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Estudo diz que tomar leite diariamente pode diminuir o risco de câncer colorretal.

Pessoa segurando copo de leite ao lado de prato com vegetais e frutas em bancada de cozinha.

Entre tantas recomendações sobre dieta e câncer, um trabalho recente voltou a colocar sob os holofotes um costume bem corriqueiro nas refeições: o consumo de leite.

A análise, feita a partir de um grande acompanhamento com mais de meio milhão de mulheres no Reino Unido, reabriu a discussão sobre como leite, cálcio e outros alimentos podem influenciar o risco de câncer colorretal, um dos tumores mais comuns no mundo.

O que a pesquisa mostrou sobre alimentação e câncer colorretal

O câncer colorretal figura hoje entre os diagnósticos de câncer mais frequentes globalmente. Em 2022, estimaram-se aproximadamente 2 milhões de novos casos. Ele envolve o intestino grosso (cólon) e o reto, e a probabilidade de ocorrência aumenta com o envelhecimento.

As maiores taxas aparecem em países de alta renda - como Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá e Austrália - o que há tempos intriga pesquisadores e reforça a hipótese de que o estilo de vida, especialmente a alimentação, tenha peso importante nesse cenário.

Para ir além dos fatores já bem estabelecidos (como bebida alcoólica e carnes processadas), cientistas avaliaram 97 variáveis alimentares. O material veio do Million Women Study, um extenso estudo iniciado no fim da década de 1990 com mais de 1,3 milhão de britânicas.

Dentro desse conjunto, 542.778 mulheres preencheram um questionário alimentar detalhado e foram acompanhadas por uma média de 16,6 anos. Ao longo do período, 12.251 receberam diagnóstico de câncer colorretal.

Ao final, os autores apontaram 17 fatores alimentares com associação estatisticamente significativa - alguns ligados a aumento e outros a redução do risco de câncer colorretal.

Álcool e carne vermelha: o lado que eleva o risco no câncer colorretal

Entre os achados, o álcool apareceu como um dos pontos mais preocupantes. A cada 20 g de álcool por dia (quantidade próxima a uma pint britânica de cerveja, cerca de 570 mL, dependendo do teor alcoólico), observou-se um aumento de 15% no risco de câncer colorretal.

O estudo também reforça o que diversas entidades internacionais já vêm apontando: álcool, carne vermelha e carne processada estão associados a maior probabilidade de tumores no intestino.

No caso da bebida alcoólica, uma hipótese central envolve o acetaldeído, composto gerado quando o organismo metaboliza o álcool. Em níveis elevados, ele pode lesar o DNA e interferir nos mecanismos de reparo celular. Além disso, há aumento de espécies reativas de oxigênio, moléculas que, em excesso, favorecem mutações.

Já para carne vermelha e carne processada, a pesquisa encontrou que uma ingestão diária de 30 g se relacionou a um aumento de 8% no risco. Entram nesse grupo carne bovina, suína, embutidos, salsichas, presuntos e produtos semelhantes.

  • O ferro heme típico das carnes vermelhas pode estimular a formação de compostos potencialmente mutagênicos no cólon.
  • Preparações como grelhar e fritar em altas temperaturas, além de defumar e empregar nitrito ou nitrato para conservação, podem gerar substâncias com potencial carcinogênico.
  • O consumo repetido e frequente desses itens tende a “somar” risco ao longo dos anos.

Leite e cálcio no câncer colorretal: sinais de efeito protetor

No sentido oposto, o estudo encontrou um conjunto de itens associados a menor risco de câncer colorretal, com destaque para laticínios e cálcio.

A cada porção diária de 300 mg de cálcio (algo em torno do que pode existir em um copo de leite, conforme o volume e o tipo), o risco observado caiu 17%. Quando o foco foi especificamente o leite, o consumo de 200 g por dia (aproximadamente 200 mL) apareceu ligado a 14% menos risco.

A interpretação dos autores é que incluir quantidades moderadas de leite e outras fontes alimentares de cálcio pode contribuir para reduzir o risco de câncer colorretal sem exigir mudanças extremas no cardápio.

Além do leite, também se associaram a menor risco:

  • Iogurte
  • Nutrientes comuns em laticínios (riboflavina/B2, magnésio, fósforo, potássio)
  • Cereais integrais
  • Frutas
  • Carboidratos acompanhados de boa carga de fibras
  • Folato (vitamina B9) e vitamina C

Um detalhe relevante: quase tudo que se relacionava a laticínios mostrou associação inversa com o risco, mas houve duas exceções - queijo e sorvete não repetiram o mesmo padrão de possível proteção.

Por que o cálcio pode influenciar o risco

Segundo os autores, a explicação mais provável para o efeito observado em leite e laticínios passa, em grande parte, pelo cálcio. No intestino grosso, ele pode se ligar a ácidos biliares e a ácidos graxos livres, diminuindo o potencial irritante e carcinogênico dessas substâncias sobre a mucosa intestinal.

