Experimentos indicam: o regolito “imaturo” mantém a estrutura mesmo após centenas de passagens de rodas, reduzindo riscos para missões na Lua
O regresso à Lua, impulsionado pelos programas Artemis, pela iniciativa europeia Moon Village e pela ILRS sino-russa, coloca para a engenharia um dos desafios mais difíceis: operar sob a ação agressiva da poeira lunar. O regolito que recobre a superfície do satélite ameaça tanto os equipamentos quanto a saúde dos astronautas, e as suas características viram um fator decisivo quando se planeja uma presença de longa duração.
O regolito lunar não é equivalente ao solo terrestre. Ele se formou ao longo de bilhões de anos sob impactos de micrometeoritos e pela ação do vento solar, em ambiente de vácuo. Como consequência, a Lua é coberta por partículas extremamente finas de silicatos e metais. Essas partículas carregam carga eletrostática, levantam-se com facilidade durante pousos e deslocamentos de veículos e aderem a praticamente qualquer superfície. Quando entram em mecanismos, aceleram o desgaste; quando inaladas, podem causar problemas respiratórios e, potencialmente, danos de longo prazo.
Regolito lunar “imaturo”, intemperismo espacial e poeira
Um estudo recente em geofísica mostrou que o comportamento do regolito muda de forma importante conforme o seu grau de “maturidade”. O chamado regolito “imaturo” - com grãos maiores e menor nível de intemperismo espacial - reage de outro modo: ele tende menos a gerar nuvens de poeira quando sofre ação mecânica.
A diferença central está justamente nos processos de intemperismo espacial. Com o tempo, a superfície lunar recebe impactos de micrometeoritos e é bombardeada pelo vento solar, o que tritura os grãos e favorece a formação de nanopartículas de ferro (npFe). Esse regolito “maduro” fica mais fino, mais abrasivo e mais ativo do ponto de vista eletrostático. A situação é especialmente crítica na região da bacia Polo Sul–Aitken, onde futuras missões estão previstas: ali, a poeira consegue penetrar com facilidade nos equipamentos e comprometer o funcionamento.
Ensaios com rodas de rover: como o regolito reage ao tráfego
Para verificar como o regolito responde ao deslocamento de veículos, os pesquisadores realizaram uma série de testes usando construções reais de rodas de rovers lunares. Os experimentos foram feitos com o análogo de engenharia LHS-1E, compatível com o material “imaturo” das terras altas lunares e de regiões polares.
Os ensaios ocorreram na instalação RIDER (Regolith Interactions for the Development of Extraterrestrial Rovers), no laboratório Exolith. Foram avaliados três tipos de rodas: o protótipo Astrobotic Polaris, o protótipo Resource Prospector (análogo para o futuro rover VIPER) e uma cópia das rodas do rover lunar do programa Apollo. Cada roda realizou até 900 passagens sobre uma camada de regolito com cerca de 35 cm de espessura, sob condições que simulavam a gravidade lunar.
Amostras do material foram coletadas antes do início e após cada conjunto de 100 passagens. Em seguida, a equipe examinou tamanho e formato das partículas para determinar se ocorria fratura dos grãos e geração de poeira mais fina.
Os resultados indicaram que, mesmo após 900 passagens, a estrutura do regolito permaneceu praticamente inalterada. Foram observadas apenas pequenas variações associadas ao desenho das rodas e aos materiais empregados - metal ou fibra de carbono. No geral, não houve quebra significativa das partículas em frações menores, o que sugere ausência de aumento relevante na formação de poeira.
Os autores destacam que esse achado tem impacto direto nas próximas missões. Rovers devem ter um papel importante na exploração da superfície lunar, sobretudo nas terras altas e no polo sul. Entender quais tipos de regolito ajudam a minimizar a geração de poeira permite planejar trajetos com antecedência, selecionar áreas de operação e reduzir riscos tanto para a tecnologia quanto para a tripulação.
Na prática, trata-se da primeira confirmação experimental de que uma parte da superfície lunar pode ser adequada para estabelecer rotas de transporte estáveis sem uma piora crítica das condições causada pela poeira.
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