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Tradição ameaçada: como políticos e pastores querem salvar a vida nas montanhas

Pastor com cajado e papel em mãos, cercado por ovelhas em campo montanhoso com igreja ao fundo.

Por trás dos bastidores, um setor inteiro luta para continuar existindo.

Na feira agrícola de Paris, um assunto que por muito tempo foi tratado como folclore pitoresco vira pauta de primeira linha: a pecuária de pastoreio itinerante nas montanhas. Políticos de diferentes partidos e criadores de gado se unem para ajustar um modelo económico secular à realidade dura de hoje - marcada por mudanças climáticas, ataques de lobos e pressão sobre preços.

Pastoralismo nas montanhas: o que esse conceito significa

A palavra pastoralismo pode soar académica, mas descreve algo bem concreto: um tipo de criação em que os rebanhos se deslocam de forma planeada. Em vez de levar ração até o curral, bovinos, ovinos ou caprinos acompanham o ciclo das estações. No verão, sobem para pastagens naturais em altitudes maiores; no inverno, retornam para áreas de clima mais ameno.

Ligada a isso está a transumância - a subida e descida sazonais tradicionais. Na França, na Espanha, na Itália e também em regiões da Suíça e da Áustria, essa prática molda paisagens inteiras. Os pastores conhecem cada encosta, cada córrego e cada mudança de humor do tempo nas montanhas. Muitas vezes, seguem rotas antigas, usadas há séculos.

“O pastoralismo não é apenas folclore, mas um modelo económico e de manejo da paisagem que funciona - e que, até agora, sustenta cerca de um quinto de todas as explorações francesas de criação em pasto.”

Segundo representantes do setor, na França ainda aproximadamente um em cada cinco produtores de pecuária em pasto trabalha com esses princípios - um número surpreendente em tempos de ordenha robotizada, engorda em confinamento e tratores guiados por GPS.

Regras antigas, realidade nova: por que a lei precisa mudar

A última norma específica para esse tipo de pecuária extensiva no país é do início dos anos 1970. De lá para cá, o cenário mudou muito: mais turismo nas montanhas, mais tráfego, mais atividades de lazer, novas exigências ambientais e, acima de tudo, efeitos do clima cada vez mais evidentes.

Por isso, parlamentares de diferentes correntes políticas estão a preparar uma base legal atualizada. A ideia é definir com clareza o enquadramento em que os pastores podem trabalhar sem viver em permanente atrito - seja com caminhantes, tutores de cães ou proprietários de terras.

  • Segurança jurídica para direitos de pastagem e trilhas tradicionais
  • Melhor proteção contra ataques de lobos e outros prejuízos
  • Programas de incentivo para jovens que queiram entrar na profissão
  • Adequação das regras a riscos climáticos como seca e geada tardia

O recado na feira é claro: o setor não quer idealização nostálgica, e sim normas aplicáveis no dia a dia - do reforço de cercas à monitorização digital dos rebanhos.

Lobos, seca e pressão de preços: três frentes ao mesmo tempo

O lobo como estopim político

Poucos temas inflamam tanto o debate quanto o retorno do lobo. Em muitas regiões montanhosas, matilhas atacam ovelhas e bezerros - normalmente à noite, às vezes mesmo perto de cabanas de altitude. Para os pastores, isso não representa apenas desgaste emocional: são perdas económicas concretas.

Cães de guarda, cercas mais altas e currais noturnos: tudo isso exige tempo e dinheiro. Há explorações que desistem porque já não suportam a pressão. Por isso, representantes da pecuária em pasto pedem regras objetivas para lidar com “lobos problemáticos” e indemnizações mais rápidas.

A mudança climática reduz as áreas de pasto de altitude

Ao mesmo tempo, o clima nas zonas mais altas está a mudar. Verões mais quentes e secos fazem as pastagens perderem vigor mais cedo, nascentes chegam a secar por períodos, e o risco de avalanches e de chuvas intensas aumenta. Com isso, os pastores precisam redesenhar rotas ano após ano, encurtar a permanência no verão ou buscar altitudes ainda maiores.

Para pequenas explorações familiares, surge um impasse: espera-se que mantenham áreas que, sem pastejo, virariam mato fechado ou seriam mais suscetíveis a incêndios - mas a base alimentar fica cada vez menos previsível.

