A ideia de que dá para “pegar” herpes zóster é um dos equívocos mais frequentes que escuto de pacientes que chegam apreensivos, com medo de estarem com a doença.
Muitas vezes, a pessoa conta que esteve perto de uma criança com varicela (catapora) ou de alguém com herpes zóster e, com razão, fica preocupada achando que “pegou” aquilo.
Como médica(o) de família, vejo essa confusão o tempo todo. Um estudo da minha própria Universidade de Bristol mostrou que, embora a maioria das pessoas já tenha ouvido falar em herpes zóster, poucas de fato entendem do que se trata.
O ponto central é este: herpes zóster não é algo que você contrai de outra pessoa. Ele acontece quando um vírus que já está no seu corpo volta a ficar ativo - o vírus varicela-zóster, o mesmo que causa a varicela.
Depois que a varicela melhora, o vírus não vai embora. Ele permanece “escondido” em células nervosas ligadas à sensibilidade da pele e pode ficar adormecido por anos, às vezes por décadas. O herpes zóster surge quando esse vírus “acorda” novamente.
Quando reativa, ele provoca agrupamentos de pequenas bolhas cheias de líquido, chamadas vesículas. Antes da erupção aparecer, é comum sentir formigamento, queimação ou dor numa área específica do corpo - às vezes 2 a 3 dias antes. A pele pode ficar anormalmente sensível e também pode haver cansaço, febre baixa e mal-estar geral.
O herpes zóster é comum: afeta cerca de 1 em cada 25 pessoas. Em geral, segue um padrão bem característico. A erupção costuma surgir em forma de faixa de um lado do corpo, acompanhando um dermátomo (uma área de pele atendida por um nervo espinhal). É incomum que apareça dos dois lados ao mesmo tempo.
Com o tempo, as bolhas se rompem, formam crostas e cicatrizam em 3 a 4 semanas, às vezes deixando pequenas marcas. Até que todas as lesões estejam em crosta, a pessoa com herpes zóster é considerada infecciosa - ou seja, pode transmitir o vírus a outras pessoas, mas não da forma que muita gente imagina.
Um detalhe prático e útil: a transmissão acontece principalmente por contato direto com o líquido das vesículas. Em casos mais extensos (herpes zóster disseminado) ou quando as lesões não estão cobertas, o risco pode aumentar, por isso medidas como cobrir o local e reforçar a higiene das mãos fazem diferença.
Também vale lembrar que, além de reconhecer os sinais, cuidar do desconforto ajuda muito: compressas frias, roupas leves e analgesia orientada por profissional de saúde podem reduzir a dor e evitar que a pessoa mexa nas lesões, o que diminui a chance de infecção bacteriana.
1. Dá para pegar varicela (catapora) de alguém com herpes zóster
Para ter herpes zóster, é necessário já ter tido varicela em algum momento da vida. Em alguns pacientes, porém, a varicela foi tão leve - ou aconteceu há tanto tempo - que a pessoa nem se lembra.
Quando as vesículas do herpes zóster se rompem, o líquido dentro delas contém o mesmo vírus varicela-zóster ativo. Se alguém que nunca teve varicela (ou que não foi vacinado) encosta diretamente nesse líquido, pode se infectar e desenvolver varicela - e não herpes zóster. O herpes zóster só aparece quando o vírus adormecido reativa dentro de quem já teve varicela.
Por isso, quem está com herpes zóster deve manter a erupção coberta (com roupa ou curativo não aderente) até que todas as lesões tenham formado crostas e cicatrizado.
Também é essencial evitar contato com pessoas para as quais a varicela pode ser especialmente perigosa. Isso inclui gestantes, já que a varicela pode trazer complicações para a mãe e, em algumas situações, prejudicar o bebê.
Recém-nascidos, cujo sistema imunitário ainda é imaturo, também correm risco. E há ainda pessoas com as defesas enfraquecidas (como idosos, pacientes em quimioterapia ou pessoas com condições como VIH) que podem ter dificuldade em controlar o vírus. Nesses grupos, a varicela pode se tornar grave e levar a complicações como pneumonia.
2. O herpes zóster pode surgir em qualquer idade
Embora a probabilidade aumente com o envelhecimento, o herpes zóster pode aparecer a qualquer momento depois que alguém teve varicela - inclusive em adultos jovens e em crianças. Ele é mais frequente quando o sistema imunitário está enfraquecido, o que pode ocorrer com a idade e também em pessoas submetidas à quimioterapia ou a outros tratamentos imunossupressores.
3. Não se limita ao tronco: o herpes zóster pode atingir rosto, membros e genitais
A maioria dos casos aparece no peito ou nas costas, mas o herpes zóster pode surgir em qualquer parte do corpo, incluindo face, braços, pernas e até genitais. Quando atinge o rosto, pode envolver os olhos por meio de ramos nervosos que chegam a essa região.
Essa forma, chamada herpes zóster oftálmico, pode ameaçar a visão e causar cegueira se não for tratada rapidamente. Ele também pode afetar o nervo facial, responsável pelos músculos da face - quadro conhecido como síndrome de Ramsay Hunt.
Algumas pessoas apresentam dor, formigamento ou sensibilidade sem que apareça uma erupção visível. Além disso, o aspecto do herpes zóster pode variar conforme o tom de pele, o que pode dificultar o reconhecimento em peles mais escuras.
4. Tratar cedo faz diferença
Se você suspeitar de herpes zóster, procure avaliação clínica o quanto antes. Medicamentos antivirais podem reduzir o tempo de recuperação e diminuir complicações, mas funcionam melhor quando iniciados em 48 a 72 horas após o aparecimento da erupção.
Alguns grupos - incluindo pacientes jovens, gestantes e lactantes, pessoas com imunidade comprometida, e qualquer pessoa com herpes zóster atingindo face, nariz, olhos (inclusive a superfície do olho) ou com alterações visuais - devem buscar atendimento com urgência.
5. A história nem sempre termina quando a pele melhora
Em parte dos casos, o herpes zóster pode causar problemas mesmo depois de a erupção desaparecer. As bolhas abertas podem infeccionar por bactérias e, às vezes, é necessário usar antibióticos.
O vírus também pode lesar nervos próximos, levando à neuralgia pós-herpética - uma dor nervosa persistente que pode durar meses ou até anos após a cicatrização. A sensação pode ser de queimação, pontadas ou dor pulsátil na mesma área onde a erupção apareceu.
Infelizmente, o herpes zóster pode voltar, às vezes noutra região do corpo. A vacina contra herpes zóster reduz de forma importante tanto o risco de desenvolver a doença quanto a probabilidade de dor nervosa prolongada, como a neuralgia pós-herpética, embora não elimine totalmente o risco.
No Brasil, a disponibilidade e as recomendações da vacina contra herpes zóster podem variar conforme idade, condições de saúde e rede de atendimento. O ideal é conversar com um profissional de saúde para entender a indicação no seu caso e onde obter a vacina.
Pense no herpes zóster não como algo que você “pega”, mas como algo que pode voltar a ativar dentro do seu próprio corpo. É um lembrete de que vírus nem sempre desaparecem quando imaginamos que foram embora. Proteger-se e proteger os outros passa por reconhecer os sinais cedo, manter as lesões cobertas e procurar orientação médica rapidamente.
Dan Baumgardt, professor sénior, Escola de Psicologia e Neurociências, Universidade de Bristol
Este artigo foi republicado do portal A Conversa sob licença de compartilhamento aberto. Leia o artigo original.
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