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UFC-Que Choisir processa a Ubisoft por **The Crew** e reacende o debate sobre propriedade digital

Jovem jogando videogame de corrida em monitor enquanto segura controle em mesa com acessórios.

Já passou da hora de esse estúdio encarar a Justiça. E, como quase sempre, a UFC-Que Choisir apareceu no momento exato.

O revés que muita gente esperava finalmente chegou - e ele promete doer bastante em Montreuil. A verdade é que a Ubisoft não anda exatamente em alta: entre lançamentos sem fôlego, jogos cada vez mais parecidos entre si e decisões estratégicas questionáveis, a principal vitrine do videogame francês vem acumulando tropeços, ainda mais desde o início do ano. Só que os problemas recentes não apagaram as consequências deixadas por decisões antigas.

Em dezembro de 2023, a gigante francesa retirou The Crew das lojas sem aviso prévio e, depois, encerrou de forma definitiva os servidores em 31 de março de 2024. Lançado em 2014, o primeiro jogo já havia estabelecido as bases de uma franquia relativamente consistente para quem gosta de corrida extremamente arcade, que mais tarde ganhou The Crew 2, em junho de 2018, e o mais recente The Crew Motorfest, em setembro de 2023. Para piorar, a Ubisoft decidiu em abril de 2024 revogar as licenças das bibliotecas dos jogadores do primeiro título da série. Foi uma atitude de rara arrogância, e isso acabou chamando a atenção da UFC-Que Choisir.

UFC-Que Choisir parte para cima da Ubisoft no caso The Crew

A entidade de defesa do consumidor entrou com uma ação contra a Ubisoft no Tribunal Judiciário de Créteil. E não está indo com suavidade. O objetivo é direto: acabar com a impunidade que permite às editoras transformar compras em simples aluguéis frágeis e provisórios. Com apoio do movimento global Stop Killing Games, a UFC-Que Choisir ataca de frente a defesa da Ubisoft, que tenta sustentar que vende apenas uma licença de uso que pode ser revogada quando quiser.

Segundo a associação, a Ubisoft promoveu uma decisão unilateral que tornou o jogo completamente inutilizável, retirando dos fãs qualquer possibilidade de usar um produto que foi pago pelo preço cheio no lançamento. A disputa gira em torno de dois pontos que não devem ser fáceis de sustentar diante de um juiz.

O primeiro trata de cláusulas contratuais consideradas abusivas. Elas permitiriam à editora negar o direito de propriedade, cortar o acesso ao jogo sem oferecer um modo offline alternativo e ainda ignorar reembolsos feitos por carteiras digitais.

O segundo ponto, talvez ainda mais grave, é que a UFC-Que Choisir classificou a retirada do jogo como parte de práticas comerciais potencialmente enganosas. A acusação é de que a Ubisoft teria deixado os consumidores acreditarem que estavam comprando um bem duradouro, quando, na prática, o acesso dependia de servidores cuja data de validade ficou escondida do público.

Esse tipo de caso também escancara um problema maior da indústria: a fragilidade da compra digital. Quando um jogo depende exclusivamente de servidores centralizados, o consumidor pode perder, de uma hora para outra, aquilo que imaginava ter adquirido de forma permanente. Por isso, a discussão vai muito além de um único título e toca em um ponto central para preservação, acesso e memória dos videogames.

Se a Justiça der razão à UFC-Que Choisir, o processo pode criar um precedente mundial, obrigando a indústria a respeitar melhor os jogadores e a garantir uma sobrevida para os nossos jogos preferidos. A Ubisoft, por sua vez, ainda corre o risco de levar uma multa pesada que, em tese, pode chegar a 10% do faturamento médio anual ou a 50% dos gastos relacionados à publicidade ou à prática questionada. Depois de tratar os clientes como se fossem uma fonte infinita de dinheiro, a empresa pode acabar descobrindo, da pior forma, o custo de ignorar quem compra seus jogos.

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