Mercado global, dificuldades locais

Somam-se a isso os preços baixos na porteira num mercado globalizado. Leite, queijo e carne oriundos de produção industrial apertam as margens. Quem cria animais com mais esforço em pastagens itinerantes disputa espaço com produtos que, para o varejo, muitas vezes são mais baratos de comprar.

“A criação itinerante em pasto entrega produtos de alta qualidade, mas com custos mais elevados - sem apoio político adequado, esse sistema desaba.”

A iniciativa legislativa em discussão pretende compensar esse desequilíbrio, por exemplo com incentivos mais direcionados, selos para produtos de criação tradicional em pasto e burocracia simplificada para pequenas explorações.

Por que o trabalho dos pastores protege a paisagem e o clima

Para muitos moradores das cidades, a vida do pastor parece romântica; na prática, é trabalho pesado. Ainda assim, especialistas têm enfatizado cada vez mais o valor ambiental e social desse modelo de agricultura.

Área Contribuição da pecuária itinerante em pasto
Manejo da paisagem Evita o avanço de arbustos, mantém pastagens alpinas abertas e preserva paisagens culturais tradicionais.
Prevenção de incêndios Diminui biomassa combustível e, com isso, o risco de grandes incêndios em encostas.
Biodiversidade Cria mosaicos de vegetação que servem de habitat para insetos, aves e répteis.
Clima Favorece a formação de húmus em pastagens permanentes e, assim, ajuda a fixar carbono no solo.
Turismo Mantém a “paisagem de cartão-postal” que atrai visitantes, incluindo especialidades regionais.

Na França, em particular, políticos chegam a chamar esse tipo de criação de “um tesouro do país”. A expressão não se refere apenas ao desempenho económico, mas ao conjunto formado por tradição, cuidado com a natureza e identidade regional.

Atritos com caminhantes, carros e drones

Um ponto sensível hoje: para muita gente, a montanha virou cenário de lazer. Ciclistas de mountain bike, caminhantes, campistas e praticantes de parapente dividem os mesmos espaços com os rebanhos. Daí surgem conflitos recorrentes - por exemplo, quando cães soltos correm para dentro de grupos de bovinos ou quando campistas abrem cercas.

Pastores relatam episódios em que são tratados com desdém, apesar de serem justamente eles que mantêm essas áreas abertas. A tecnologia também entra na equação: drones sobrevoando rebanhos podem assustar os animais, e as e-bikes levam pessoas a zonas que antes só eram alcançadas por quem tinha mais preparo.

“Quem desfruta de uma ‘vista livre’ nas montanhas beneficia-se de um trabalho que muitas vezes permanece invisível - e é exatamente por isso que os envolvidos estão agora a disputar soluções no campo político.”

O que Alemanha, Áustria e Suíça podem aprender com o caso francês

O debate francês toca em questões que já chegaram há muito tempo aos países de língua alemã. Nos Alpes, muitas explorações enfrentam desafios semelhantes: lobo, pressão sobre preços e falta de mão de obra nas pastagens de altitude. Uma regulação moderna - juridicamente clara e, ao mesmo tempo, respeitosa com as tradições - pode servir de referência.

Também chama atenção como a tecnologia digital pode facilitar o dia a dia dos pastores sem desfigurar a ideia central. Coleiras com GPS, sensores para acompanhar a saúde dos animais e drones para monitorizar encostas já estão a ser testados. Mas o ponto decisivo continua o mesmo: os animais precisam chegar aos lugares certos, e alguém tem de estar no terreno, entendendo de facto o que está a acontecer.

O que estes termos querem dizer - em resumo

  • Pastoralismo: modelo de criação com rebanhos itinerantes, fortemente orientado a pastagens naturais.
  • Transumância: subida e descida sazonais entre vale e altitudes maiores ao longo de rotas estabelecidas.
  • Estiva / pasto alpino de verão: pastagem de altitude usada no verão, normalmente ocupada apenas por alguns meses do ano.

Quem cruza com um rebanho durante as férias costuma ver apenas um instante idílico. Por trás disso há planeamento, conhecimento de plantas, sanidade animal, clima e normas. Quando um animal se dispersa, o lobo ataca ou uma tempestade se forma, cada minuto conta.

É exatamente esse emaranhado - tradição, tecnologia moderna e enquadramento político - que os envolvidos estão a tentar reorganizar agora. Porque, se a rede de pastoreio itinerante se perder, não desaparece apenas uma profissão. Paisagens inteiras de montanha mudam, com impactos na natureza, no turismo e na identidade regional em toda a região alpina e nas cadeias de montanhas médias.

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