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Cientistas usaram lasers em espécimes valiosos de Darwin para descobrir mais sobre eles.

Pesquisadora em laboratório analisa amostra preservada em líquido dentro de frasco de vidro.

Frascos enfileirados com espécimes preservados da viagem icónica de Charles Darwin às Galápagos ficaram guardados - e fechados - por cerca de 200 anos nos arquivos do Museu de História Natural de Londres (NHM). Agora, com o apoio de lasers, investigadores conseguiram observar o que há “por dentro” desses recipientes de um jeito inédito, sem precisar abri-los.

Darwin é lembrado por formular a teoria - hoje amplamente aceite - da seleção natural e da evolução, construída em parte a partir do que viu nas ilhas Galápagos enquanto viajava no HMS Beagle. Ao longo do tempo, os seus espécimes preservados ensinaram muito à ciência: mamíferos, répteis, peixes e camarões, entre outros, permanecem visíveis através do vidro que os isola.

O problema era outro: apesar de ser possível ver os animais, não havia como ter certeza sobre qual líquido os mantém preservados sem destapar o frasco. E mexer nessas peças históricas traz riscos reais.

Porque identificar o líquido de preservação é tão importante

“Avaliar as condições de armazenamento de espécimes preciosos e compreender o fluido em que são mantidos pode ter implicações enormes para a forma como cuidamos das coleções e as preservamos para investigação futura durante muitos anos”, explica a técnica de investigação do NHM, Wren Montgomery.

Até aqui, descobrir o fluido de preservação de cada frasco significava abri-lo - um procedimento que pode causar evaporação, contaminação e exposição dos espécimes a danos ambientais, como destaca a física Sara Mosca, da Instalação Central de Laser do Conselho de Instalações de Ciência e Tecnologia do Reino Unido.

Receitas históricas: uma coleção, muitos líquidos diferentes

Ao longo da história, foram usados vários líquidos para preservar organismos. Em geral, entram álcoois como etanol e metanol; já no fim do século XIX, o formaldeído (uma descoberta relativamente recente na época) passou a ganhar espaço.

Alguns exemplos de “receitas” clássicas ajudam a perceber a diversidade:

  • O anatomista neerlandês Frederik Ruysch deixava especiarias aromáticas (cravo, pimenta e cardamomo) de molho numa base de etanol e água.
  • O histologista francês Pol Bouin preferia uma mistura de formaldeído, ácido pícrico e ácido acético.
  • O patologista alemão Carl Kaiserling propôs um método em etapas, mergulhando os espécimes sequencialmente em formaldeído, nitrato de potássio e glicerina.

Segundo Montgomery, Mosca e colegas, essa variedade de fórmulas, ao longo do tempo, acabou por criar uma grande heterogeneidade dentro das coleções: misturas de etanol, metanol, glicerol e formaldeído aparecem com frequência em proporções desconhecidas - e ainda podem ter sido alteradas por evaporação e contaminação com o passar dos anos.

Frascos de Darwin + espectroscopia Raman com deslocamento espacial (SORS)

Para investigar o interior dos frascos sem colocá-los em risco, a equipa recorreu a uma técnica portátil de espectroscopia a laser chamada espectroscopia Raman com deslocamento espacial (SORS).

A espectroscopia Raman mede como a estrutura molecular de um material “responde” quando é atingida por um laser. A luz reemitida pelas moléculas devolve uma espécie de impressão digital espectral, que revela a composição química do que está a ser analisado.

O desafio é que a espectroscopia Raman tradicional (com um único laser) não é adequada para frascos como estes: a luz do laser espalha-se nos primeiros poucos centenas de micrómetros, fazendo com que o sinal seja dominado pela superfície do recipiente (ou seja, pelo vidro).

O SORS contorna essa limitação ao recolher pelo menos duas medições Raman: uma alinhada com a fonte e outra ligeiramente afastada e “deslocada”. Ao subtrair as leituras, surgem assinaturas químicas da superfície e do que está abaixo dela. Para materiais ainda mais complexos, podem ser feitas várias leituras, com múltiplos lasers em diferentes deslocamentos em relação à fonte principal.

O que foi encontrado nos frascos da coleção do HMS Beagle

Ao aplicar o método aos frascos associados à viagem de Darwin, os investigadores conseguiram identificar com precisão os líquidos de preservação em quase 80% dos recipientes. Em mais 15%, a identificação foi parcialmente correta. Apenas três amostras (6,5%) não puderam ser determinadas com confiança.

Os resultados indicaram que mamíferos e répteis foram, na maioria das vezes, “fixados” com formalina e depois mantidos em etanol. Já os invertebrados - sobretudo águas-vivas e camarões - apareceram armazenados em formaldeído ou formaldeído tamponado, por vezes com pequenas quantidades de glicerol ou fenoxietanol adicionadas para melhorar a integridade dos tecidos.

Impacto para museus no mundo inteiro

A pergunta é crucial para quem tem a responsabilidade de conservar o acervo ligado a Darwin, mas o alcance vai muito além da coleção do HMS Beagle. Museus em todo o planeta mantêm mais de 100 milhões de espécimes preservados em líquido - e muitos deles são demasiado valiosos ou frágeis para serem abertos apenas para “conferir” o conteúdo do frasco.

“Esta técnica permite monitorizar e cuidar desses espécimes inestimáveis sem comprometer a sua integridade”, afirma Mosca.

Além de orientar decisões de conservação (como quando substituir um fluido, como reforçar a vedação ou como reduzir perdas por evaporação), a identificação não invasiva também pode melhorar protocolos de segurança: substâncias como formaldeído exigem cuidados específicos de manuseio e armazenamento, e conhecer o que há em cada frasco ajuda a reduzir riscos para equipas e para o ambiente do acervo.

Outra consequência prática é a criação de inventários químicos mais confiáveis. Ao combinar os resultados do SORS com registos de coleção, fotografias e dados de proveniência, museus podem priorizar intervenções, planear restauros e até apoiar novos estudos sobre a história das técnicas de preservação - tudo isso sem colocar em perigo materiais insubstituíveis.

A investigação foi publicada na revista ACS Ômega.

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