O glioblastoma é um dos tipos mais agressivos de cancro. Ainda assim, um estudo recente que testou dois suplementos bastante conhecidos - resveratrol e cobre - em tumores de glioblastoma trouxe sinais iniciais animadores e pode, no futuro, abrir caminho para uma estratégia diferente de tratamento da doença.
Resveratrol e cobre: o que são estes nutracêuticos
Os dois compostos avaliados são frequentemente classificados como nutracêuticos, isto é, extratos obtidos de plantas ou alimentos que, segundo a literatura, podem oferecer benefícios à saúde.
Embora sejam populares como suplementos, os investigadores decidiram estudá-los de forma controlada, procurando compreender se poderiam interferir em processos biológicos ligados à progressão tumoral.
Como o estudo foi conduzido no Hospital Memorial Tata (Índia)
A investigação foi realizada no Hospital Memorial Tata, na Índia. Participaram 10 pacientes com glioblastoma que já estavam em preparação para cirurgia. Antes do procedimento, eles ingeriram comprimidos que combinavam resveratrol e cobre.
Para comparação, os cientistas também analisaram amostras de tumores de 10 pacientes do grupo controlo, que passaram por cirurgia semelhante, mas não receberam os suplementos.
As amostras de tumor removidas durante a cirurgia foram examinadas e comparadas entre os dois grupos, com foco em marcadores celulares e proteínas associadas à biologia do cancro.
O que os resultados preliminares indicaram (e o que ainda não mostraram)
Os achados iniciais foram considerados promissores, mas é importante notar um ponto-chave: os investigadores avaliaram marcadores celulares nas amostras, e não a dimensão ou a evolução do tumor ao longo do tempo - até porque os tumores foram removidos rapidamente, cerca de duas semanas após o início da ingestão dos suplementos.
Segundo o cirurgião oncológico e investigador em saúde pública Indraneel Mittra, os dados sugerem que “um comprimido nutracêutico simples, barato e não tóxico pode, potencialmente, ter poder para curar o glioblastoma”.
Redução de biomarcadores e sinais ligados ao sistema imunitário
Nos tumores de quem recebeu o comprimido, houve diminuição de um biomarcador proteico associado ao crescimento do cancro em quase um terço, em comparação com o grupo que não recebeu a combinação. Mesmo assim, não foram observadas alterações visíveis nos tumores que indicassem que estavam menos agressivos.
Além disso, as amostras do grupo tratado apresentaram, em média, uma redução de 41% nos níveis de determinadas proteínas capazes de bloquear respostas do sistema imunitário contra o cancro, quando comparadas às do grupo controlo.
Por fim, três biomarcadores de células-tronco - células que podem favorecer o crescimento do cancro - ficaram 56% mais baixos nas amostras de tumor dos pacientes que tomaram os suplementos.
Segurança e próximos passos do ensaio clínico
Não foram registados efeitos adversos relevantes. O ensaio clínico continua em andamento, com a meta de recrutar 66 pacientes ao todo. Os participantes serão acompanhados com exames de imagem a cada seis meses, por pelo menos 2 anos.
Somente após esse acompanhamento será possível concluir se o curto período de suplementação teve algum impacto real e clinicamente significativo na sobrevida dos pacientes.
Por que resveratrol e cobre foram escolhidos: cfChPs e dano ao DNA
Mittra e a sua equipa optaram por estudar resveratrol e cobre porque trabalhos anteriores do grupo indicaram que essa combinação pode “desativar” partículas de cromatina livre de células (cfChPs) - fragmentos que podem causar dano ao DNA quando são internalizados por células.
No estudo atual, os investigadores relataram que as cfChPs estavam praticamente ausentes nos cérebros dos pacientes com glioblastoma que receberam o tratamento com resveratrol e cobre.
Mittra explica que essas partículas, libertadas por células cancerosas em morte, podem inflamar as células tumorais sobreviventes, tornando o quadro mais agressivo. Na visão do investigador, ao remover ou neutralizar a cromatina livre de células - algo que os comprimidos de resveratrol e cobre parecem fazer - o cancro tenderia a ficar mais contido.
Uma mudança de perspetiva sobre tratamento: além de “matar” células
Diante das baixas taxas de sobrevivência associadas ao glioblastoma, novas abordagens têm sido buscadas. Para Mittra, a história da medicina mostra limitações: ele afirma que tentamos destruir células cancerosas há 2.500 anos, desde a época dos gregos antigos, sem alcançar o sucesso esperado.
Na avaliação do investigador, talvez seja o momento de encarar o tratamento do cancro por outro ângulo e procurar curar tumores, em vez de apenas aniquilá-los com quimioterapia e radioterapia.
Contexto adicional: o que considerar antes de extrapolar estes dados
Mesmo com sinais biológicos encorajadores, resultados baseados em biomarcadores não substituem desfechos clínicos duros, como controlo sustentado do tumor e aumento de sobrevida. Também é essencial lembrar que o glioblastoma costuma exigir decisões terapêuticas rápidas e personalizadas, e intervenções complementares precisam ser avaliadas com rigor.
Outro ponto é que “natural” não é sinónimo de “isento de risco”: o uso de cobre pode ser problemático em doses inadequadas, e o resveratrol pode interagir com medicamentos. Portanto, qualquer tentativa de suplementação deve ocorrer apenas com orientação médica, sobretudo em contexto oncológico.
O que esperar a seguir
Os resultados mais recentes sugerem que a estratégia com resveratrol e cobre pode ter mérito e merece investigação continuada. Ainda assim, será necessário aguardar alguns anos até a conclusão do ensaio para saber se esses efeitos laboratoriais se traduzem em benefício real para pacientes com glioblastoma.
A investigação foi publicada na revista Relatórios da BJC.
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