No fim de 2024, um enorme pulso de energia do oceano nasceu em uma tempestade remota e atravessou o planeta quase sem chamar atenção. O que revelou a verdadeira dimensão do episódio foi uma nova geração de satélites: ondas titânicas, comparáveis à altura de um prédio de 11 andares, avançando pelo Pacífico e muito além.
Tempestade Eddie: como um sistema distante ergue paredes de água de 35 metros
Tudo começou com uma tempestade muito intensa no Pacífico Norte, apelidada de Eddie, que se organizou longe de qualquer costa no final de 2024. Meteorologistas acompanharam a evolução dos ventos e da pressão atmosférica; já os oceanógrafos estavam atentos ao que o sistema estava fabricando na superfície do mar: ondas.
No núcleo da tempestade, foram registradas alturas significativas de onda acima de 19 metros. Só esse número já coloca Eddie entre os eventos mais fortes observados em décadas. No meio desse mar caótico, algumas ondas individuais gigantes chegaram a cerca de 35 metros do vale ao topo.
Eram ondas altas o bastante para rivalizar com um pequeno edifício comercial - e, ainda assim, se formaram a centenas de quilômetros de qualquer litoral.
E a história não terminou quando a tempestade perdeu força. Depois de geradas, essas ondas se reorganizaram em marulhos de longo período - com intervalos de até 30 segundos entre cristas - e se espalharam pelo oceano. Elas cruzaram o Pacífico Norte, atravessaram a temida Passagem de Drake entre a América do Sul e a Antártida e, no começo de 2025, alcançaram o Atlântico tropical após uma viagem de quase 24.000 quilômetros.
No caminho, esse marulho encostou em litorais famosos. Na Costa Norte de Oahu, no Havaí, e em trechos da Califórnia, a ondulação alimentou disputas lendárias de surfe, como o Eddie Aikau Invitational. Para quem assistia, foi um espetáculo raro; para a ciência, um teste em escala real sobre como a energia das ondas se propaga por bacias inteiras.
O que os satélites realmente enxergaram nessas ondas monstruosas
Até pouco tempo atrás, entender ondas em mar aberto significava depender sobretudo de modelos numéricos e de dados esparsos de boias. As ondas mais longas e extremas apareciam apenas de vez em quando nas medições, deixando lacunas importantes no registro.
Esse cenário mudou com o lançamento da missão SWOT (Topografia da Água Superficial e do Oceano), um projeto conjunto da NASA com a agência espacial francesa CNES. A SWOT leva instrumentos de radar desenhados para mapear a forma da superfície da água com alta precisão.
A SWOT consegue captar ondulações suaves separadas por centenas de metros, trazendo à tona marulhos longos que antes passavam quase invisíveis para as medições tradicionais.
Ondas de longo período com força além do esperado
Os dados coletados em dezembro de 2024, quando os marulhos de Eddie varriam o Pacífico, deram aos pesquisadores uma das visões mais claras já obtidas sobre ondas extremas de longo período. Entre os principais resultados, destacam-se:
- Os períodos de onda chegaram a aproximadamente 30 segundos entre cristas, bem acima do que se costuma ver em ondas típicas de praia.
- Uma pequena fração das ondas concentrou uma parte desproporcional da energia total.
- Fórmulas mais antigas superestimavam quanta energia, em média, ficava nas ondas mais longas quando se olha o “estado do mar” como um todo.
Em muitos cálculos empíricos anteriores, assumia-se que a energia se distribuía de modo mais uniforme entre comprimentos de onda. Ao comparar as medições da SWOT com modelos, os cientistas concluíram que as ondas mais longas chegaram a receber, em estimativas antigas, até vinte vezes mais energia do que de fato carregavam em média.
O que os dados sugerem é outra dinâmica: a energia fica “empacotada” em poucas ondas dominantes - aquelas que deixam marinheiros experientes desconfortáveis. Um pesquisador comparou o efeito a um boxeador que acerta poucos golpes decisivos, em vez de muitos golpes fracos e constantes. Nos modelos, o mar pode parecer relativamente uniforme; no oceano real, algumas ondas excepcionais são as que fazem a maior parte do estrago.
Essas conclusões, publicadas em 2025 nos Anais da Academia Nacional de Ciências (PNAS), propõem uma forma atualizada de representar ondas extremas. O novo esquema incorpora interações não lineares entre ondas curtas e agitadas e os marulhos longos que passam por baixo delas - interações que, com frequência, eram simplificadas demais ou simplesmente ignoradas.
De Hercules a Eddie: repensando o quão raros são esses episódios
Para estimar o quão fora do comum foi Eddie, os pesquisadores compararam o caso com outros gigantes do registro recente. Um marco importante é a tempestade Hercules, de 2014, que lançou ondas enormes contra os litorais de Marrocos, Portugal, Espanha e Irlanda.
Arquivos de satélites da Agência Espacial Europeia permitiram colocar Hercules e Eddie lado a lado. Em termos de energia de ondas e picos de altura em mar aberto, Eddie igualou ou até superou Hercules. A diferença é que as ondas mais violentas de Eddie passaram a maior parte do tempo longe de áreas densamente povoadas - o que reduziu danos, mas também significou menos instrumentos medindo diretamente a passagem das maiores séries.
As medições por satélite indicam que o rótulo “uma vez por década” pode subestimar a frequência com que campos de ondas muito energéticos se formam longe do continente.
Como tempestades distantes nem sempre viram desastres costeiros estampados em manchetes, elas podem ficar fora de certas avaliações de risco. O novo histórico baseado em satélites sugere que o oceano talvez gere sistemas de ondas extremamente energéticos com mais regularidade do que as observações costeiras, sozinhas, deixam perceber.
