Antigamente vista como uma raiz meio “fora de moda”, a beterraba está voltando com força aos pratos - e também aos squeezes de quem treina. A cada ano, pesquisadores encontram mais motivos para levar esse tubérculo roxo a sério, bem além dos seus efeitos colaterais curiosos.
Beterraba: a raiz subestimada que está voltando ao centro do prato
Basta entrar em um café descolado em Londres ou Nova Iorque para topar com homus de beterraba, “lattes” rosados ou smoothies em tom neon. Não é só estética para fotos: dados de nutrição e achados da ciência do esporte colocaram a beterraba sob os holofotes como alimento funcional, com impactos reais sobre vasos sanguíneos, músculos e digestão.
Embora pertença à mesma família da acelga e do espinafre, a beterraba se destaca pelo conjunto de compostos que concentra: nitratos naturais, pigmentos chamados betalaínas, além de fibras e minerais que atuam em conjunto no organismo.
Os nitratos da beterraba podem ser convertidos em óxido nítrico no corpo, favorecendo o relaxamento dos vasos sanguíneos e ajudando a manter a pressão arterial em níveis mais saudáveis.
Esse mecanismo, investigado há mais de uma década, hoje orienta como equipes esportivas, cardiologistas e até órgãos de saúde pública passaram a falar dessa hortaliça tão comum - e tão útil.
Como a beterraba ajuda o coração e a pressão arterial
Os nitratos presentes na beterraba percorrem um caminho específico: passam pela saliva e pelo intestino, onde bactérias e enzimas os transformam em óxido nítrico. Esse gás funciona como um sinal químico, “avisando” a musculatura lisa das paredes dos vasos para relaxar. Com a dilatação dos vasos, o sangue circula com menos resistência e a pressão pode cair de forma discreta.
Ensaios clínicos com suco de beterraba ou beterraba assada observaram redução da pressão sistólica, sobretudo em pessoas com hipertensão leve. Não é uma queda tão forte quanto a de medicamentos, mas pode se somar a outros hábitos (atividade física, menos sal e controle de peso).
- Beterraba crua ou em suco costuma ter mais nitratos do que versões em conserva.
- Os efeitos tendem a surgir algumas horas após o consumo e podem durar aproximadamente 1 dia.
- O benefício parece maior em quem raramente come outros vegetais ricos em nitratos.
Médicos ainda reforçam que nenhum alimento substitui remédio prescrito. Ainda assim, a beterraba tem sido cada vez mais considerada uma peça útil dentro de uma estratégia ampla, priorizando comida de verdade para apoiar a saúde vascular.
Por que atletas recorrem ao suco de beterraba
Atletas de endurance foram dos primeiros a usar a beterraba como ferramenta de desempenho - não apenas como acompanhamento no almoço. O mesmo aumento de óxido nítrico que facilita o relaxamento dos vasos também pode influenciar a forma como os músculos utilizam oxigênio durante o esforço.
Relatos de pesquisadores em ciência do esporte indicam que o suco de beterraba pode reduzir o “custo de oxigênio” em exercícios submáximos. Em termos práticos: o corpo consegue realizar o mesmo trabalho puxando um pouco menos de oxigênio. Corredores e ciclistas frequentemente descrevem isso como uma sensação de “ficar ligeiramente mais fácil” manter certo ritmo.
Em provas longas, um ganho mínimo de eficiência pode significar sustentar o ritmo por mais tempo ou ter mais energia para acelerar no final.
Como atletas costumam usar beterraba (e seus nitratos) na prática
Não existe um protocolo único, mas muitas equipes adotam rotinas parecidas para otimizar o consumo de nitratos.
| Momento | Forma | Objetivo mais comum |
|---|---|---|
| 2–3 horas antes da prova | “Shot” concentrado de beterraba | Pico de óxido nítrico no curto prazo |
| Diariamente por 3–7 dias antes | Suco, beterraba assada, pós | Manter maior disponibilidade de nitratos |
| Após o treino | Vitamina de beterraba com fonte de proteína | Recuperação e reforço de antioxidantes |
Nem todo mundo reage igual. Alguns atletas percebem melhora clara, outros quase não mudam. Fatores como genética, microbiota intestinal, nível de treino e dieta geral provavelmente interferem. Nutricionistas esportivos costumam orientar: teste durante a fase de treinos - não experimente pela primeira vez no dia da prova.
Fibras, intestino e controle da glicemia
Além dos nitratos, a beterraba entrega uma boa quantidade de fibra alimentar, especialmente quando consumida assada, cozida ou ralada crua. A fibra ajuda o trânsito intestinal e alimenta bactérias benéficas, o que contribui para regular o funcionamento do intestino e pode diminuir o risco de alguns problemas digestivos ao longo do tempo.
Apesar do sabor adocicado (ela tem açúcares naturais), a combinação de fibra e água faz com que a absorção aconteça de forma mais lenta. Assim, a elevação da glicose tende a ser mais moderada do que a de muitos lanches ultraprocessados. Para quem convive com diabetes tipo 2, uma porção pequena de beterraba dentro de uma refeição costuma se encaixar melhor do que a mesma quantidade de açúcar em forma de suco de fruta ou confeitaria.
A união de fibras e fitonutrientes da beterraba contribui para um ambiente intestinal mais saudável - não apenas para fezes mais macias.
