitalizações e entender quais mecanismos inflamatórios persistentes poderiam ser alvos de intervenções futuras.

Publicação

O estudo foi publicado na revista Neuron.

Uma versão anterior deste texto foi publicada em janeiro de 2023.

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