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Metade dos ataques cardíacos em mulheres jovens não é causada por artérias obstruídas.

Paciente jovem tendo pressão arterial medida por médica em consultório cardiológico.

A maior parte dos ataques cardíacos sempre foi atribuída, de forma tradicional, às artérias entupidas que levam à aterotrombose - situação em que um coágulo bloqueia o fluxo de sangue para o coração. Pesquisas mais recentes, porém, indicam que o peso de outras causas pode estar a ser subestimado, sobretudo entre adultos mais jovens.

Infarto em adultos mais jovens: para lá da aterotrombose

Investigadores da Clínica Mayo, nos Estados Unidos, avaliaram 1.474 casos de ataque cardíaco em pessoas com 65 anos ou menos, registados entre 2003 e 2018 no Condado de Olmsted, no estado de Minnesota. Com uma revisão minuciosa de prontuários e exames de imagem, a equipa conseguiu apontar uma causa principal para cada ocorrência.

Nos homens, a aterotrombose respondeu por 75% dos ataques cardíacos - um resultado esperado. Já nas mulheres, essa foi a causa em 47% dos casos, ou seja, menos da metade. A diferença é relevante porque altera a forma como se deve pensar em prevenção e tratamento do ataque cardíaco.

“Esta pesquisa coloca em evidência causas de ataque cardíaco que, historicamente, foram pouco reconhecidas - especialmente entre as mulheres”, afirma a cardiologista Claire Raphael.
“Quando a causa raiz de um ataque cardíaco é interpretada de maneira incorreta, isso pode levar a tratamentos menos eficazes - ou até prejudiciais.”

Outras causas importantes: dissecção espontânea da artéria coronária, embolia e stressores

Entre os fatores que também contribuíram de forma significativa para ataques cardíacos estavam as dissecções espontâneas da artéria coronária (DEAC) - quando uma fissura na parede da artéria permite o acúmulo de sangue e compromete a passagem -, as embolias (coágulos que viajam de outras partes do corpo até as artérias do coração) e outros stressores a atuar sobre o organismo (como anemia).

A equipa observou ainda que muitos ataques cardíacos ligados à DEAC foram, inicialmente, atribuídos de forma equivocada à aterotrombose. Esse erro ocorreu com mais frequência nas mulheres, grupo em que a DEAC apareceu como causa quase seis vezes mais. Se a causa do ataque cardíaco for diagnosticada de modo errado, o médico pode adotar a estratégia inadequada para evitar um novo episódio.

“A nossa pesquisa reforça a necessidade mais ampla de repensar como abordamos ataques cardíacos nesta população de pacientes e, em especial, entre mulheres adultas mais jovens”, diz o cardiologista Rajiv Gulati.
“Os profissionais de saúde precisam aumentar a atenção para condições como DEAC, embolia e gatilhos relacionados ao stresse, e os pacientes devem procurar respostas quando algo não parece certo.”

Por que a diferença entre homens e mulheres ainda precisa de explicação

O estudo não investigou em detalhe o motivo por trás da discrepância entre homens e mulheres, mas levanta hipóteses plausíveis: os fatores de risco para ataque cardíaco podem afetar as mulheres de maneira diferente, ou as mulheres podem ter menor probabilidade de procurar atendimento médico.

Esse é um ponto para pesquisas futuras explorarem, tal como a aplicação das mesmas técnicas de análise em grupos maiores e mais diversos de pessoas.

O contexto nos Estados Unidos e a investigação de fatores de risco

Nos Estados Unidos, uma pessoa sofre um ataque cardíaco a cada 40 segundos. Por isso, a investigação continua a aprofundar o entendimento sobre fatores de risco - que incluem morar em áreas urbanas, alimentação e poluição do ar.

Avanços no diagnóstico e na prevenção de recorrência

Há também um lado positivo: como destacam os autores, a medicina tem melhorado na capacidade de identificar, diagnosticar e prevenir recidivas de ataques cardíacos. Um exemplo disso é o avanço expressivo das tecnologias de imagem cardíaca ao longo do período estudado, o que ajuda a diferenciar causas que podem parecer semelhantes à primeira vista.

Na prática, isso reforça a importância de uma investigação diagnóstica bem direcionada quando o quadro não “fecha” com aterotrombose. Em casos selecionados, exames e leituras de imagem mais detalhados podem ser decisivos para apontar DEAC, embolia ou outros gatilhos e, assim, orientar medidas preventivas mais seguras.

Além disso, reconhecer que a causa pode ser diferente ajuda o paciente e a equipa de saúde a planearem o acompanhamento: desde ajustes terapêuticos até reabilitação cardíaca e orientação sobre sinais de alerta. Quando o tratamento é alinhado à causa real, aumenta-se a chance de recuperação e reduz-se o risco de repetição do evento.

Mais consciência pública e entre profissionais pode salvar vidas

Os investigadores defendem que é necessário fazer mais para elevar a consciência sobre causas alternativas de ataque cardíaco, tanto entre profissionais de saúde quanto na população em geral - algo que, no limite, pode salvar vidas.

“Entender por que um ataque cardíaco aconteceu é tão importante quanto tratá-lo”, afirma Raphael. “Isso pode ser a diferença entre recuperação e recorrência.”

A pesquisa foi publicada na Revista do Colégio Americano de Cardiologia.

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