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Em Parma, um gerente deixou seu Rolex de £14.000 cair no cimento e pediu indenização, mas a Justiça decidiu que ele não deveria usá-lo no trabalho.

Engenheiro com colete e capacete analisa relógio preso em concreto fresco em obra de construção civil.

O processo analisado por desembargadores em Bolonha começou com um Rolex no pulso de um encarregado e terminou como um recado direto para quem combina tarefas de alto risco com acessórios de luxo.

O Rolex Daytona que desapareceu dentro do concreto

Conforme os autos do Tribunal de Apelação de Bolonha, o episódio ocorreu num canteiro de obras na região de Parma, no norte da Itália. O responsável pela supervisão dos trabalhos apresentou-se para o turno usando um Rolex Daytona avaliado em cerca de 16.000 euros, um item mais comum em coleções e reuniões corporativas do que perto de betoneiras e formas.

Durante uma etapa de lançamento de concreto, ele alegou que o relógio escorregou do pulso e caiu diretamente na massa ainda úmida. Quando percebeu, o concreto já havia avançado no fluxo de produção. Tentar recuperar o objeto implicaria interromper a operação e desfazer o material, com um custo elevado para a obra.

Para o encarregado, o sumiço do Rolex não foi um azar inevitável, mas um prejuízo que deveria ser arcado por outra pessoa.

Na versão dele, a culpa seria do maquinário industrial utilizado no local: um defeito ou vibração teria provocado a abertura da pulseira. Com isso, pediu ressarcimento integral do valor do Rolex Daytona, além das despesas processuais, à empresa responsável pelo equipamento.

Do canteiro ao processo: como a disputa chegou a Bolonha

A divergência deixou rapidamente o ambiente da obra e foi parar no Judiciário. O encarregado tentou sustentar que o fornecedor do equipamento deveria responder, porque a máquina, segundo ele, não estaria operando em condições seguras. Assim, o relógio perdido seria consequência da atividade profissional e de falhas de segurança - e não de uma escolha pessoal.

A empresa contestou de forma categórica. Seus advogados destacaram que foi o próprio trabalhador quem decidiu atuar num ambiente com poeira, impactos e componentes em movimento usando um relógio de alto valor. Também lembraram que procedimentos de segurança normalmente orientam a retirar joias e acessórios antes de operar ou circular perto de máquinas, tanto para proteger pessoas quanto para evitar danos materiais.

O caso passou por uma decisão em primeira instância e, depois, foi apreciado pelo Tribunal de Apelação de Bolonha, que aproveitou a oportunidade para delimitar até onde vai a obrigação de empresas e contratantes quando alguém leva bens pessoais caros para um local de risco.

Tribunal de Apelação de Bolonha e o Rolex: “faltou cautela e prudência”

O Tribunal de Apelação de Bolonha rejeitou o pedido do encarregado e acolheu a tese da empresa. Para os desembargadores, a conduta dele demonstrou ausência de perícia e diligência no exercício das funções. Em outras palavras, entenderam que um profissional minimamente cuidadoso teria deixado o relógio em casa - ou, no mínimo, guardado em local seguro durante a tarefa.

A decisão foi objetiva: ninguém obrigou o trabalhador a usar um relógio de 16.000 euros enquanto lidava com concreto; portanto, a perda permaneceu sob sua responsabilidade.

O acórdão reforçou um princípio comum em diversos ordenamentos: quem participa de atividades com risco evidente precisa adotar providências básicas para se proteger e para resguardar seus próprios pertences. Levar um objeto caro e delicado para um canteiro vai contra a cultura usual de segurança, independentemente de quão “cuidadoso” alguém diga ser.

Além de não receber indenização, o encarregado ainda foi condenado a pagar cerca de 2.500 euros em custas e honorários. O resultado prático foi um prejuízo maior: sem o Rolex e com uma conta adicional decorrente do processo.

O que esse caso revela sobre comportamento no ambiente de trabalho

Apesar de inusitada, a disputa evidencia um tema bem mais amplo: o choque entre escolhas pessoais e riscos do trabalho. Canteiros de obras reúnem máquinas pesadas, espaços estreitos e variáveis difíceis de controlar. Nessa combinação, acessórios não apenas podem se perder; eles também podem causar acidentes ao enroscar em partes móveis.

Em orientações de saúde e segurança adotadas em muitos países europeus, é comum recomendar a retirada de:

  • Anéis e pulseiras, que podem prender em ferramentas, vergalhões e estruturas
  • Colares e correntes, com risco de engate em eixos e componentes giratórios
  • Relógios com pulseira metálica ou caixa volumosa, sujeitos a impactos, aprisionamento e lesões no punho
  • Roupas e itens soltos (lenços, cordões, peças pendentes), que aumentam o risco de agarramento

Empresas têm deveres de treinamento e controle, mas trabalhadores também assumem parte da responsabilidade. Ao levar bens pessoais para um local perigoso, a tendência é que o Direito não proteja o valor financeiro desses itens, salvo quando houver prova clara de negligência da organização.

