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Estudo revela que mutações em um único gene podem causar doenças mentais.

Estudo revela que mutações em um único gene podem causar doenças mentais.

A genética quase nunca é tão simples a ponto de um único gene explicar, sozinho, um único desfecho de saúde. Ainda assim, um estudo recente descreveu o que pode ser uma exceção rara a essa regra.

Segundo os autores, alterações em apenas um gene - o GRIN2A - passaram a ser associadas a sintomas psiquiátricos, incluindo esquizofrenia de início precoce.

O gene GRIN2A e a hipótese de um “efeito único” em doença mental

“Os nossos resultados atuais sugerem que o GRIN2A é o primeiro gene conhecido que, por si só, pode causar uma doença mental”, afirma o coautor principal Johannes Lemke, geneticista da Universidade de Leipzig, na Alemanha.

Em geral, transtornos de saúde mental - como depressão maior e esquizofrenia - são entendidos como condições influenciadas por centenas ou até milhares de variantes genéticas que atuam em conjunto. O novo trabalho, porém, indica que essa suposição pode não valer em todos os cenários.

Evidências fortes reunidas recentemente apontam que mudanças no gene GRIN2A se relacionam à esquizofrenia de início precoce, surgindo ainda na infância ou no começo da adolescência - antes do período em que o transtorno costuma aparecer com mais frequência.

Investigação internacional com a maior coorte de pacientes com GRIN2A

A equipa aproveitou um registo que reúne a maior coorte mundial de pessoas com alterações no GRIN2A e conduziu uma investigação internacional para mapear os efeitos de mutações nesse gene.

Entre 121 indivíduos com variantes provavelmente causadoras de doença no GRIN2A, os pesquisadores identificaram 25 com diagnóstico de transtorno mental. Entre eles havia quadros de humor, ansiedade, transtornos psicóticos, transtornos de personalidade e transtornos alimentares.

Quase todos - com exceção de dois participantes - apresentavam a variante “nula” do GRIN2A, o que indica um gene não funcional.

“Conseguimos demonstrar que determinadas variantes desse gene estão associadas não apenas à esquizofrenia, mas também a outras doenças mentais”, diz Lemke.

O que chamou atenção, segundo o estudo, é o momento em que os sintomas aparecem: no contexto de uma alteração no GRIN2A, esses transtornos tendem a surgir já na infância ou na adolescência, em contraste com a manifestação mais típica na vida adulta.

Sintomas psiquiátricos sem outros sinais neurodesenvolvimentais

Tradicionalmente, mutações no GRIN2A são ligadas a condições do neurodesenvolvimento, como epilepsia e deficiência intelectual. No entanto, alguns participantes avaliados exibiram apenas sintomas psiquiátricos, sem outros problemas neurodesenvolvimentais detectáveis.

Esse achado sugere que a alteração no GRIN2A pode desencadear transtornos de saúde mental isolados e precoces, mesmo na ausência de epilepsia ou outras alterações neurológicas evidentes.

Diante disso, os autores defendem que o teste genético deveria ser considerado durante a investigação diagnóstica de pessoas afetadas, para refinar o diagnóstico e, potencialmente, abrir caminho para tratamentos personalizados.

Por que o GRIN2A importa: receptor de glutamato e atividade excitatória

O GRIN2A codifica uma parte de um receptor de glutamato no cérebro, estrutura envolvida na atividade excitatória neuronal. Quando esses receptores funcionam mal, isso tem relação estreita com epilepsia e esquizofrenia, de acordo com o enquadramento biológico discutido no artigo.

Além de investigar associação genética, o estudo também observou respostas clínicas em um pequeno grupo: quatro indivíduos haviam recebido, em algum momento, tratamento com L-serina, um aminoácido capaz de ativar esses receptores de glutamato e ajudar na redução de crises convulsivas. De forma interessante, os quatro também relataram melhorias positivas no transtorno de saúde mental após o uso.

Em um dos casos, as alucinações deixaram de ocorrer. Em outro, houve melhora em um transtorno comportamental. Nos dois restantes, observou-se remissão de sintomas paranoides e diminuição da frequência de crises.

Implicações clínicas e limites do estudo

O número reduzido de pessoas tratadas com L-serina limita conclusões definitivas, mas os dados reforçam a ideia de que nem todo transtorno psiquiátrico precisa, necessariamente, resultar de inúmeras variantes genéticas em interação. Em alguns casos, pode haver uma base genética mais direta - e, portanto, potencialmente mais “alvejável” por intervenções orientadas pelo mecanismo.

Um ponto prático é que a identificação de alterações no GRIN2A pode apoiar decisões clínicas mais precoces: em crianças e adolescentes com sintomas psicóticos, alterações graves de humor, ansiedade intensa ou outros quadros, a possibilidade de um componente genético específico pode justificar uma avaliação integrada entre psiquiatria, neurologia e genética clínica.

Também vale considerar o impacto do resultado genético para a família. A confirmação de uma alteração no GRIN2A pode orientar aconselhamento genético, discussão sobre risco de recorrência, vigilância de sintomas ao longo do desenvolvimento e planeamento de acompanhamento de longo prazo - sempre com atenção a aspectos éticos, privacidade e estigma associado a diagnósticos psiquiátricos.

Próximos passos

Como exatamente o GRIN2A pode levar a esses transtornos ainda é uma questão em aberto e depende de investigação adicional. Estudos futuros precisarão esclarecer mecanismos, identificar quais variantes têm maior impacto psiquiátrico e avaliar, em ensaios mais robustos, se abordagens direcionadas ao receptor de glutamato - incluindo estratégias relacionadas à L-serina - podem oferecer benefícios consistentes.

O estudo foi publicado na revista Psiquiatria Molecular.

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