O Monterey Car Week, realizado todos os anos na Califórnia (EUA), está entre os eventos automotivos mais importantes e influentes do calendário mundial. Dentro da programação, os leilões costumam ser o grande ápice: é quando colecionadores, investidores e apaixonados se encontram - e onde surgem algumas das melhores (e mais caras) oportunidades de negócio do ano.
Como de costume, as expectativas foram às alturas. Entre centenas de carros disputados em diferentes casas de leilão, alguns já entram com “cara” de cifras estratosféricas - ou indecentes, dependendo do ponto de vista - e outros chegam com potencial real de quebrar recordes.
Em 2025, o roteiro se repetiu. Selecionamos os 10 automóveis mais caros vendidos nos leilões do Monterey Car Week 2025 e, somados, esses dez sozinhos chegaram a quase US$ 115,1 milhões (cerca de € 98,5 milhões).
Um ponto ficou ainda mais evidente: a Ferrari dominou o topo da tabela. Oito dos dez carros mais valorizados levaram o emblema do cavalinho rampante, reforçando o poder da marca de Maranello no mercado de colecionáveis. Os “intrusos” na lista foram um Bugatti e um Mercedes-Benz.
Antes de ir aos modelos, vale um contexto: em Monterey, preço não é só “carro”. Histórico documentado, originalidade (chassi, carroceria e conjunto mecânico), certificações, premiações em concursos de elegância e restaurações com padrão de fábrica pesam tanto quanto desempenho. Em outras palavras, procedência bem amarrada costuma virar dinheiro na hora do martelo.
Também é importante lembrar que resultados de leilão geralmente refletem um ambiente de alta competição: lances sucessivos, público global, disputas por telefone e compradores buscando carros com liquidez imediata. Em eventos desse porte, a combinação de visibilidade e raridade frequentemente empurra valores para além do “racional”.
Ranking dos leilões do Monterey Car Week 2025 (com Ferrari em destaque)
10. Mercedes-Benz 500 K Special Roadster (1935): US$ 5.340.000 (€ 4.567.482)
Inspirado nos lendários SSK (Super Sport Kurz), o Mercedes-Benz 500 K Special Roadster nasceu como um modelo de luxo com foco em performance. Ele usa um V8 supercharged (sobrealimentado) de 180 cv, montado mais recuado no chassi - uma solução que ajudava a valorizar visualmente os para-lamas dianteiros e a silhueta longa típica dos grandes Mercedes do período.
Com número de chassi 123702, este carro é um dos sete exemplares originais ainda existentes. O nível de preservação é tão alto que, em 1982, ele foi consagrado como Melhor do Evento no Pebble Beach Concours d’Elegance, concurso que premia automóveis em estado de conservação excepcional.
A unidade tem volante à direita, já que foi feita originalmente para o mercado britânico, e conta com histórico completo e documentado. Entre os proprietários estiveram o colecionador Thomas Perkins e Charles Howard, que o manteve em condição impecável ao longo dos últimos 37 anos.
9. Ferrari LaFerrari Aperta (2017): US$ 6.715.000 (€ 5.743.538)
Criado para marcar os 70 anos da Ferrari, o LaFerrari Aperta é ainda mais exclusivo do que o cupê: foram produzidas somente 210 unidades.
Cada carro recebeu personalização por meio do programa sob medida da Ferrari, e este exemplar saiu em Nero Daytona, com detalhes contrastantes em vermelho e pacote externo em fibra de carbono.
O LaFerrari foi o primeiro híbrido da marca. Na versão Aperta, a proposta é oferecer a experiência de condução ao ar livre sem sacrificar aerodinâmica ou desempenho - e, de quebra, com uma trilha sonora mais marcante. O conjunto combina um V12 aspirado de 6,3 litros com o sistema elétrico, somando 963 cv e 900 Nm.
Arrematado por quase US$ 7 milhões, este carro rodou menos de 4.000 km e ainda mantém cobertura de manutenção de fábrica até 2027.
8. Ferrari 250 GT LWB California Spider Prototipo (1957): US$ 7.265.000 (€ 6.223.764)
O Ferrari 250 GT LWB California Spider Prototipo foi, literalmente, o protótipo que abriu caminho para o 250 GT California Spider - um dos clássicos mais cobiçados da história da marca.
Ele foi usado para validar soluções de estilo e engenharia e se destacou pelo visual com referências ao Ferrari 250 GT LWB Tour de France, pela carroceria em alumínio e, claro, pelo refinado V12 dianteiro.
Este exemplar, de chassi 0769GT, pertenceu ao piloto George Arents e traz o cobiçado Classiche Red Book - certificação de autenticidade da Ferrari que confirma aderência às especificações originais de fábrica.
7. Ferrari 250 GT SWB California Spider (1961): US$ 7.550.000 (€ 6.467.917)
Como o nome sugere, o Ferrari 250 GT SWB California Spider utiliza o chassi de entre-eixos curto (SWB), característica que favorece a agilidade. As linhas clássicas levam assinatura da Pininfarina, enquanto o motor segue a tradição da casa: um V12.
O carro vendido em Monterey ganhou holofotes por ter pertencido a Antonio Ciaccia, cantor e ator conhecido como “Little Tony”, além de ter aparecido em vários filmes italianos - entre eles Sissignore, dividindo cena com um Lamborghini Miura P400.
E há um detalhe que pesa muito para colecionadores: ele preserva chassi, carroceria e transmissão originais. Esse pacote de história e integridade ajudou a empurrar o preço até US$ 7,55 milhões.