Bens de luxo no trabalho: onde a responsabilidade costuma recair

O caso do Rolex fica no ponto de interseção entre símbolos de status e expectativas do ambiente laboral. Um relógio caro num escritório raramente chama atenção. Num andaime, numa central de concreto ou próximo de uma betoneira, o cenário muda: os tribunais costumam avaliar se o objeto era razoavelmente necessário para a função ou se estava ali por vaidade e hábito.

Item Visão típica no trabalho Risco ao usar no canteiro
Relógio de luxo Pessoal, não essencial para a tarefa Perda, dano por impacto, lesão no punho
Anel de ouro Pessoal, às vezes tolerado Aprisionamento do dedo, lesão grave por arrancamento de pele
Corrente no pescoço Frequentemente proibida perto de máquinas Estrangulamento, lesão cervical
Relógio inteligente Uso ambíguo: às vezes útil, às vezes restrito Impacto, distração, risco de vazamento de dados

Em muitos contratos de seguro, há exclusões para joias, relógios de alto valor e dinheiro transportados em áreas industriais, a menos que sejam declarados de forma expressa. Quando alguém insiste em usar esses itens mesmo assim, é comum que suporte o prejuízo.

Como empresas lidam com objetos pessoais em áreas de alto risco

Situações como a de Parma incentivam empresas a formalizar regras internas. Quando a política é clara, reduz-se tanto a chance de acidente quanto a margem para discussão judicial. Grandes contratantes tendem a adotar procedimentos escritos definindo onde e quando itens pessoais podem permanecer com o trabalhador.

Medidas usuais incluem:

  • Armários com chave ou cofres na entrada para relógios, carteiras e celulares
  • Sinalização nos acessos lembrando a retirada de joias e acessórios
  • Diálogos rápidos de segurança conduzidos por supervisores com exemplos de incidentes e quase-acidentes ligados a acessórios
  • Medidas disciplinares quando há reincidência no descumprimento das orientações

Algumas organizações vão além e registram que perdas de bens pessoais de luxo no canteiro não serão reembolsadas, justamente para evitar disputas semelhantes à do Rolex Daytona e desestimular que objetos caros circulem em zonas perigosas.

Um paralelo útil para o Brasil: EPI, rotinas e normas de segurança

Embora a decisão seja italiana, o raciocínio conversa com práticas aplicáveis no Brasil. Em obras, regras internas e treinamentos alinhados à NR-18 (condições de trabalho na construção) e à NR-6 (equipamento de proteção individual) costumam reforçar rotinas de segurança que incluem evitar adornos e itens soltos. Isso não substitui o dever da empresa de prevenir riscos, mas ajuda a reduzir comportamentos que ampliam a exposição.

Também é uma boa prática prever, em integração e DDS, orientações específicas sobre objetos pessoais (relógios, alianças, correntes, fones). Quando há local de guarda adequado e comunicação consistente, fica mais fácil comprovar que houve instrução e que a escolha de manter o item foi individual.

Por que o bom senso continua tendo peso em decisões de segurança

Os desembargadores de Bolonha apoiaram-se fortemente numa ideia simples, muitas vezes subestimada: o bom senso. Não foi necessário transformar o processo numa discussão técnica interminável sobre a betoneira. A pergunta central foi direta: um profissional cuidadoso trabalharia com concreto usando no pulso um relógio de 16.000 euros? Para o tribunal, a resposta foi negativa.

Na visão do tribunal, a segurança não depende apenas de regras escritas; ela também exige discernimento básico de cada pessoa no local.

Esse tipo de abordagem aparece com frequência em decisões sobre culpa concorrente: quando o dano ocorre, mas a vítima ignorou precauções evidentes, é comum que a responsabilidade seja reduzida ou até afastada em relação a empresas e fornecedores. O Rolex “enterrado” no concreto acabou virando símbolo de um risco desnecessário.

Lições práticas para trabalhadores e gestores a partir do caso do Rolex

À primeira vista, a disputa pode soar quase cômica, mas ela toca hábitos cotidianos. Muita gente se acostumou a usar acessórios cada vez mais caros sem pensar onde o dia vai terminar. De relógios inteligentes a fones de marca, itens comuns na rua podem virar perigos perto de máquinas.

Para trabalhadores, ajuda adotar um roteiro simples:

  • Antes do turno, faça uma lista mental do que seria doloroso perder ou quebrar.
  • Pergunte-se se o item serve ao trabalho ou apenas à aparência.
  • Se for apenas imagem, deixe guardado fora do canteiro, em local seguro.

Para gestores, o episódio sugere transformar casos reais em ferramenta de treinamento. Um Rolex perdido costuma prender a atenção mais do que cartazes genéricos. Exemplos concretos, mesmo quando parecem absurdos, tendem a ficar na memória - e podem influenciar a decisão de alguém ao se aproximar de uma betoneira, de um guindaste ou de qualquer equipamento com partes móveis.

O mesmo raciocínio vale além da construção: laboratórios, fábricas, armazéns e cozinhas industriais. Onde houver movimento, calor, produtos químicos ou espaço confinado, pertences pessoais deixam de ser prioridade - com Rolex ou sem Rolex.

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