Estudos experimentais em animais ainda indicam que dietas com mais cálcio podem reduzir a permeabilidade do cólon, funcionando como uma barreira adicional contra compostos agressivos. Também existem sinais de que o cálcio pode:

  • Incentivar a maturação adequada das células da mucosa intestinal.
  • Diminuir danos oxidativos ao DNA em células do cólon.

Ainda assim, o mineral talvez não seja o único componente relevante. O leite carrega outras substâncias com potencial ação antitumoral, como ácido linoleico conjugado e ácido butírico, que podem influenciar inflamação, metabolismo e o comportamento das células intestinais.

O que isso pode significar na prática

Esses resultados não devem ser lidos como uma prescrição individual automática, mas ajudam a desenhar um padrão alimentar coerente com menor risco de câncer colorretal ao longo da vida - e com maior risco quando alguns hábitos se repetem com frequência.

Comportamento alimentar Tendência de impacto no risco
Álcool diário em doses moderadas a altas Aumenta o risco
Consumo frequente de carne vermelha e processada Aumenta o risco
Leite e outras fontes de cálcio (na alimentação, não apenas suplemento) Reduz o risco
Cereais integrais, frutas, fibras, vitaminas B9 e C Reduz o risco

Também é importante lembrar que a análise foi feita sobretudo com mulheres, dentro de um contexto específico (Reino Unido) e de um padrão alimentar típico de país de alta renda. Isso não equivale a “garantia” individual de proteção, mas aponta tendências alinhadas com outros achados em diferentes populações.

Um ponto que costuma complementar a prevenção - e que não depende apenas de alimentação - é aderir ao rastreamento quando indicado (por exemplo, conforme idade, histórico familiar e orientação médica). Detectar lesões precursoras e tumores em fases iniciais costuma mudar o prognóstico de forma relevante.

Além disso, fatores de estilo de vida frequentemente caminham juntos: manter peso adequado, praticar atividade física regularmente e priorizar alimentos in natura ou minimamente processados pode potencializar os benefícios sugeridos por padrões dietéticos mais ricos em fibras e micronutrientes.

Limites do estudo e dúvidas frequentes sobre leite e suplementos de cálcio

Uma questão comum é se esses resultados justificariam aumentar muito o consumo de leite ou recorrer a suplementos de cálcio. Os próprios pesquisadores recomendam prudência: doses altas em forma de comprimido já foram associadas em alguns estudos a maior risco de cálculos renais e a possíveis efeitos cardiovasculares em pessoas mais vulneráveis.

Para quem tem intolerância à lactose, segue dieta vegana ou possui alergia à proteína do leite, não é necessário pânico. Existem alternativas para atingir o aporte diário de cálcio, como bebidas vegetais fortificadas, vegetais verde-escuros, gergelim, amêndoas e alguns tipos de tofu.

Três perguntas aparecem com frequência:

  • “Tenho de beber exatamente um copo de leite por dia?”
    Não existe uma medida “mágica”. As quantidades do estudo servem como referência estatística; o efeito é observado ao longo de faixas de consumo.

  • “Dá para neutralizar o álcool bebendo mais leite?”
    Não. O dano associado ao álcool e a possível proteção ligada ao cálcio seguem vias biológicas diferentes. Reduzir bebida alcoólica continua sendo um dos pontos-chave.

  • “Queijo conta igual a leite?”
    Nesta análise, queijo não apresentou a mesma associação inversa. Diferenças de composição, como teor de gordura e sal, podem influenciar.

Cenários simples para ajustar o prato

Para quem não tem restrições a laticínios, pensar em “um copo de leite” pode funcionar mais como um lembrete prático do que como regra rígida. Algumas ideias de troca no cotidiano:

  • Substituir um refrigerante açucarado do lanche por leite ou iogurte natural.
  • Montar um café da manhã com cereal integral, fruta e leite em vez de embutidos.
  • Alternar dias com leite e dias em que outras fontes de cálcio ganham prioridade, como folhas verde-escuras e bebidas fortificadas.

Ao mesmo tempo, faz diferença olhar para o conjunto: reduzir a frequência de churrascos, diminuir salsichas, hambúrguer ultraprocessado, bacon e frios, deixar o álcool para ocasiões mais raras e aumentar o consumo de frutas, legumes e cereais integrais.

Em saúde pública, o efeito costuma aparecer quando pequenas decisões - como uma fruta a mais, menos um copo de bebida alcoólica ou a inclusão regular de uma fonte alimentar de cálcio - se repetem por anos e décadas. O estudo não promete milagres, mas indica que hábitos consistentes, mesmo modestos, podem deslocar a curva do risco de câncer colorretal.

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