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Descoberta de "interruptor" pode ajudar a eliminar parasita comum do cérebro.

Cientista em laboratório segurando modelo digital brilhante de cérebro com monitores exibindo gráficos de DNA ao fundo.

Há um parasita a viver no cérebro de cerca de 40 milhões de norte-americanos, e a grande maioria dessas pessoas nem desconfia.

Na prática clínica, médicos normalmente só tratam esse microrganismo quando ele começa a causar estragos em pacientes com sistema imunitário enfraquecido. Ainda assim, uma descoberta recente sugere um caminho para eliminar o invasor de forma mais direta - e, potencialmente, com menos riscos do que as terapias habituais.

Toxoplasma gondii: por que esse parasita preocupa tanto

O parasitologista Rajshekhar Gaji, que coordena um laboratório no Virginia-Maryland College of Veterinary Medicine, investiga o que faz o Toxoplasma gondii funcionar e sobreviver.

“O parasita que fica alojado no cérebro é reativado, começa a multiplicar-se e, então, pode ser fatal”, explica Gaji. “Por isso, ele é um patógeno temido.”

O T. gondii é fortemente associado aos gatos, que são os únicos hospedeiros conhecidos nos quais o parasita consegue reproduzir-se sexualmente. Contudo, depois que os descendentes são eliminados nas fezes do animal, há pouquíssimas espécies de sangue quente nas quais o T. gondii não consiga instalar-se.

Quando a infeção passa despercebida - e quando se torna perigosa

Para a maioria das pessoas, uma infeção por T. gondii fica totalmente fora do radar. O problema é bem diferente para quem tem câncer, HIV ou usa imunossupressores: nesses casos, o parasita representa riscos relevantes.

Sem um sistema imunitário competente para manter o T. gondii sob controlo, o doente pode desenvolver rapidamente toxoplasmose, uma doença capaz de provocar:

  • sintomas semelhantes aos de uma gripe,
  • gânglios linfáticos inchados,
  • inflamação no cérebro.

Além disso, o parasita pode ser transmitido para a placenta durante a gravidez. Essa forma, chamada toxoplasmose congénita, pode causar problemas no desenvolvimento e até abortos espontâneos.

Por que o tratamento atual pode ser agressivo

As terapias usadas nos quadros agudos de toxoplasmose recorrem a medicamentos que atacam mecanismos do parasita que são biologicamente parecidos com processos do próprio organismo humano. Como consequência, o risco de efeitos adversos graves pode ser elevado, e isso tende a limitar o tratamento a situações consideradas realmente críticas.

Um alvo promissor: desligar a proteína TgAP2X-7

Gaji e a sua equipa identificaram uma pista importante: num estudo recente, mostraram que desativar uma única proteína dentro do parasita microscópico é suficiente para o matar.

Essa proteína, chamada TgAP2X-7, parece ser indispensável para que o T. gondii:

  • invada o hospedeiro,
  • forme placas,
  • se autorreplicque.

Para demonstrar isso, os investigadores fizeram uma modificação genética em parte dos parasitas. A lógica foi a seguinte: a TgAP2X-7 funcionaria normalmente, a menos que fosse adicionada auxina (uma hormona vegetal que regula o crescimento). Na presença de auxina, as proteínas TgAP2X-7 passariam a degradar-se rapidamente.

Antes, o grupo já tinha verificado que a auxina, por si só, não alterava o crescimento do T. gondii nem a formação de placas. Assim, qualquer mudança observada nos parasitas modificados poderia ser atribuída à destruição da TgAP2X-7.

O que aconteceu quando o parasita ficou sem TgAP2X-7

Sem TgAP2X-7, os parasitas deixaram de formar placas e tiveram a capacidade de invadir células hospedeiras bastante comprometida - neste estudo de laboratório, as células hospedeiras eram células de prepúcio humano.

Em condições normais, o parasita costuma ter uma taxa de sucesso de invasão próxima de 100% nesse tipo celular. No entanto, sem a proteína essencial, a taxa caiu para menos de 50%. Além disso, os parasitas também passaram a ter dificuldade para se replicar.

“Esses parasitas param completamente de crescer e não conseguem sobreviver”, afirma Gaji. “Isso mostra que este fator de transcrição específico é essencial para o parasita sobreviver dentro do hospedeiro.”

Por que isso pode ser mais seguro para o paciente

Um ponto particularmente animador é que essa proteína não se parece com nada presente no corpo humano. Em teoria, isso abre a possibilidade de a TgAP2X-7 ser atacada sem provocar dano direto ao paciente - algo que ajudaria a contornar parte dos problemas das terapias atuais.

A primeira autora, a parasitologista Padmaja Mandadi, e colegas destacam essa necessidade:

“Há uma necessidade crítica de identificar e desenvolver novas opções terapêuticas para tratar infeções por Toxoplasma”, escrevem.

“Fatores de transcrição únicos, que regulam a expressão de proteínas envolvidas nesses eventos do ciclo lítico, podem abrir novas oportunidades para intervenções terapêuticas.”

Como grande parte do dano causado pelo T. gondii resulta de ciclos repetidos de invasão celular, replicação e destruição das células, compreender como interromper o ciclo lítico pode apontar para estratégias inéditas de tratamento.

O que isto muda no horizonte da toxoplasmose

Ainda que a descoberta não signifique um medicamento pronto, ela ajuda a definir um alvo claro: um fator de transcrição essencial e aparentemente exclusivo do parasita. Na prática, isto pode orientar o desenvolvimento de fármacos mais específicos e, potencialmente, com menos toxicidade - especialmente importantes para doentes imunocomprometidos, em quem a reativação no cérebro pode ser devastadora.

Medidas práticas de prevenção (especialmente importantes na gravidez e na imunossupressão)

Enquanto novas terapias não chegam, reduzir a exposição continua a ser fundamental. Em termos de saúde pública e cuidados individuais, vale reforçar medidas simples, como higiene rigorosa ao manusear areia de gatos e atenção à alimentação.

No dia a dia, práticas que costumam ser recomendadas incluem: - lavar bem as mãos após jardinagem ou contacto com terra, - higienizar frutas, verduras e legumes, - cozinhar bem carnes e evitar prová-las cruas durante o preparo, - na gestação, evitar limpar a caixa de areia (ou usar luvas e lavar as mãos cuidadosamente).

Publicação

O estudo foi publicado na revista mSphere.

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