O cannabis medicinal vem ganhando espaço no tratamento de diferentes problemas de saúde, mas uma nova revisão abrangente conclui que, em muitos casos, ainda falta sustentação científica sólida para comprovar sua eficácia. Ao mesmo tempo, outros especialistas contestam a robustez das conclusões e questionam a forma como os estudos foram selecionados e interpretados.
Como a revisão foi feita
Pesquisadores nos Estados Unidos avaliaram 124 estudos, escolhidos após um filtro a partir de mais de 2.500 artigos publicados entre janeiro de 2010 e setembro de 2025. A proposta foi reunir e comparar o que a literatura científica recente diz sobre o uso terapêutico de cannabis e canabinoides em diferentes condições clínicas.
Em quais situações o cannabis medicinal parece funcionar melhor
A análise reforçou que o cannabis medicinal aparenta ser útil em algumas indicações nas quais seu uso já é reconhecido por órgãos reguladores, incluindo:
- Redução de náuseas e vômitos associados à quimioterapia
- Aumento do apetite em pessoas vivendo com VIH
- Tratamento de alguns transtornos convulsivos graves em crianças
Segundo os autores, esses exemplos seriam a exceção - e não o padrão - dentro do conjunto de usos comumente divulgados.
O que os ensaios clínicos indicam para outras condições
De acordo com o texto da revisão, evidências provenientes de ensaios clínicos randomizados não dão suporte ao uso de cannabis ou canabinoides para a maior parte das condições para as quais são frequentemente promovidos, como dor aguda e insónia.
Em outras palavras, a revisão sugere que há um descompasso entre a popularidade do tema e a consistência dos resultados quando se exige um nível mais alto de rigor metodológico.
Riscos associados ao uso frequente e a produtos de alta potência
O trabalho também chama atenção para possíveis problemas de saúde relacionados ao uso frequente por inalação ou ao consumo de cannabis de alta potência. Entre os riscos mencionados, estão:
- Maior probabilidade de sintomas psicóticos
- Aumento do risco de transtorno de ansiedade generalizada
- Associação com doença cardiovascular
O primeiro autor, Michael Hsu, pesquisador clínico da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), afirma que, embora muitas pessoas busquem alívio com cannabis, a revisão evidencia lacunas relevantes entre a perceção pública e o que a ciência consegue demonstrar, hoje, para a maioria das condições médicas.
Contestações de outros especialistas sobre a qualidade da revisão
Nem todos os cientistas concordam com as conclusões. Simon Erridge, Diretor de Pesquisa da Curaleaf Clinic (clínica de cannabis medicinal no Reino Unido), disse à jornalista Sarah Sinclair, do Cannabis Health, que a metodologia não deixa claro por que certos estudos foram incluídos enquanto outros, que analisavam desfechos semelhantes, podem ter ficado de fora.
Ele também argumenta que haveria uma tendência de a revisão publicada no Jornal da Associação Médica Americana (JAMA) dar mais destaque a resultados negativos, com menor ênfase em pesquisas que apontam benefícios terapêuticos.
Limitações reconhecidas pelos próprios autores
Hsu e os coautores admitem limitações importantes. Entre elas, o reconhecimento de que alguns artigos relevantes podem não ter sido identificados.
Eles acrescentam que o trabalho não foi uma revisão sistemática e que não foi realizada uma avaliação formal do risco de viés para cada estudo individual - sendo que muitos dos trabalhos incluídos eram observacionais, o que costuma limitar a capacidade de estabelecer relações de causa e efeito.
Como essas conclusões se comparam a revisões anteriores
Uma revisão publicada em 2023, analisando pesquisas semelhantes, chegou a conclusões parcialmente parecidas. Ela também identificou evidências de que o cannabis medicinal poderia ajudar no alívio de dor crónica, mas ressaltou que isso não ocorreria sem a presença de eventos adversos.
Implicações clínicas e a necessidade de pesquisas mais rigorosas
Os autores defendem que novos estudos são essenciais para esclarecer, com maior segurança, benefícios e riscos do cannabis medicinal. Para Hsu, apoiar investigações mais rigorosas permitiria oferecer orientações mais claras e melhorar o cuidado clínico aos pacientes.
Um ponto frequentemente levantado por especialistas é que os resultados podem variar conforme via de administração (inalada, oral, sublingual), dose, concentração de canabinoides e perfil do paciente. Em cenários reais, essa diversidade dificulta comparar estudos e transforma “cannabis medicinal” numa categoria ampla, em que produtos diferentes podem ter efeitos e riscos distintos.
Além disso, a discussão sobre cannabis medicinal costuma envolver fatores além da eficácia, como padronização de produtos, rastreabilidade, orientação médica, e monitorização de efeitos adversos e interações medicamentosas. Avançar nessas frentes pode ser tão importante quanto produzir novos ensaios clínicos, especialmente para reduzir danos quando o uso já ocorre.
Publicação
A pesquisa foi publicada no Jornal da Associação Médica Americana (JAMA).
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário