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Estudo revela que sépias literalmente torcem a luz para atrair parceiros.

Lula marinha nadando próxima ao fundo arenoso com mergulhador ao fundo fotografando.

Todo ser vivo do planeta que depende de reprodução sexuada desenvolveu alguma forma de atrair um parceiro - mas as lulas-sépias conseguem fazer algo realmente fora do comum.

No caso dos machos da lula-sépia Andrea (Doratosepion andreanum), que para olhos humanos parecem relativamente discretos, a sedução envolve um truque óptico sofisticado: eles usam os braços birrefringentes para literalmente “torcer” a luz e criar um sinal altamente chamativo, ajustado com precisão ao modo como as lulas-sépias enxergam.

O que a lula-sépia enxerga: polarização além das cores

Já se sabia que os olhos extremamente peculiares das lulas-sépias conseguem perceber a orientação das ondas de luz, isto é, a polarização. A novidade é que, além de detectar essa característica, elas também conseguem manipulá-la ativamente para transmitir mensagens específicas.

De acordo com a equipa liderada pelo biólogo aquático Arata Nakayama, da Universidade de Tóquio, os resultados “mostram a contribuição importante da polarização da luz para a comunicação animal e revelam que sinais de polarização - tal como ornamentos sexuais coloridos - podem alcançar alta visibilidade por mecanismos ópticos fundamentalmente diferentes”.

Um repertório de comunicação que combina cor, padrões e gestos

O “kit” de comunicação das lulas-sépias é surpreendentemente complexo. Ele inclui mudanças hipnotizantes de cor e de padrões no corpo e também gestos elaborados feitos com os braços, altamente flexíveis.

Além disso, esses cefalópodes têm olhos que não se parecem com os de qualquer outro animal, com pupilas em formato de “W”. Embora sejam frequentemente considerados daltónicos (com visão limitada para cores), conseguem perceber propriedades da luz visível fora do alcance humano - sobretudo a polarização das suas ondas transversais.

O que é polarização da luz (e por que isso importa)

Quando a luz se propaga, ela normalmente vibra em várias direções ao mesmo tempo. Porém, esse movimento pode ficar restrito a uma única orientação - e essa propriedade é chamada de polarização. Óculos de sol polarizados funcionam bloqueando a luz que vibra em certas direções e deixando passar apenas a que está orientada de uma forma específica.

Reflexos em determinadas superfícies ou a passagem por meios translúcidos e transparentes também podem “forçar” as vibrações para uma direção preferencial, polarizando a luz.

Desde que se descobriu que lulas-sépias conseguem ver polarização, cientistas suspeitam que esse recurso faça parte do repertório de comunicação delas. Um estudo de 2004 mostrou não só que tecidos do corpo desses animais polarizam a luz, como também encontrou indícios limitados de que as lulas-sépias respondem a esse tipo de sinal.

Estudo com a lula-sépia Andrea: braços birrefringentes e sinalização por polarização

Para investigar o tema com mais rigor, Nakayama e colegas desenharam um estudo focado nos gestos de corte dos machos da lula-sépia Andrea, registando em vídeo os movimentos dos braços durante as exibições.

Esses cefalópodes possuem dois braços extra-longos, com diferenças marcantes entre os sexos. Ao cortejar, o macho enrola esses braços e depois os estende para a frente, enquanto faixas iridescentes de cor aparecem no corpo.

Os investigadores recolheram exemplares selvagens e colocaram pares macho-fêmea em tanques de observação com iluminação cuidadosamente controlada para reproduzir a polarização horizontal típica da luz no ambiente oceânico. As interações foram filmadas com câmaras capazes de registar polarização e também foram captadas imagens dos animais fora do contexto de corte, para servir de referência.

Como o gesto “gira” a luz: contraste máximo para a visão da lula-sépia

As gravações revelaram que, quando a lula-sépia torce os braços de uma maneira específica, a luz polarizada horizontalmente atravessa o músculo translúcido. Esse tecido, por ser birrefringente, consegue rodar a polarização da luz em quase 90 graus, convertendo-a para uma orientação vertical.

O resultado é a formação de faixas alternadas de luz polarizada horizontal e vertical - um contraste máximo para a visão de lulas-sépias e, por isso, um sinal especialmente eficiente para chamar atenção. Em termos práticos, é como uma serenata ousada, só que feita de luz.

Outro detalhe notável é que o formato cilíndrico do braço intensifica esse efeito. A geometria funciona como uma “configuração ideal” para transformar um feixe com polarização horizontal em um feixe com polarização vertical, aumentando ainda mais a diferença perceptível para quem vê polarização.

Quando estavam fora do comportamento de corte, as lulas-sépias não produziam esse sinal de polarização. Isso sugere que esses animais podem ter evoluído algo muito próximo de uma “lâmina de onda” biológica, ajustada precisamente para aumentar o sucesso reprodutivo.

O que ainda não sabemos: sinais escondidos no mundo visual dos cefalópodes

Se as lulas-sépias usam sinais de polarização para além do corte - por exemplo, em disputas entre machos, defesa contra predadores ou coordenação em interações sociais - continua a ser uma questão em aberto. A resposta pode depender do avanço de ferramentas que nos permitam observar melhor esse “mundo visual oculto” que escapa à visão humana.

Também é plausível que diferentes espécies combinem polarização com padrões corporais e movimentos em sequências específicas, criando uma espécie de “gramática visual” invisível para nós, mas óbvia para animais sensíveis à polarização. Esse tipo de hipótese ajuda a explicar por que certos comportamentos parecem exagerados quando vistos apenas em cor comum, sem o componente polarizado.

Como escrevem os autores, assim como existe uma diversidade enorme - já reconhecida e estudada há décadas - de colorações nos animais, pode haver uma diversidade semelhante de sinais de polarização entre espécies que percebem polarização; sinais que permanecem completamente desconhecidos para nós porque não são visíveis ao olho humano. Segundo a equipa, o estudo ajuda a iluminar uma parte dessa diversidade escondida.

A investigação foi publicada nos Anais da Academia Nacional de Ciências.

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