Um ponto extra que vale considerar: a microbiota entra na conta
Como a conversão de nitratos em óxido nítrico depende, em parte, de bactérias da boca e do intestino, hábitos do dia a dia podem influenciar a resposta. Uso frequente de antissépticos bucais muito fortes, dietas pobres em vegetais e pouca variedade alimentar podem reduzir a “capacidade” do organismo de aproveitar bem esses nitratos. Em outras palavras: a beterraba funciona melhor quando faz parte de um padrão alimentar diverso e rico em plantas.
Pigmentos, antioxidantes e o famoso “xixi rosado”
A coloração roxo-avermelhada da beterraba vem, em grande parte, das betalaínas, especialmente a betanina. Esses compostos atuam como antioxidantes, ajudando a neutralizar espécies reativas produzidas por poluição, exercício intenso ou pelo metabolismo normal. Nenhum alimento “desintoxica” o corpo sozinho, mas dietas ricas em vegetais coloridos costumam estar associadas, em diversos estudos, a marcadores menores de inflamação.
Os mesmos pigmentos explicam um efeito que pega muita gente de surpresa: em algumas pessoas, urina ou fezes podem ficar rosadas ou avermelhadas após uma refeição rica em beterraba. O nome disso é betúria. Assusta à primeira vista, mas raramente indica algo grave.
Em geral, significa que os pigmentos atravessaram estômago e intestino sem serem totalmente degradados. Quem usa medicamentos que reduzem a acidez do estômago (para refluxo, por exemplo) tende a perceber isso mais, já que a menor acidez preserva os pigmentos. Desidratação e níveis de ferro também podem influenciar a intensidade da cor.
Como colocar mais beterraba nas refeições do dia a dia
Muita gente ainda associa beterraba àqueles cubinhos avinagrados de vidro, servidos frios e sem companhia. A beterraba fresca, porém, se comporta de outro jeito na cozinha - e combina tanto com preparos doces quanto salgados.
Maneiras simples de usar beterraba em casa
- Asse beterrabas inteiras embrulhadas em papel-alumínio com um fio de óleo e depois fatie em saladas com queijo feta ou queijo de cabra.
- Bata beterraba cozida com grão-de-bico, tahine e limão para um homus vivo, terroso e bem colorido.
- Rale beterraba crua em uma salada tipo “coleslaw” com cenoura, maçã e molho de iogurte com mostarda.
- Misture cubos de beterraba em bowls de grãos com quinoa, ervas e sementes tostadas.
- Coloque um pedaço pequeno de beterraba assada em uma vitamina para dar cor e nutrientes sem elevar muito o açúcar.
Quem não gosta do sabor “terroso” pode começar com quantidades pequenas em preparos conhecidos. Assar realça o dulçor e suaviza as notas de “terra”, enquanto limão ou vinagre ajudam a deixar o sabor mais leve.
Riscos, limites e quem precisa ter cautela
Para a maioria dos adultos saudáveis, consumir beterraba em porções razoáveis traz poucos inconvenientes além de mãos manchadas. Ainda assim, alguns casos exigem atenção:
- Pessoas com histórico de cálculo renal associado a oxalatos podem precisar controlar a porção, já que a beterraba contém oxalatos.
- Quem segue dieta com restrição rigorosa de potássio por doença renal deve conversar com um profissional de saúde antes de usar suco de beterraba com frequência.
- Quem toma remédio para pressão não deve suspender nem ajustar dose com base apenas em alimentos.
Alimentos ricos em nitratos já levantaram dúvidas no passado sobre risco de câncer, muito por dados antigos relacionados a carnes processadas e aditivos de nitrito. Hoje, a pesquisa tende a separar os nitratos naturais dos vegetais - que vêm acompanhados de vitamina C, polifenóis e fibras - das carnes curadas, que frequentemente combinam nitritos com sal, ferro heme e cozimento em alta temperatura. Por isso, em geral, órgãos de saúde colocam beterraba e folhas verdes com segurança na categoria de alimentos “recomendados”.
Hábitos consistentes, não “shots” milagrosos
A atenção da mídia aos “shots de beterraba” antes de maratonas pode passar uma impressão equivocada. Uma bebida concentrada não compensa meses de sono ruim, sedentarismo e alimentação baseada em ultraprocessados. O óxido nítrico derivado da beterraba tende a funcionar melhor dentro de um conjunto de hábitos que protege os vasos: caminhar ou pedalar com regularidade, reduzir o tabagismo e aumentar o consumo de plantas.
Uma forma útil de enxergar isso é pelo efeito acumulado. Comer salada de beterraba duas vezes por semana, incluir espinafre ou rúcula em outros dias e manter exercícios moderados pode ajudar a preservar a flexibilidade das artérias por anos. Esse suporte constante vale mais do que um pico curto no dia da prova.
Para famílias, a beterraba também pode virar uma aula divertida de ciência dos alimentos. Observar a mudança de cor ao adicionar limão, ou notar a alteração no banheiro depois de um prato bem servido, costuma despertar perguntas em crianças sobre digestão, rins e sangue. E essas perguntas abrem espaço para conversar sobre como alimentos de verdade interagem com o corpo de modo concreto - e, às vezes, um pouco “bagunçado”.
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