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Oceano atingem calor recorde, preocupando cientistas do clima.

Homem com jaleco branco em barco segura tablet com mapa térmico próximo a recife de coral no mar.

Os oceanos nunca estiveram tão quentes desde o início das medições sistemáticas, há 66 anos. E, pelas tendências observadas, não há sinal de reversão no curto prazo - ao contrário, o aquecimento continua a ganhar força.

Em 2025, os oceanos quebraram o recorde de calor pela sexta vez seguida. Esse é um dos achados centrais do State of the Global Climate, o relatório anual da OMM (Organização Meteorológica Mundial) publicado em 23 de março, que também confirma que 2015–2025 ficará registado como a década mais quente já medida. Essa trajectória já tinha sido destacada no ano anterior por investigadores da Universidade de Reading, no Reino Unido.

A causa principal é o aquecimento global: os gases de efeito estufa retêm parte da radiação infravermelha emitida pela Terra, criando um excedente de energia no sistema climático. A maior parcela desse excesso vai parar no mar - e o calor armazenado hoje nos oceanos continuará a desestabilizar o clima por séculos. O secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu o alerta assim: “Quando a história se repete onze vezes [nota da redação: de 2015 a 2025, inclusive], já não é coincidência, é um chamado à ação”. O problema é que esses “chamados à ação” frequentemente partem da ideia de que ainda há tempo confortável para evitar a parte mais difícil do processo.

O radiador da Terra em máxima potência: o aquecimento dos oceanos

A massa oceânica funciona como o grande “radiador” do planeta: ela absorve quase todo o excesso térmico gerado pelo reforço do efeito estufa. Na divisão desse excedente, 91% fica nos oceanos; os 9% restantes repartem-se entre continentes (5%), criosfera (3%) e atmosfera (1%).

O nível de energia acumulada chegou a marcas impressionantes: em 2025, os primeiros 2 km de profundidade aqueceram 23 zettajoules acima do pico anterior, registado em 2024.

Para traduzir esse número em algo mais intuitivo, é como se os oceanos recebessem a energia de doze bombas de Hiroshima por segundo, sem parar, durante um ano inteiro - uma comparação usada por cientistas para tornar a escala compreensível.

E não se trata apenas de um valor alto, mas de aceleração. A passagem de 2020 para 2021 já era alarmante, com um aumento de 14 zettajoules. Ainda assim, o salto de 2024 para 2025 foi 64% maior, evidenciando o quanto os acordos internacionais actuais têm sido insuficientes para conter o ritmo do aquecimento.

Carbono, química do mar e acidificação

Na última década, os oceanos retiveram cerca de 29% do carbono de origem humana. Parte disso acontece porque o CO₂ dissolve-se na água e desencadeia um conjunto de reacções químicas (um processo de carbonatação) que liberta iões de hidrogénio, reduzindo o pH do mar. Esse quadro de acidificação é particularmente prejudicial para a fauna calcificante, como moluscos e plâncton, pois a maior corrosividade do ambiente dificulta a formação e a manutenção de estruturas mineralizadas (conchas e esqueletos).

Tempestades, evaporação e a possível intensificação da ciclogénese

O aquecimento dos oceanos também pode intensificar a ciclogénese, ainda que a cadeia de causalidade não esteja totalmente fechada em todos os casos. O que se conhece bem, porém, é o mecanismo energético: com água mais quente, aumenta a evaporação, cresce a energia latente disponível e os sistemas tropicais podem convertê-la em ventos mais destrutivos.

O ano passado foi especialmente marcado por eventos intensos, como o furacão Mélissa e os ciclones Ditwah e Senyar, cuja força pode estar relacionada à estratificação térmica das águas - quando camadas do oceano ficam mais “separadas” em temperatura, favorecendo certas condições de manutenção de calor próximo à superfície.

Vagas de calor marinhas, corais e segurança alimentar

Outra manifestação directa do desequilíbrio é o aumento das vagas de calor marinhas (VCM). Essas anomalias de temperatura podem provocar branqueamento de corais, afectar cadeias ecológicas e desorganizar a pesca, com impacto imediato na renda e no abastecimento. Em muitas regiões, isso significa ameaçar a segurança alimentar de zonas costeiras, mais dependentes de recursos marinhos e com menor margem para absorver choques de produção.

No contexto brasileiro, esse risco não é abstracto: comunidades costeiras, marisqueiras e pescadores artesanais tendem a ser os primeiros a sentir mudanças na disponibilidade de espécies, deslocamentos de cardumes e variações súbitas na produtividade de áreas recifais e estuarinas.

Quando o oceano deixa de ser sumidouro: retroalimentação e inércia térmica

Quando organismos marinhos morrem em massa, a decomposição pode libertar dióxido de carbono e metano, elevando a concentração desses gases na atmosfera. Assim, o oceano, que historicamente actua como regulador e sumidouro de carbono, pode passar a comportar-se como fonte emissora em determinados contextos. É o princípio da retroalimentação (feedback): a alteração de uma variável desencadeia efeitos que reforçam e amplificam a própria alteração.

Mesmo que as emissões de gases de efeito estufa fossem interrompidas imediatamente, parar esse processo de aquecimento acelerado não seria possível de forma instantânea. A razão é conhecida na climatologia: a inércia térmica. O calor acumulado no oceano pode permanecer ali por séculos, regressando lentamente à superfície e redistribuindo-se pelo sistema Terra na mesma escala de tempo.

O Oceano Austral é um exemplo marcante: modelagens do centro GEOMAR Helmholtz indicam que ele pode continuar a influenciar o armazenamento e a troca de calor por pelo menos dois séculos. Em outras palavras, por mais legítimo que seja o apelo de António Guterres, ele não fará com que o sexto recorde deixe magicamente de pressionar o próximo para um valor “mais razoável”.

Monitorização e resposta: o que muda quando se mede melhor

Uma consequência prática desse cenário é a necessidade de monitorização oceânica cada vez mais robusta. Redes de bóias, perfis de temperatura e salinidade, e observações por satélite permitem detectar vagas de calor marinhas, mapear estratificação e acompanhar a evolução do pH. Quanto mais cedo se identifica um episódio extremo, maior a capacidade de preparar sectores como pesca, turismo e gestão costeira.

Ao mesmo tempo, há acções de adaptação que reduzem vulnerabilidades locais: proteger e restaurar manguezais e recifes (quando possível), melhorar sistemas de alerta para tempestades, diversificar fontes de renda em comunidades costeiras e fortalecer a gestão pesqueira. Nada disso substitui a mitigação global de emissões, mas ajuda a atravessar um século em que o oceano, já aquecido, continuará a impor consequências de longo alcance.

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