À medida que a população mundial envelhece, cresce também o número de pessoas que convivem com um declínio cognitivo assustador - seja na própria pele, seja acompanhando alguém próximo. Em escala global, são registados mais de 10 milhões de novos casos de demência todos os anos.
Demência ou encefalopatia hepática? Quando o diagnóstico pode falhar
Um estudo publicado em 2024 levanta um alerta importante: até 13% das pessoas diagnosticadas com demência nos EUA podem, na verdade, estar a ser mal diagnosticadas - e a enfrentar um quadro que tem tratamento.
O ponto central é a possível confusão entre demência e encefalopatia hepática, um tipo de comprometimento cognitivo provocado por falência do fígado. Para o hepatologista Jasmohan Bajaj, da Universidade Commonwealth da Virgínia, profissionais de saúde precisam estar atentos a essa interseção: é essencial reconhecer que pode existir sobreposição entre demência e encefalopatia hepática - e que esta última pode ser tratável.
Encefalopatia hepática e cirrose: como o fígado pode afetar o cérebro
A encefalopatia hepática está associada à falência hepática e é comum em doença avançada do fígado: afeta mais de 40% das pessoas com cirrose. O problema é que as alterações cerebrais e comportamentais que ela provoca podem parecer, à primeira vista, muito semelhantes às da demência - o que torna a distinção clínica difícil.
O fígado tem um papel essencial no equilíbrio químico do organismo: ajuda a filtrar substâncias do sangue, participa do metabolismo e contribui para a digestão. Quando ele começa a falhar, o impacto não se limita ao próprio órgão. A disfunção hepática pode sobrecarregar outros tecidos e sistemas - incluindo rins, pâncreas e coração - e também o cérebro, favorecendo confusão mental, alterações de memória e outros sintomas cognitivos.
Fatores de risco para o fígado (e por que agir cedo faz diferença)
O álcool é uma causa conhecida de lesão hepática, mas não é a única. Entre outros riscos relevantes estão:
- Vírus da hepatite
- Colesterol elevado
- Obesidade
- Diabetes
- Stress
- Envelhecimento
A boa notícia é que, se o problema for identificado a tempo e houver tratamento adequado, parte dos danos hepáticos pode ser revertida. Além disso, uma parcela considerável do risco pode ser reduzida com mudanças de alimentação e de hábitos, e há ainda novas opções medicamentosas em desenvolvimento com potencial para ampliar as alternativas terapêuticas no futuro.
Um ponto prático que merece atenção: em casos de declínio cognitivo, perguntar sobre sintomas e histórico compatíveis com doença do fígado (incluindo consumo de álcool, hepatites e síndrome metabólica) pode ajudar a orientar exames e reduzir a chance de confundir quadros.
Quando tratar a encefalopatia hepática melhora “demência”
Há relatos marcantes que reforçam a importância de investigar a encefalopatia hepática em quem recebeu diagnóstico de demência. Em pelo menos dois pacientes diagnosticados com demência, o tratamento direcionado para encefalopatia hepática levou à resolução das alterações cognitivas.
Num desses casos, após o tratamento, a esposa do paciente descreveu uma transformação completa: ele parecia “outra pessoa”, depois de desaparecerem problemas como perda de memória, quedas, tremores e alucinações.
Envelhecimento, doença hepática não alcoólica e reversibilidade: o que sugerem estudos
Um estudo recente com camundongos indica que até alguns efeitos do envelhecimento sobre o fígado podem ser reversíveis, desde que identificados precocemente.
A hepatologista Anna Mae Diehl, da Universidade Duke, explicou que o envelhecimento agrava a doença hepática não alcoólica e que, ao reduzir esse impacto, é possível reverter danos. Em outras palavras: segundo a pesquisadora, ninguém é “velho demais” para melhorar quando a intervenção ocorre na altura certa.
Evidências em bases de dados: o papel do FIB-4 e a suspeita de cirrose
Em um estudo anterior de 2024, Bajaj e colegas analisaram registos médicos de 177.422 veteranos dos EUA diagnosticados com demência entre 2009 e 2019. Nenhum deles tinha diagnóstico formal de doença do fígado; ainda assim, a equipa observou que mais de 10% apresentavam valores elevados do índice FIB-4 (Fibrosis-4), usado para estimar cicatrização do fígado - sugerindo alta probabilidade de cirrose.
No estudo mais recente, o bioestatístico Scott Silvey, também da Universidade Commonwealth da Virgínia, Bajaj e colaboradores repetiram a análise com 68.807 registos de uma base nacional de pacientes não veteranos, para verificar se o achado se repetia na população geral dos EUA.
O resultado surpreendeu: a proporção com FIB-4 elevado foi ainda maior - quase 13%.
Os autores destacaram que as prevalências e os fatores associados a FIB-4 elevado chamam atenção, incluindo uma maior proporção de pessoas não brancas no grupo com FIB-4 alto. Embora o estudo não tenha investigado as causas específicas dessas diferenças, a equipa aponta que desigualdades no acesso a tratamentos e a cuidados médicos - tanto para demência quanto para comorbidades - podem contribuir para o cenário observado.
Por que a saúde do fígado deve entrar no rastreio do declínio cognitivo
Se o mau funcionamento do fígado pode afetar múltiplos órgãos - e o cérebro em particular -, faz sentido colocar a saúde do fígado entre as prioridades ao avaliar declínio cognitivo. Para Bajaj, essa ligação reforça a importância de rastrear contribuintes potencialmente tratáveis para sintomas semelhantes aos da demência.
Um passo adicional que pode ajudar é discutir com o médico a possibilidade de avaliação hepática quando houver declínio cognitivo: exames laboratoriais, histórico clínico e índices como o FIB-4 podem oferecer pistas valiosas, sobretudo quando existem fatores de risco metabólicos (como obesidade e diabetes) ou sinais compatíveis com doença hepática.
Esta investigação foi publicada na Revista Americana de Medicina.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada pela primeira vez em julho de 2024.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário