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Por que tantos veterinários se suicidam? “Quando sacrificamos um animal, as pessoas ficam irritadas conosco.”

Duas veterinárias confortam um cachorro dourado sentado em um banco ao ar livre.

Muita gente ainda imagina a medicina veterinária como uma profissão “leve”: fazer carinho em filhotes, tratar um cavalo, salvar o gato da família. Só que, em vários países, veterinários relatam taxas elevadas de depressão, burnout e ideação suicida, muito acima das observadas na população em geral. Esse abismo entre o trabalho romantizado e o cotidiano real está no centro de uma crise crescente de saúde mental na área.

O trabalho que o público romantiza - e o que a medicina veterinária realmente exige

A medicina veterinária costuma atrair pessoas movidas por empatia e vontade genuína de ajudar animais. Para chegar lá, estudantes enfrentam um dos cursos mais disputados e puxados, sustentados justamente por essa sensibilidade. Depois, porém, a mesma empatia pode virar um fator de vulnerabilidade.

Nas séries, vídeos e redes sociais, o dia a dia parece simples: examinar, diagnosticar, tratar, receber lambidas e agradecer com um sorriso para o tutor. O que raramente aparece nessas imagens é a conversa sobre dinheiro. Ao contrário do que ocorre com muitos médicos de pessoas em sistemas públicos ou com forte cobertura de seguros, na rotina de pequenos animais o veterinário frequentemente precisa falar de custos diretamente com o cliente antes mesmo de iniciar uma investigação diagnóstica completa.

Toda decisão terapêutica vira um triângulo entre animal, tutor e veterinário - e o dinheiro fica desconfortavelmente no meio.

E a medicina avançou muito: hoje, exames de imagem sofisticados, cirurgias e internações intensivas para pets são cada vez mais comuns. Do ponto de vista técnico, isso é impressionante; do ponto de vista financeiro, pode ser devastador. É comum o tutor chegar emocionado, dizer que quer “fazer tudo”, e depois reagir com raiva ao ver quanto custa esse “tudo”. Ainda existe a ideia de que amar animais deveria significar trabalhar quase de graça.

Quando o pet é uma âncora emocional, não um passatempo

Veterinários já não lidam com “apenas um cachorro” ou “apenas um gato”. Para muitas pessoas - especialmente quem mora sozinho - o animal é o companheiro mais próximo e a principal fonte de conforto do dia a dia. Isso eleva a carga emocional dentro do consultório.

Um veterinário experiente descreve situações em que um viúvo idoso leva o seu último companheiro, um cão que está com ele há anos. Quando esse animal chega ao ponto em que a eutanásia é a alternativa mais compassiva, o profissional sente o peso de interromper o vínculo afetivo mais constante daquela pessoa.

Nessas horas, muitos tutores não se comportam como clientes racionais; eles estão vivendo um luto. Raiva, culpa e negação acabam despejadas sobre quem está de jaleco. Veterinários relatam ser acusados de “terem feito cedo demais”, “tarde demais” ou “terem tratado errado” antes. Para a psicologia, isso faz parte do luto; para quem realiza várias eutanásias numa mesma semana, vira mais uma camada de trauma.

Eutanásia: uma parte do trabalho que quase nunca é elaborada

Encerrar a vida de um animal costuma ser entendido como um ato humanitário, feito para evitar sofrimento. Ainda assim, isso não torna a experiência emocionalmente neutra.

Alguns profissionais passam semanas sem realizar uma eutanásia. Outros se veem diante de várias em poucos dias. Em cada ocasião, precisam manter serenidade e acolhimento diante da família, conduzir todo o procedimento clínico e, logo depois, atender o próximo caso - talvez uma vacinação de filhote, cheia de alegria e expectativa.

A profissão normaliza tanto a morte que muitos veterinários não encontram espaço para viver o próprio luto - ou sequer admitir que foram afetados.

Veterinários mais jovens, em especial, podem se surpreender com a intensidade dessas cenas. E uma tendência recente pode piorar: há tutores que filmam ou transmitem ao vivo a eutanásia no celular para parentes que estão longe. O que já seria um momento delicado ganha um componente de “apresentação” para uma plateia invisível. Muitos profissionais se sentem encurralados: não querem parecer frios, mas ficam profundamente desconfortáveis ao serem gravados enquanto encerram uma vida.

