Muito mais leves do que as garrafas de inox de 800 g e bem mais práticas de usar do que as garrafas rígidas de plástico, essas flasques podem parecer a solução ideal para quem corre. Mas será que dá mesmo para beber com serenidade direto do bocal?
Entre 2010 e 2015, as garrafas flexíveis de hidratação se popularizaram em ritmo acelerado e, hoje, é quase impossível encontrar um número de peito em uma ultramaratona ou maratona sem ver uma delas. Os corredores adoram - e com razão: elas são leves, muitas pesando menos de 50 g vazias; bastam alguns apertos para hidratar rápido; a água balança menos do que em uma garrafa rígida; e o preço costuma ser muito competitivo. Por menos de 10 euros, já é possível comprar uma na Amazon, e grandes redes esportivas como a Decathlon também oferecem modelos com valores bem atraentes.
A grande maioria dessas garrafas é produzida em poliuretano termoplástico, ou TPU, um elastômero sintético derivado da petroquímica que dá a elas a elasticidade característica. Esse mesmo material também é usado na área médica, em cateteres e tubos de infusão, e é conhecido por sua “inocuidade relativa”. Na toxicologia, esse tipo de expressão indica que não existe risco zero e que o contato entre o líquido e o TPU não é totalmente inofensivo.
Correr com saúde ou beber plástico? O dilema das garrafas flexíveis de hidratação
Quem já usou uma garrafa flexível sabe que ela pode deixar um gosto péssimo e muito persistente na boca. Mesmo depois de enxágue com bicarbonato de sódio ou vinagre, ou de passar 24 horas no congelador, o problema continua: esse sabor vem do TPU - ou, mais precisamente, dos aditivos que lhe conferem resistência e maleabilidade.
O TPU puro não basta para fabricar uma garrafa. Para facilitar a moldagem e a desmoldagem no processo industrial, os fabricantes adicionam substâncias como ceras e géis, também derivados do petróleo. Parte desses compostos pode depois migrar para o líquido armazenado, que acaba indo para o seu estômago.
Xavier Cousin, pesquisador em fisiologia da INRAE, confirmou isso ao jornal esportivo francês L’Équipe: “O cheiro e o gosto de plástico provavelmente se explicam pela presença desses aditivos.” Jean-François Gérard, diretor-adjunto científico do Instituto de Química do CNRS, relativiza ao comparar o fenômeno aos moldes de silicone usados para bolos. A comparação faz sentido do ponto de vista químico: mesmo sem conter TPU, em ambos os casos o que escapa são resíduos de cozimento ou de polimerização.
Mas a semelhança é bem menor quando se olha para a exposição real. Um molde de bolo aquece, de fato, mas aquece uma única vez, dentro do forno, antes de ser lavado e guardado. Já a sua garrafa flexível é pressionada contra os lábios várias vezes ao longo de algumas horas, normalmente em uma temperatura ambiente que pode passar de 35 °C no verão. No dia seguinte, ou alguns dias depois, ela volta a ser usada - e assim sucessivamente, até o fim da vida útil.
A migração química de um aditivo para um líquido depende de três fatores: temperatura, natureza do líquido e tempo de contato. O molde de bolo reúne apenas um deles, a temperatura, e ainda assim de forma pontual. Já uma garrafa flexível reúne os três fatores, repetidamente, ao longo de centenas de usos.
É justamente o modo de uso que alimenta as dúvidas sobre a inocuidade total do TPU quando o organismo entra em contato com ele durante uma prática esportiva regular. É verdade que ele não contém bisfenol A nem ftalatos, o que o coloca na lista de plásticos autorizados para contato com alimentos pela regulamentação europeia.
Mesmo assim, os aditivos usados variam bastante de fabricante para fabricante e nem sempre o perfil toxicológico deles é documentado ou divulgado.
Além disso, a garrafa se desgasta a cada utilização. Xavier Cousin explicou novamente ao L’Équipe: “Outro fator de risco é o desgaste ou o atrito. Se você a usa de maneira extremamente repetida e a torce para pegar a última gota, pode fragilizar o plástico e acabar ingerindo microplásticos.” Ao comprimir a garrafa, a matriz polimérica se desgasta, o que pode favorecer o desprendimento de partículas.
