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Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1: dos circuitos de rua ao Algarve

Carro de Fórmula 1 vermelho com detalhes verdes em garagem moderna com vista para o mar.

Em 2020, de forma excepcional e por causa do impacto da pandemia de Covid-19 no calendário mundial, Portugal voltou a receber um Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1 - desta vez no Autódromo Internacional do Algarve (AIA), em Portimão. A prova marcou o retorno da principal categoria do automobilismo ao país após 24 anos de ausência.

Pelos mesmos motivos, o cenário se repetiu em 2021: o traçado algarvio voltou a ser o palco do GP de Portugal de Fórmula 1. Ainda assim, a presença da F1 em território português não se resume ao moderno circuito de Portimão - é uma história longa, atravessada por diferentes épocas, pistas e personagens inesquecíveis.

Para entendê-la, é preciso voltar aos circuitos urbanos do passado e, sobretudo, ao Autódromo do Estoril, onde um nome lendário escreveu um dos capítulos mais marcantes: Ayrton Senna conquistou em Portugal, no Estoril, a primeira vitória da carreira na Fórmula 1.

Ao todo, quatro pistas portuguesas já receberam a Fórmula 1 - e quatro pilotos portugueses chegaram à categoria ao longo das décadas, em um esporte que sempre impôs barreiras técnicas, financeiras e esportivas para quem tenta alcançar o grid.

Além das mudanças de traçado, a trajetória portuguesa também reflete a transformação da própria F1: dos circuitos de rua com paralelepípedos e trilhos de bonde às exigências atuais de segurança, áreas de escape e infraestrutura. Essa evolução ajuda a explicar por que algumas praças desapareceram do calendário e por que outras ganharam força quando o mundo do automobilismo precisou de alternativas.

Circuito da Boavista

A primeira corrida de Fórmula 1 em Portugal aconteceu em 24 de agosto de 1958, no Circuito da Boavista, na cidade do Porto - justamente no ano em que a FIA instituiu um Campeonato do Mundo de Pilotos em moldes muito próximos aos atuais.

Embora a Boavista já recebesse havia anos provas internacionais chamadas de Grande Prémio de Portugal, elas eram destinadas a carros Sport. Foi apenas em 1958 que o país sediou, pela primeira vez, o GP de Portugal de Fórmula 1. Segundo a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK), o evento reuniu mais de 100 mil espectadores.

A etapa foi a nona de 11 provas de uma temporada disputadíssima entre Mike Hawthorn (Ferrari) e Stirling Moss (Vanwall). O circuito era veloz e passava por pontos como a Foz do Douro, a Avenida da Boavista e a Circunvalação - combinando piso de paralelepípedos e a presença de trilhos de elétricos, um retrato de outra era do automobilismo.

O traçado de 1958 tinha 7.500 metros de extensão. Foram 50 voltas, totalizando 375 km. Stirling Moss dominou de maneira quase absoluta e chegou a abrir uma volta de vantagem sobre o quarto colocado, Lewis-Evans, seu companheiro de equipe.

Apesar do triunfo relativamente controlado, a corrida ganhou contornos dramáticos por causa de um episódio que poderia ter mudado a disputa do título mundial. Na última volta, Hawthorn sofreu um problema elétrico em sua Ferrari, rodou e precisou descer do carro para empurrá-lo e tentar fazê-lo pegar novamente - o que conseguiu, garantindo a chegada em segundo lugar.

O problema foi que, ao religar o motor, Hawthorn percorreu alguns metros no sentido contrário ao do circuito. Por isso, acabou desclassificado e perdeu os sete pontos que havia conquistado na pista.

Moss presenciou o incidente e, em um gesto que entrou para a história como exemplo de espírito esportivo, foi até a direção de prova pedir a reversão da penalização. O argumento era claro: Hawthorn estava fora da pista quando tentava colocar o carro em funcionamento e retornar.

A punição acabou anulada, Hawthorn recuperou os sete pontos e manteve a liderança do campeonato - agora com quatro pontos de vantagem sobre Moss, restando duas corridas para o fim. No encerramento do ano, Hawthorn seria campeão do mundo com apenas um ponto de diferença para Moss, e o episódio da Boavista se consolidou como uma das grandes lições de fair play da Fórmula 1.

Circuito de Monsanto

Em 1959, o GP de Portugal permaneceu no calendário do Mundial de Fórmula 1, mas mudou de endereço: a prova passou para o Circuito de Monsanto, em Lisboa.

A corrida foi disputada em 23 de agosto de 1959 em um traçado que começava na Estrada de Queluz, seguia pela via rápida do Estádio Nacional (a atual A5), passava pela Estrada do Alvito, Estrada de Montes Claros e Estrada do Penedo, e terminava na Estrada dos Marcos.

O percurso tinha 5.440 metros e foi percorrido por 62 voltas, somando 337 km.

Assim como havia acontecido em 1958, Stirling Moss voltou a se destacar - agora pilotando um Cooper-Climax - com uma atuação dominante. Ele venceu à frente de Masten Gregory (Cooper-Climax) e Dan Gurney (Ferrari).

