Pular para o conteúdo

Remédio para Alzheimer mostra benefícios inesperados em algumas crianças com autismo.

Criança brincando com peças coloridas enquanto médica observa, com imagem de exame cerebral no tablet.

Um medicamento usado para retardar a doença de Alzheimer pode ajudar a melhorar alguns comportamentos sociais em crianças com transtorno do espectro do autismo (TEA).

Os achados vêm de um ensaio clínico pequeno e ainda não permitem conclusões definitivas, mas apontam para uma possibilidade importante: um subconjunto específico de jovens com TEA pode ter respostas positivas ao uso de memantina, mesmo após estudos anteriores não terem identificado benefícios claros.

Memantina, glutamato e TEA: por que essa ligação faz sentido

A memantina (vendida em alguns locais sob a marca Namenda) é um medicamento oral que bloqueia receptores cerebrais para glutamato - um neurotransmissor que, em quantidades elevadas, pode se tornar tóxico para o sistema nervoso. Ao reduzir a ação do glutamato de forma mais ampla no cérebro, a memantina pode contribuir para desacelerar a progressão de condições neurodegenerativas.

Uma área do cérebro particularmente rica em receptores de glutamato é o córtex cingulado anterior pregenual (pgACC), região associada ao processamento social e à consciência emocional.

Há indícios de que, em pessoas com TEA, o glutamato possa estar desequilibrado no pgACC, o que ajudaria a explicar certos comportamentos e sintomas relacionados à comunicação e às interações sociais.

O que os estudos anteriores indicavam (e o que ficou faltando)

Em 2017, um ensaio clínico observou que a memantina não trouxe benefício significativo para a responsividade social em crianças com TEA.

Os pesquisadores do Massachusetts General Hospital e da Harvard University decidiram então reavaliar essa questão com um novo ensaio, testando o medicamento em dose mais alta e, principalmente, analisando com mais atenção um grupo mais específico de participantes.

Como foi o novo ensaio clínico com memantina e placebo

O estudo randomizado foi concluído por 33 jovens sem deficiência intelectual, com idades entre 8 e 17 anos, majoritariamente do sexo masculino.

  • Metade do grupo recebeu 20 miligramas (mg) de memantina por dia durante 12 semanas.
  • A outra metade recebeu placebo.

Quem respondeu melhor e quais melhorias foram observadas

Os melhores respondedores à memantina foram aqueles que apresentavam níveis anormalmente altos de glutamato no pgACC.

Nesse subconjunto de crianças, cuidadores adultos relataram que a memantina melhorou comunicação, interação e envolvimento com outras pessoas de forma significativamente maior do que o placebo.

Por que os resultados são promissores, mas ainda não conclusivos

Apesar do sinal positivo, os autores reforçam que são necessários ensaios clínicos maiores antes de qualquer afirmação definitiva.

Mesmo que a memantina realmente venha a melhorar a vida de crianças com TEA, é provável que o benefício não seja universal. Entre todos os participantes do ensaio mais recente, um pouco mais da metade apresentou níveis de glutamato anormalmente elevados no pgACC - justamente o perfil associado a melhor resposta.

Isso ajuda a entender por que estudos anteriores, como o de 2017, podem não ter captado um efeito relevante: ao avaliar o TEA como um grupo único, sem separar subconjuntos, um benefício real para parte dos participantes pode ter sido “diluído” no resultado geral.

TEA é um espectro: por que tratamentos únicos raramente servem para todos

O autismo existe em um espectro, reunindo uma ampla variedade de condições, com grandes diferenças de sintomas e gravidade, influenciadas pela interação complexa entre fatores genéticos e ambientais.

É muito provável que não exista uma causa única por trás do transtorno - e, por consequência, um único tratamento dificilmente será eficaz (ou necessário) para todas as pessoas.

O papel de biomarcadores e a importância de tratar com precisão

Uma implicação prática desses dados é o valor de identificar marcadores biológicos, como alterações em glutamato no pgACC, para orientar decisões terapêuticas. Em vez de expor indiscriminadamente todas as crianças a um medicamento, a abordagem pode evoluir para um modelo mais preciso, direcionado a quem tem maior chance de resposta.

Também é importante considerar que qualquer uso medicamentoso em TEA deve ser acompanhado de avaliação clínica cuidadosa, com monitoramento de efeitos e revisão periódica de objetivos - especialmente quando a meta é melhorar aspectos de comunicação e interação social, que dependem de múltiplos fatores além da neuroquímica.

Próximos passos

Ainda assim, os responsáveis pelo ensaio recente consideram que a memantina tem potencial para melhorar resultados em uma “proporção substancial de pacientes, com exposição mínima e desnecessária àqueles que talvez não se beneficiem”.

A equipe defende a realização de mais pesquisas.

O estudo foi publicado na JAMA.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário