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Alergias a amendoim caem muito após mudança na orientação médica, mostram dados.

Mãe alimentando bebê em cadeirão na cozinha, com livro aberto e smartphone em vídeo chamada na mesa.

As diretrizes alimentares atualizadas nos Estados Unidos mudaram de forma marcante a forma como famílias e profissionais lidam com alergias alimentares na infância - e isso tem sido associado a uma queda relevante no número de crianças com alergias específicas, reduzindo a necessidade de evitar alimentos com ingredientes como amendoim e ovos.

Uma das principais revisões das recomendações de prevenção de alergias no país foi divulgada em 2015, com ajustes adicionais em 2017. Agora, um estudo conduzido por uma equipa do Hospital Infantil da Filadélfia (CHOP) indica que, nos anos seguintes a essas mudanças, dezenas de milhares de crianças podem ter sido poupadas do desenvolvimento de alergias.

Diretrizes alimentares atualizadas e alergias alimentares mediadas por IgE: o que estava em foco

As orientações dão prioridade às alergias alimentares anafiláticas, também chamadas de alergias alimentares mediadas por imunoglobulina E (IgE) - referência ao anticorpo envolvido. Esse tipo de reação costuma surgir rapidamente após o contacto com o alimento e pode variar de intensa a potencialmente fatal.

Em 2015, a recomendação-chave passou a ser introduzir produtos à base de amendoim muito cedo na vida, como forma de “treinar” o sistema imunitário a tolerar o ingrediente. Antes disso, o aconselhamento mais comum era adiar a exposição até a criança ter pelo menos 3 anos.

“Todos se perguntavam se essas intervenções históricas de saúde pública teriam impacto na redução das taxas de alergias alimentares mediadas por IgE nos Estados Unidos”, afirma o imunologista Stanislaw Gabryszewski, do CHOP.

“Agora temos dados que sugerem que o efeito dessa intervenção histórica de saúde pública está mesmo a acontecer”, acrescenta.

O que os dados mostraram após as novas recomendações

Os investigadores examinaram registos de saúde de quase 125.000 crianças nascidas antes e depois da adoção das diretrizes mais recentes. Entre os principais resultados:

  • A taxa de alergia ao amendoim mediada por IgE caiu de 0,79% para 0,45% no grupo estudado.
  • A frequência de qualquer alergia alimentar mediada por IgE diminuiu de 1,46% para 0,93%.

A mudança é expressiva e sugere, na prática, que a cada 200 crianças pequenas expostas a esses alimentos, uma pode ter evitado uma alergia que poderia surgir.

“Os nossos achados são relevantes tanto para quem trata pacientes quanto para quem cuida de bebés; mais consciencialização, educação e defesa dessas práticas podem ampliar os resultados positivos que observámos”, diz o imunologista David Hill, também do CHOP.

Evidências convergentes e expansão para além do amendoim

O estudo vai ao encontro de resultados divulgados anteriormente com uma amostra menor de crianças na Austrália. Nessa pesquisa, a introdução de amendoim e ovos por volta dos seis meses foi associada a uma redução importante no número de alergias que se desenvolveram ao longo do tempo.

Embora as recomendações de 2015 - originadas no ensaio Aprender Cedo Sobre Alergia a Amendoim (LEAP) - tivessem foco principal no amendoim, elas foram ampliadas em 2021 para abranger mais alergias alimentares mediadas por IgE. Como a adoção dessas mudanças não ocorreu de forma imediata e uniforme, observar efeitos já neste estágio relativamente inicial é um sinal animador.

Como isso se traduz em cuidados no dia a dia (e o que ainda falta saber)

Na prática, a introdução precoce não significa ausência de cautela. Bebés com maior risco (por exemplo, com eczema moderado a grave ou com histórico sugestivo de reação) podem beneficiar-se de avaliação individualizada antes da oferta de certos alimentos - incluindo orientação de pediatria e, quando necessário, alergologia - para reduzir riscos e aumentar a segurança.

Além disso, a estratégia precisa caminhar junto com cuidados básicos de alimentação infantil: oferecer alimentos em formas adequadas à idade e com textura segura ajuda a reduzir riscos de engasgamento, especialmente ao introduzir derivados de amendoim (como pastas diluídas ou preparações apropriadas para bebés), sempre respeitando o desenvolvimento e a aceitação alimentar.

Ainda assim, para confirmar com maior robustez a ligação entre exposição precoce e menor incidência de alergias, os autores destacam que será necessário acompanhar um número maior de crianças por mais tempo. Isso também pode ajudar a refinar estratégias de prevenção e identificar quais abordagens funcionam melhor em diferentes grupos.

“Estudos futuros podem explorar práticas específicas de alimentação que nos ajudem a entender melhor o momento, a frequência e a dose de alimentos que optimizam a proteção contra alergias alimentares”, afirma Hill.

A pesquisa foi publicada na revista científica Pediatria.

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