Abusos, desconfiança e linchamento na internet

Além do luto, existe desrespeito explícito. Há relatos de clientes que recusam atendimento com uma veterinária jovem ou de baixa estatura, alegando que ela não “parece” competente para lidar com um animal grande. Outros sobem o tom quando a conta não corresponde à expectativa de um “exame rapidinho”.

Somado a isso, veio a camada digital. Um único cliente irritado pode deixar uma avaliação de uma estrela e uma acusação extensa no Google ou nas redes sociais. Mesmo quando a crítica é injusta, ela fica lá, visível, machucando toda vez que o veterinário abre o perfil do consultório. Em uma profissão em que reputação pesa muito, a sensação pode ser a de humilhação pública.

Fatores que se acumulam com frequência:

  • Decisões emocionalmente carregadas sobre vida e morte
  • Conflito direto sobre dinheiro e limites de tratamento
  • Pressão acadêmica e carga de trabalho elevadas
  • Acesso relativamente fácil a fármacos letais
  • Críticas e assédio na internet

Os números por trás da crise de saúde mental entre veterinários

Pesquisas feitas na Alemanha e em outros lugares desenham um quadro duro. Em um levantamento amplo com veterinários atuando em clínica, apareceram os seguintes indicadores:

Indicador Veterinários População geral
Ideação suicida atual 19,2% 5,7%
Risco elevado de suicídio 32% 6,6%
Depressão clinicamente relevante 27,8% 4%

Estudos de outros países apontam na mesma direção: veterinários têm probabilidade várias vezes maior de morrer por suicídio do que a população em geral. Um fator se destaca com força: o acesso aos meios. Medicamentos usados em eutanásia são potentes e de ação rápida. O veterinário sabe exatamente a dose letal e tem conhecimento e acesso que muitas pessoas em sofrimento não têm.

Quando uma profissão junta grande desgaste emocional com acesso fácil a métodos letais, as tentativas de suicídio tendem a ser mais fatais.

Para além da clínica de pequenos animais: outras áreas da medicina veterinária também adoecem

O desgaste não fica restrito a quem atende cães e gatos. Veterinários de campo, que trabalham com produção, frequentemente vivem de plantão quase contínuo, rodam longas distâncias e lidam com emergências a qualquer hora. Esse ritmo corrói o sono, as relações pessoais e a capacidade de recuperação emocional.

Já os veterinários que atuam em órgãos públicos enfrentam pressões diferentes. Eles fiscalizam propriedades, aplicam regras de bem-estar animal e, em situações extremas, precisam retirar animais em condições chocantes de negligência. Em surtos de doenças - como gripe aviária ou febre suína - podem ser designados para supervisionar o abate sanitário de muitos animais que, individualmente, pareceriam saudáveis. Para profissionais que entraram na área para proteger animais, e não para destruí-los, isso pode ser especialmente devastador, sobretudo no começo da carreira.

No caso de veterinários de frigorífico, o trabalho costuma ser assumido com maior clareza desde o início. O foco está em higiene, segurança dos alimentos e cumprimento das normas de abate humanitário. Ainda é um ambiente difícil, mas as expectativas tendem a ser menos ambíguas.

Um tabu que começa a ceder

Em muitas comunidades do interior, quando um veterinário morre por suicídio, é comum que as pessoas falem baixo e chamem de “acidente de carro” ou digam que “bateu numa árvore”. Quem estava mais perto geralmente sabe o que aconteceu. O problema é que o silêncio faz com que outros profissionais, sofrendo de forma parecida, acreditem que estão sozinhos - ou que isso é sinal de fraqueza.

Em algumas regiões da Alemanha, entidades profissionais começaram a enfrentar esse silêncio. Uma das iniciativas é a Vet-Hilfe, uma linha telefônica de crise voltada a veterinários e auxiliares de veterinária. Outra é um projeto-piloto com equipe de intervenção em crise financiada como pesquisa.

Como o apoio entre pares pode funcionar (saúde mental na medicina veterinária)

A lógica é direta: colegas cuidando de colegas. O veterinário em sobrecarga aciona o serviço e recebe uma visita presencial de um par treinado. Essa pessoa escuta, ajuda a organizar prioridades e faz a ponte para recursos adicionais. Em alguns casos, o caminho é terapia psicológica. Em outros, a necessidade é bem prática: reorganizar uma clínica que está desandando, ou receber indicação de contador e consultor de gestão.

Muitos veterinários aprendem cirurgia, farmacologia e patologia a fundo, mas quase nada sobre manter um negócio sustentável ou impor limites a clientes.

