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Reduzir um aminoácido aumentou a vida dos ratos em até 33%.

Pesquisadora em jaleco branco segura um rato cinza em laboratório com equipamentos e amostras sobre a mesa.

Em estudos com camundongos, limitar a ingestão de um aminoácido essencial específico pode desacelerar processos associados ao envelhecimento e até prolongar a vida, segundo uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos.

A partir desses resultados, cientistas avaliam se a mesma estratégia poderia, no futuro, ajudar pessoas a viverem mais e com melhor qualidade de vida.

Isoleucina: o aminoácido essencial em foco na longevidade

A isoleucina é um dos três aminoácidos de cadeia ramificada que o organismo usa para construir proteínas. Ela é indispensável para a sobrevivência, mas nossas células não a fabricam “do zero”; por isso, precisamos obtê-la pela alimentação, em fontes como ovos, laticínios, proteína de soja e carnes.

Ainda assim, mesmo nutrientes essenciais podem se tornar um problema quando consumidos em excesso.

O que pesquisas anteriores já indicavam sobre isoleucina e saúde metabólica

Um estudo anterior, baseado em um levantamento realizado entre 2016 e 2017 com moradores do estado de Wisconsin, observou uma ligação entre a quantidade de isoleucina na dieta e a saúde metabólica. Nesse conjunto de dados, pessoas com IMC mais alto tendiam a consumir bem mais desse aminoácido.

Como foi o experimento: dietas e idade equivalente

No estudo mais recente, os pesquisadores trabalharam com um grupo geneticamente diverso de camundongos. Os animais foram distribuídos em três dietas:

  • Dieta controle com 20 aminoácidos comuns;
  • Dieta com redução global: todos os aminoácidos diminuídos em cerca de dois terços;
  • Dieta com redução específica: apenas a isoleucina reduzida na mesma proporção.

Os camundongos tinham cerca de seis meses no início do experimento - uma idade comparável à de uma pessoa de aproximadamente 30 anos. Eles podiam comer à vontade, porém apenas a ração correspondente ao grupo ao qual pertenciam.

“Uma caloria não é apenas uma caloria”, diz Dudley Lamming

Ao comentar os achados quando foram publicados, em 2023, o endocrinologista Dudley Lamming, da Universidade de Wisconsin (envolvido nas duas pesquisas), destacou que o efeito da alimentação vai além do valor energético:

Segundo ele, diferentes componentes do que comemos influenciam o corpo de maneiras que não se explicam apenas por “calorias”, e a equipe vinha investigando um componente que muitas pessoas podem estar ingerindo em excesso.

Restrição de isoleucina aumentou vida útil e tempo de vida saudável dos camundongos

Quando a isoleucina na dieta foi restringida, os animais apresentaram melhora tanto na vida útil quanto no tempo de vida saudável, com sinais de menor fragilidade, mais magreza e melhor controlo glicémico.

Os resultados de longevidade variaram por sexo:

  • nos machos, a vida aumentou 33% em comparação com os que não tiveram restrição de isoleucina;
  • nas fêmeas, o ganho foi de 7%.

Além disso, os camundongos com baixa isoleucina tiveram melhor desempenho em 26 indicadores de saúde, incluindo força muscular, resistência física, níveis de açúcar no sangue, uso da cauda e queda de pelo.

Nos machos, também houve menos aumento da próstata relacionado à idade e menor probabilidade de desenvolver tumores cancerígenos que costumam aparecer com frequência nessas linhagens diversas.

Lamming considerou particularmente animador que uma mudança alimentar iniciada mais perto da meia-idade ainda tenha produzido efeitos tão expressivos tanto na longevidade quanto no tempo de vida saudável.

Mais calorias, menos gordura: o resultado que surpreendeu

Um dado curioso foi que os camundongos alimentados com ração pobre em isoleucina consumiram muito mais calorias do que os demais. Mesmo assim, em vez de ganharem peso, eles gastaram mais energia e mantiveram um corpo mais magro - e isso ocorreu sem diferenças relevantes nos níveis de atividade.

Lamming relatou que, rapidamente, os animais do grupo com redução de isoleucina perderam adiposidade: o corpo ficou mais enxuto e com menos gordura.

O que isso pode significar para humanos (e por que não é simples)

Os pesquisadores avaliam que restringir isoleucina em humanos - por meio de dieta ou até por abordagens farmacológicas - pode, em teoria, gerar efeitos anti-envelhecimento semelhantes. Contudo, como em qualquer pesquisa com camundongos, isso só poderá ser confirmado com testes em pessoas.

Há obstáculos importantes. No experimento, a alimentação dos animais era rigidamente controlada, mas os próprios autores lembram que a dieta humana envolve uma química altamente complexa, e outros componentes alimentares podem influenciar esses resultados.

Além disso, reduzir proteína de forma ampla pode trazer prejuízos ao organismo, em camundongos e em humanos. Por isso, transformar a descoberta em orientação prática não é tão simples quanto “comer menos alimentos ricos em proteína”, ainda que essa seja a maneira mais direta de diminuir a ingestão de isoleucina.

Lamming sugeriu que escolhas alimentares mais saudáveis, de modo geral, talvez consigam baixar a isoleucina o suficiente para produzir algum efeito - mas isso ainda precisa ser demonstrado.

Um ponto extra: onde a isoleucina costuma “se esconder” na rotina

Na vida real, a isoleucina não vem apenas de carnes e laticínios: ela pode estar elevada em padrões alimentares com grande presença de ultraprocessados proteicos e também em suplementos de aminoácidos de cadeia ramificada. Para quem usa esse tipo de produto, vale lembrar que “mais” nem sempre significa “melhor”, sobretudo quando o objetivo é saúde metabólica e envelhecimento saudável.

Individualização importa: nem toda estratégia funciona igual para todos

A intensidade da restrição de aminoácidos foi mantida igual em todos os testes, e os autores reconhecem que pode ser necessário ajustar melhor a “dose” para obter efeitos ideais em diferentes linhagens e entre sexos. Em nutrição, uma abordagem única raramente serve para todos.

O próprio Lamming reforçou que não é viável simplesmente colocar toda a população em uma dieta com baixa isoleucina. Ainda assim, isolar benefícios ligados a um único aminoácido ajuda a esclarecer processos biológicos e pode abrir caminho para intervenções futuras, como um medicamento que bloqueie a ação da isoleucina.

Publicação

A pesquisa foi publicada na revista Cell Metabolism.

Uma versão anterior deste artigo foi publicada em novembro de 2023.

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