O que isso muda para costas diante de um oceano mais energético
Saber de onde vem a energia das ondas e por onde ela viaja tem impacto direto para quem vive e trabalha perto do mar. Marulhos de longo período não se comportam como ondas locais geradas pelo vento. Eles conseguem levar energia para dentro de portos, ultrapassar recifes e alcançar praias que, em tempestades comuns, parecem protegidas.
Pesquisadores chamam atenção para alguns pontos críticos no planejamento costeiro:
- Erosão acelerada: marulhos longos podem arrancar areia e enfraquecer dunas mesmo em dias de céu aberto e vento fraco.
- Danos em portos: ondas energéticas que entram por bocas de porto podem sobrecarregar amarrações, cais e quebra-mares projetados para mares mais curtos e “picados”.
- Galgação e alagamentos: combinadas com maré alta ou elevação do nível do mar, ondulações longas empurram água mais para dentro do continente do que o esperado.
- Risco a infraestrutura offshore: plataformas de petróleo e gás, parques eólicos e cabos submarinos sofrem esforços maiores quando atingidos por ondas raras e muito longas.
Em um clima em aquecimento, cientistas testam com cuidado se a frequência e a intensidade desses sistemas estão mudando. Superfícies oceânicas mais quentes e padrões de vento em transformação podem, em tese, favorecer centros de baixa pressão mais potentes em algumas bacias. Ao mesmo tempo, a forma do fundo do mar e a geometria da costa continuam sendo decisivas para converter marulho em impacto na linha de praia.
No Brasil, isso importa especialmente em áreas com grande infraestrutura costeira e portuária, onde a entrada de ondulações longas pode amplificar movimentos em canais e bacias de evolução. Além disso, trechos com recifes e bancos rasos podem “transformar” um marulho aparentemente inofensivo em arrebentação forte e correntes perigosas, exigindo integração entre monitoramento oceanográfico, operação portuária e avisos à população.
Novas ferramentas para alerta antecipado
Uma vantagem direta do rastreamento por satélite é ganhar tempo e precisão na previsão de episódios anormais de marulho. Quando uma tempestade como Eddie se forma, previsores conseguem observar não apenas os ventos, mas o campo de ondas evoluindo, dias antes de a ondulação encostar em terra.
Ver uma trem de ondas gigantes sair da tempestade e acompanhá-lo cruzando oceanos oferece às comunidades costeiras uma vantagem crucial de tempo.
Espectros de ondas mais detalhados, gerados por missões como a SWOT, podem alimentar previsões de surfe, planejamento de operações portuárias e modelos de inundação costeira. Isso ajuda autoridades a organizar janelas de navegação, empresas a preparar estruturas offshore e gestores públicos a se antecipar em bairros baixos quando um marulho longo está a caminho. Também melhora a comunicação de risco, porque um mar “com cara de calmo” pode esconder energia suficiente para causar danos.
Conceitos-chave por trás dessas ondas titânicas
Alguns termos técnicos ajudam a interpretar relatórios de ondas associadas a tempestades. Três deles são especialmente úteis:
| Termo | O que significa |
|---|---|
| Altura significativa de onda | Uma média das ondas mais altas em um conjunto; normalmente, calcula-se como a média do terço superior das ondas registradas. |
| Período de onda | O tempo entre a passagem de duas cristas consecutivas por um ponto fixo. Ondas de longo período parecem mais “roladas” e potentes do que agitadas e curtas. |
| Marulho | Ondas que viajaram para longe da tempestade que as gerou. Em geral são mais regulares e podem atravessar bacias oceânicas inteiras. |
Quem está na costa frequentemente subestima marulhos de longo período porque, à primeira vista, a superfície pode parecer relativamente tranquila. As cristas ficam mais espaçadas, e o mar dá a impressão de apenas “respirar” lentamente. Só que esse grande comprimento de onda implica deslocamento de um volume enorme de água a cada pulso - e isso se converte em forças intensas quando a ondulação encontra um costão, um recife ou uma estrutura.
Situações em que a energia “invisível” das ondas faz diferença
Imagine um dia de inverno aparentemente ameno em uma cidade portuária, com apenas uma brisa moderada no litoral. A centenas ou milhares de quilômetros dali, uma tempestade remota como Eddie já perdeu intensidade. Três dias depois, séries baixas e regulares começam a crescer na entrada do porto. Equipes de marina percebem cabos de amarração trabalhando demais e píeres oscilando a cada grupo de ondas. Turistas, sem ver nuvens de tempestade, estranham placas de alerta no cais. O perigo, porém, é concreto - e veio de muito longe.
Em outro cenário, um marulho longo coincide com uma maré de sizígia e uma tempestade costeira moderada. Separadamente, cada fator poderia ser administrável. Juntos, o nível do mar mais alto, a ondulação gerada à distância e as ondas locais empurradas pelo vento podem ultrapassar defesas pensadas para situações mais simples. Esse “empilhamento” de perigos preocupa engenheiros e seguradoras, sobretudo onde muros, diques e quebra-mares foram dimensionados com base em modelos de ondas mais antigos.
Para surfistas e velejadores, por outro lado, compreender melhor marulhos longos também abre oportunidades. Cronometrar travessias, escolher ancoradouros e planejar competições depende de prever quando e onde essa energia distante vai chegar. Os mesmos conjuntos de dados que aumentam a segurança de navios e portos ajudam usuários recreativos a “ler” o oceano com mais confiança - mesmo enquanto tempestades como Eddie continuam capazes de gerar, além do horizonte, aqueles raros monstros de 35 metros.
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