A corrida também marcou a estreia na Fórmula 1 do português “Nicha” Cabral, com um Cooper-Maserati. Ele terminou em 10º e, ao longo da prova, envolveu-se em um incidente que resultou em um acidente com Jack Brabham.

No ano seguinte, em 1960, o Grande Prémio de Portugal voltou ao Porto e ao Circuito da Boavista. Depois disso, o público português enfrentaria uma longa ausência da F1, que só seria quebrada em 1984, já em um autódromo permanente: o Estoril.

Autódromo do Estoril

O retorno da Fórmula 1 a Portugal em 1984 também aconteceu em um contexto fora do comum. Ainda durante a temporada, em maio, o GP de Portugal entrou no lugar do GP de Espanha, que naquele ano estava previsto para um circuito urbano à beira-mar em Fuengirola, mas não se concretizou.

Com a mudança, a prova foi para o Autódromo Fernanda Pires da Silva, popularmente conhecido como Autódromo do Estoril. A pista havia sido inaugurada 12 anos antes - e, por coincidência, a Fórmula 1 permaneceria no país por 12 temporadas consecutivas, sempre no mesmo traçado, até 1996.

O GP de Portugal de 1984 foi a última etapa daquele campeonato e chegou carregado de tensão: Niki Lauda e Alain Prost, companheiros na McLaren, desembarcaram no Estoril com chances reais de título.

Prost venceu a corrida, Lauda ficou em segundo, mas foi Lauda quem levou o campeonato - na menor margem já registrada entre primeiro e segundo no Mundial, apenas meio ponto.

Na mesma prova, Ayrton Senna (Toleman), estreante na Fórmula 1, subiu ao pódio em terceiro e deixou uma indicação clara do que estava por vir. Esse aviso se transformaria em espetáculo no ano seguinte, em uma das corridas mais emblemáticas já vistas no Estoril.

Em 1985, o GP de Portugal foi transferido do outono para a primavera. No dia 21 de abril, o autódromo foi atingido por um temporal intenso, daqueles que parecem confirmar o ditado brasileiro de que “abril é mês de chuva”. Em meio à pista encharcada, Senna - então com 25 anos - mostrou por que já era apontado como um talento raro.

Ele liderou de ponta a ponta e conquistou sua primeira vitória na F1. Em condições extremamente difíceis, apenas nove carros chegaram ao final, e Senna, em seu primeiro ano pela Lotus, colocou uma volta em praticamente todos os adversários. O único a escapar de ser dobrado foi Michele Alboreto (Ferrari), que terminou em segundo.

Aquele triunfo foi o primeiro de 41 de Ayrton Senna na Fórmula 1. No mesmo fim de semana, ele também fez a volta mais rápida e conquistou a primeira pole position da carreira - um prenúncio do que viria a se repetir muitas vezes.

Mais adiante, em 1996, Jacques Villeneuve (Williams) venceu e se tornou o último ganhador do GP de Portugal disputado no Autódromo do Estoril. Naquele campeonato, o título mundial ficou com Damon Hill (Williams).

A prova ainda chegou a constar no calendário de 1997, mas reformas e melhorias de infraestrutura não ficaram prontas a tempo, e a etapa acabou transferida para a Espanha, no circuito de Jerez de la Frontera.

Autódromo Internacional do Algarve (Portimão) e o GP de Portugal de Fórmula 1

Foram necessários 24 anos para que o “grande circo” voltasse a passar por Portugal. O retorno aconteceu no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, que se tornou o quarto circuito a receber a Fórmula 1 no país.

O 17º Grande Prémio de Portugal, realizado em 25 de outubro de 2020, só entrou no calendário porque a pandemia do novo coronavírus forçou uma reorganização completa do Mundial. Ainda assim, a corrida entregou um roteiro histórico.

Lewis Hamilton (Mercedes-AMG Petronas) venceu em Portimão e, mais uma vez, gravou seu nome nos recordes da F1: alcançou 92 vitórias em Grandes Prémios, superando Michael Schumacher (91) e tornando-se o piloto com mais triunfos na história até então.

A corrida no Algarve teve ainda Valtteri Bottas (Mercedes-AMG Petronas) em segundo e Max Verstappen (Red Bull Racing) em terceiro. Fora da pista, a prova também se destacou: Portimão registrou a segunda maior audiência televisiva da temporada 2020, com 100,5 milhões de espectadores no mundo - ficando atrás apenas do Grande Prémio da Hungria.

Em 2021, o GP de Portugal abriu mais um capítulo dessa trajetória, com a Fórmula 1 retornando ao Algarve e a um circuito que também já havia sediado recentemente o GP de Portugal de MotoGP, reforçando o peso da região no calendário internacional do esporte a motor.

No quesito desempenho, Lewis Hamilton detém o recorde de volta no traçado algarvio: 1min16,652s. O Autódromo Internacional do Algarve foi concluído em 2008, com um investimento em torno de 195 milhões de euros. A pergunta que fica para a temporada de 2021 é direta: o recorde mudaria de mãos?

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