Esse processo é acelerado pelo calor. Por isso, a maioria dos fabricantes define um limite máximo de 40 °C para o líquido armazenado - algo que o conteúdo de uma garrafa escura esquecida ao sol em julho atinge sem dificuldade. Some a isso uma bebida isotônica levemente ácida, em vez de água, e os três fatores de migração - temperatura, acidez e tempo de contato - ficam reunidos.
Microplásticos: os convidados indesejados
Xavier Cousin soltou a palavra que incomoda: “microplásticos”, fragmentos com menos de 5 mm, que estão no centro de uma preocupação sanitária desde o início dos anos 2000. Eles estão por toda parte no ambiente e também na nossa alimentação - e no nosso organismo: sangue, pulmões, fígado, placenta, urina e até o cérebro.
A toxicidade dessas partículas ainda é objeto de muitas pesquisas; diversos estudos encontraram efeitos biológicos e associações com diferentes problemas, embora ligações de causa e efeito sólidas nem sempre sejam comprovadas de forma consistente em seres humanos. Por exemplo, uma meta-análise de 141 estudos científicos publicada no PubMed em setembro de 2025 encontrou relação entre a ingestão crônica dessas partículas e vários problemas de saúde. Doenças respiratórias, alterações do sistema hormonal, neurotoxicidade, reprotoxicidade e um potencial carcinogênico ainda em debate: um cenário nada animador.
Em março de 2024, outro estudo italiano, desta vez publicado na revista New England Journal of Medicine, observou uma associação entre a presença de micro e nanoplásticos nas placas de ateroma carotidianas - depósitos de gordura que se acumulam nas paredes das artérias do pescoço e reduzem o fluxo sanguíneo para o cérebro - e um risco maior de infarto ou AVC.
É verdade que o estudo não estabeleceu causalidade entre os dois elementos, e outros pesquisadores apontaram na mesma revista um possível viés. As amostras foram coletadas em centro cirúrgico, um ambiente que já concentra partículas plásticas vindas do material hospitalar, o que dificulta afirmar com certeza se os microplásticos detectados vieram mesmo do paciente ou do procedimento. O que se sabe com segurança é que microplásticos foram encontrados em tecidos arteriais humanos; o que ainda não está totalmente definido é até que ponto eles aumentam o risco cardiovascular.
Ainda assim, o consenso científico em torno dos microplásticos hoje é sólido: essas substâncias não foram feitas para serem ingeridas por seres humanos.
Então vale jogar fora a sua garrafa flexível?
Se você tem uma ou mais garrafas flexíveis, seria melhor descartá-las? Em tese, a resposta poderia ser sim, caso a sua prioridade absoluta seja eliminar qualquer risco. Mas é preciso manter os pés no chão: você provavelmente consome mais microplásticos quando bebe regularmente água de garrafas plásticas feitas de PET, o politereftalato de etileno. Sua garrafa flexível provavelmente não é mais perigosa do que a nossa “plastisfera” e é apenas uma entre muitas fontes de exposição.
Ainda assim, dá para agir para não piorar a situação: evite deixá-la dentro do carro sob o sol ou espremê-la até ficar esbranquiçada, por exemplo. Também vale preferir uma marca reconhecida em vez de uma garrafa vendida por oito euros, cuja composição pode ser um mistério. E, acima de tudo, por favor, faça a limpeza corretamente: as bactérias e os fungos que podem se multiplicar ali representam um perigo muito mais concreto para a sua saúde do que o TPU.
Uma boa prática adicional é observar o estado da peça com frequência. Se a garrafa apresentar odor persistente, mudanças de cor, áreas esbranquiçadas, rachaduras ou perda evidente de elasticidade, o mais prudente é substituí-la. Em modalidades de endurance, onde a hidratação é contínua e o equipamento sofre muito atrito, escolher materiais de origem e composição mais transparentes ajuda a reduzir a exposição e também a aumentar a durabilidade do produto.
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