Essa lacuna deixa novos proprietários de clínica particularmente expostos. Dívidas acumuladas ao longo dos estudos, pressão para comprar equipamentos caros e tutores revoltados com reajustes formam uma tempestade perfeita. Sem mentoria e sem formação em gestão, alguns profissionais se veem presos - e com vergonha de admitir que não estão dando conta.

Um ponto adicional, pouco discutido, é a necessidade de rotinas de “descompressão” depois de casos críticos. Clínicas que criam espaços curtos de conversa pós-eutanásia, rodízio de tarefas em dias pesados e protocolos para lidar com agressões verbais tendem a reduzir o isolamento emocional da equipe. Isso não elimina o sofrimento, mas diminui a sensação de que cada um precisa aguentar sozinho.

No Brasil, também vale lembrar que suporte em crise não precisa esperar um programa específico da categoria: o CVV (188) atende 24 horas. Em paralelo, conselhos regionais e associações podem ser pressionados a fortalecer canais de acolhimento e orientação - inclusive para temas práticos como finanças, contratos e segurança no trabalho com medicamentos controlados.

O que estudantes e jovens veterinários podem fazer para se proteger

O curso de veterinária é conhecido por jornadas longas, cobrança alta e pouco tempo para a vida fora da faculdade. Profissionais experientes costumam aconselhar: tratar saúde mental com a mesma seriedade que qualquer prova.

Medidas protetivas frequentes incluem:

  • Construir amizades e hobbies fora da profissão
  • Encontrar um mentor (de preferência um veterinário mais experiente disposto a falar com honestidade)
  • Aprender noções básicas de finanças e gestão desde cedo
  • Definir limites realistas para carga horária e disponibilidade
  • Conversar sobre luto e estresse, em vez de transformar isso em “falha pessoal”

A mentoria, em particular, tem efeito grande. Um colega sênior acolhedor ajuda a normalizar sentimentos difíceis, compartilha formas de enfrentar eutanásia e conflitos com tutores e mostra, na prática, como dizer “não” quando as exigências ultrapassam limites éticos ou viáveis.

O que tutores quase nunca enxergam - e o que ajuda de verdade

A maioria dos tutores não quer ferir o veterinário. Mesmo assim, pequenas mudanças de comportamento aliviam bastante a carga. Exemplos concretos:

  • Perguntar sobre custos logo no início, sem hostilidade, aceitando que cuidados avançados têm preço
  • Contratar plano de saúde pet ou seguro antes de uma emergência
  • Entender que a raiva durante a eutanásia pode fazer parte do luto, mas evitar descarregar isso na equipe
  • Escrever uma avaliação positiva na internet quando for bem atendido (e não postar apenas quando está indignado)
  • Permitir que o veterinário diga que insistir em mais tratamento pode não ser o melhor para o animal

Um conceito útil aqui é o “sofrimento moral”. Trata-se da dor de saber qual seria a conduta correta para o paciente - por exemplo, suspender intervenções e evitar prolongar o sofrimento - e, ainda assim, ser impedido por pressões externas, como o tutor exigindo procedimentos sem benefício real ou recusando cuidados essenciais por falta de dinheiro. Esse conflito aparece com frequência na rotina veterinária.

Imagine um caso: um gato com insuficiência renal avançada, quase sem comer e visivelmente desconfortável. Tecnicamente, o prognóstico é ruim. O veterinário recomenda, com cuidado, a eutanásia. O tutor, chorando, pede “só mais uma semana” de fluidoterapia e medicamentos. Nos dias seguintes, o profissional fica se perguntando se ajudou - ou se apenas prolongou o desconforto. Quando isso se repete em dezenas de pacientes, o efeito acumulado fica evidente.

Do outro lado, há decisões econômicas inevitáveis: uma família jovem leva um cão com a perna quebrada. A cirurgia padrão-ouro está muito acima do orçamento. O veterinário propõe uma alternativa mais barata e menos ideal, sabendo que pode haver rigidez no futuro, mas que ao menos evita a eutanásia. Esse equilíbrio constante entre o melhor da medicina e os limites da vida real desgasta muitos profissionais.

A conversa sobre suicídio entre veterinários já não é apenas um assunto interno. Ela começa a aparecer mais abertamente, levantando perguntas difíceis sobre como a sociedade valoriza o cuidado com animais, o trabalho emocional e a saúde mental - e como tutores, instituições e colegas podem dividir esse peso de forma mais justa.

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