6. Ferrari 365 GTB/4 Daytona Competizione Series III (1973): US$ 8.145.000 (€ 6.977.640)
O Ferrari 365 GTB/4 Daytona Competizione Series III representa a última evolução de competição do icônico Daytona. No total, foram feitos apenas 15 Competizione, e desta terceira série saíram somente cinco unidades, com melhorias mecânicas e um V12 mais forte, de 450 cv.
O exemplar de chassi 16407 estreou nas pistas nas 24 Horas de Le Mans de 1973, pilotado por Milt Minter e Sam Posey. Ele chegou a liderar sua categoria, mas o V12 quebrou na 21ª hora da prova.
Depois, o carro virou figura constante nas grandes corridas de endurance dos anos 1970, alcançando 2º lugar na classificação geral e vitória de classe nas 24 Horas de Daytona (1979).
Vendido por cerca de US$ 8,1 milhões, foi restaurado para a especificação de Le Mans 1973 e recebeu destaque com o Troféu Enzo Ferrari em Pebble Beach, em 2024.
5. Bugatti Divo (2020): US$ 8.558.000 (€ 7.331.448)
O Bugatti Divo surgiu como a resposta para quem queria um Chiron mais extremo e com foco maior em pista.
Ele mantém o mesmo W16 quadriturbo de 8,0 litros e 1.500 cv do Bugatti Chiron, mas traz carroceria redesenhada, ajustes de aerodinâmica, suspensão recalibrada e redução de peso. Na prática, isso se traduz em mais agilidade e em 90 kg a mais de pressão aerodinâmica em comparação ao Chiron, além de suportar forças laterais de até 1,6 G.
Com produção limitada a 40 unidades, e preço de pelo menos € 5 milhões quando novo, o Divo leiloado no Monterey Car Week - durante o evento The Quail - foi muito além após uma disputa intensa de lances: US$ 8,5 milhões. Com isso, ele passa a ser o Bugatti Divo mais caro já vendido.
4. Ferrari F50 (1995): US$ 9.245.000 (€ 7.925.738)
Se o LaFerrari Aperta comemorou sete décadas de Ferrari, o F50 celebrou os 50 anos da marca. Muitas vezes descrito como um “Fórmula 1 para as ruas”, ele traz um V12 aspirado de 4,7 litros e 520 cv, derivado da experiência da Ferrari com a categoria.
A produção ficou em 349 unidades, e apenas 55 foram destinadas aos EUA - como este carro. E há mais raridade aqui: ele é um dos dois F50 “americanos” pintados em Giallo Modena.
O primeiro dono foi um nome de peso fora do mundo automotivo: Ralph Lauren, estilista e fundador da marca Polo Ralph Lauren.
Procedência e exclusividade fizeram este F50 quebrar barreiras: ele se tornou o Ferrari F50 mais caro já vendido em leilão, ultrapassando US$ 9 milhões.
3. Ferrari F40 LM by Michelotto (1993): US$ 11.005.000 (€ 9.427.239)
O Ferrari F40 é um ícone - e ficou marcado como o último modelo desenvolvido sob supervisão direta de Enzo Ferrari. Já o F40 LM by Michelotto vai além: trata-se de uma versão preparada para encarar provas de resistência, incluindo desafios do porte das 24 Horas de Le Mans.
Este carro é a 14ª unidade de um total de 19 produzidas. Na configuração GTC, ele aparece como o mais forte do grupo: são 770 cv, quase 300 cv a mais do que um F40 de rua. Esse salto veio de uma grande revisão do V8 biturbo, com resfriadores de ar de admissão maiores e aumento da pressão dos turbos.
Negociado por US$ 11 milhões, virou o Ferrari F40 mais caro de todos os tempos, praticamente dobrando o valor registrado na última vez em que um F40 LM foi a leilão.
2. Ferrari 250 GT SWB California Spider Competizione (1961): US$ 25.305.000 (€ 21.661.530)
Além de pertencer à família 250 GT SWB California Spider, este carro carrega um nível de raridade altíssimo: apenas nove unidades foram feitas na especificação Competizione, e este é um dos dois com a preparação completa de corrida.
Comparado ao 250 GT SWB California Spider “convencional”, o Competizione foi pensado para pista: é mais leve (com painéis em alumínio) e mais focado, mantendo o V12 de 3,0 litros. Um charme extra vem do contexto histórico: é da época em que um carro de competição podia, sem absurdos, ser legalmente conduzido nas ruas.
Este exemplar foi do piloto alemão Ernst Lautenschlager, venceu subidas de montanha e somou pódios em corridas de esportivos antes de migrar para competições históricas. Conforme registrado no Classiche Red Book, ele preserva chassi, carroceria, motor, câmbio e diferencial originais.
O resultado foi um número monumental: mais de US$ 25 milhões, estabelecendo recorde absoluto tanto para a leiloeira quanto para um Ferrari 250 GT.
1. Ferrari Daytona SP3 (2025): US$ 26.000.000 (€ 22.256.462)
Alguém precisava ocupar o topo do Monterey Car Week - e o título ficou com mais uma Ferrari: o Daytona SP3.
Ele é moderno e, no máximo, pode ser chamado de “clássico instantâneo”. Ainda assim, há uma razão clara para ter sido vendido por US$ 26 milhões, quase 10 vezes o seu preço quando novo.
O Daytona SP3 teve produção limitada a 599 unidades, mas a Ferrari decidiu criar mais um exemplar, numerado 599+1, com um objetivo específico: doar 100% do valor arrecadado para causas beneficentes. Personalizado pelo departamento sob medida da marca, esse carro único foi o grande protagonista financeiro dos leilões de 2025 em Monterey.
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