Chen Deli, pesquisador-chefe da startup chinesa DeepSeek, participou de um evento sobre inteligência artificial (IA) em seu país - e levou ao palco previsões que soam inquietantes.
Nos últimos meses, a DeepSeek manteve um perfil mais reservado. Ainda assim, em janeiro de 2025, a empresa sacudiu as convicções do ecossistema de IA ao lançar um modelo de raciocínio, open source e extremamente performático, capaz de rivalizar com soluções da OpenAI, mas custando apenas uma fração do valor.
Desde então, a companhia passou a ser tratada como um dos pilares da IA na China e virou vitrine para Pequim, como sinal de que o país consegue competir com os gigantes norte-americanos. Em fevereiro, o fundador Liang Wenfeng chegou a participar de uma reunião com o presidente Xi Jinping. Ao mesmo tempo, a DeepSeek vem trabalhando em estreita colaboração com pesos-pesados locais de semicondutores, como Huawei e Cambricon, cujos chips são ajustados especificamente para rodar seus modelos com maior eficiência.
Nesse contexto, não surpreende que a DeepSeek tenha reaparecido nesta semana na World Internet Conference de Wuzhen, um encontro estratégico para os principais atores do setor digital chinês. Porém, no palco, Chen Deli apresentou um ponto de vista que contrasta com o otimismo dominante na indústria.
DeepSeek e inteligência artificial (IA): um impacto assustador no emprego
“Sou extremamente positivo em relação à tecnologia, mas enxergo de forma negativa o impacto que ela pode ter na sociedade”, afirmou. Na visão dele, a IA pode, no curto prazo, “ajudar a humanidade em larga escala”, mas o efeito no horizonte mais distante tende a ser perigoso.
Ele alertou: “Em cinco a dez anos, a IA será boa o suficiente para substituir uma parte do trabalho humano. Nos próximos dez a vinte anos, pode tomar o restante”. Ao fazer esse aviso, defendeu que empresas de tecnologia assumam uma postura mais protetiva diante da transformação. O tom, direto e quase alarmista, vai na contramão da narrativa triunfal frequentemente associada aos grandes nomes do setor - e sugere que até mesmo quem projeta as ferramentas teme as consequências.
Enquanto governos destinam bilhões e startups disputam profissionais altamente qualificados, o chão da economia endurece: ondas de demissões e os primeiros ciclos de automação já começam a atingir diversos segmentos.
O que pode amortecer o choque social
Uma dimensão adicional desse debate é a velocidade de adaptação do mercado de trabalho. Se a automação avançar mais rápido do que programas de requalificação e recolocação, a pressão pode se concentrar justamente em funções repetitivas e em áreas com menor margem para transição imediata - ampliando desigualdades e reduzindo a segurança econômica de famílias.
Também cresce a discussão sobre como repartir ganhos de produtividade gerados por modelos de raciocínio e outras aplicações de inteligência artificial (IA). Medidas como treinamento contínuo financiado por empresas, regras de transparência no uso de sistemas automatizados e políticas públicas voltadas a transições de carreira tendem a ser decisivas para que o avanço tecnológico não se traduza, automaticamente, em perda generalizada de renda e oportunidades.
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