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Testes mostram que alguns protetores solares "FPS 50+" podem proteger tanto quanto FPS 4.

Pessoa olhando atentamente para protetor solar FPS 50+ com lupa em mesa iluminada por luz natural.

Tem sido uma fase difícil para os protetores solares. No começo deste ano, testes encomendados pela organização de consumidores Choice indicaram que alguns produtos não entregavam a proteção contra o sol que o público espera.

Em um dos casos, um item rotulado como FPS 50+ apresentou, em ensaio, um FPS tão baixo quanto 4.

A partir daí, uma cadeia de acontecimentos ganhou força: certas empresas suspenderam a venda ou iniciaram recolhimentos (recalls), e outros recolhimentos foram anunciados na sequência.

Investigações na imprensa também levantaram suspeitas sobre possíveis falhas tanto na forma como os protetores são testados quanto na maneira como são formulados.

Nesta semana, a Administração de Produtos Terapêuticos (TGA) informou que diversos protetores solares partilham uma “fórmula-base” produzida por um único fabricante. Segundo o órgão, testes preliminares sugerem que alguns protetores feitos com essa base podem apresentar FPS em torno de 4.

Não surpreende que muita gente esteja em dúvida sobre se o protetor solar que usa realmente funciona.

A seguir, está o que já se sabe sobre o anúncio da TGA e quais fatores podem estar por trás do problema.

Por que há preocupação com o FPS do protetor solar?

Desde que o FPS passou a ser usado nos rótulos, ele se tornou o indicador mais direto para o consumidor entender o nível de proteção esperado.

O problema é que medir FPS não é simples. O método mais comum aplica o protetor na pele de voluntários, expõe essas áreas à luz ultravioleta (UV) e avalia, ao longo do tempo, quanto de vermelhidão aparece.

Como a pele reage de forma diferente de pessoa para pessoa - e como laboratórios e avaliadores podem seguir procedimentos com variações - os resultados nem sempre batem. Um mesmo produto pode registrar FPS alto em um laboratório e, em outro, demonstrar uma proteção significativamente menor.

Mesmo quando o FPS real fica abaixo do declarado, o produto ainda pode oferecer alguma proteção. Ainda assim, cresce o risco de queimadura solar, dano ao DNA e aumento da probabilidade de câncer de pele.

O que é “fórmula-base” (e por que ela importa no protetor solar)?

A preocupação mais recente da TGA está relacionada a uma fórmula-base compartilhada por vários protetores. Essa base (também chamada de “núcleo” ou “veículo”) funciona como a estrutura do protetor solar e costuma incluir:

  • solventes/líquidos carreadores (água, óleos, silicones)
  • emulsificantes, surfactantes e estabilizantes (para que os componentes se misturem e não se separem)
  • espessantes ou géis
  • conservantes e antioxidantes
  • pigmentos, tonalizantes, fragrâncias e melhoradores de textura

Sobre essa base, entram outros componentes - principalmente os filtros UV. Em alguns casos, a própria base já é comercializada para terceiros com os filtros UV incorporados.

Há produtos que ainda recebem “extras”, como fotoestabilizadores, destinados a ajudar os filtros UV a manterem o desempenho por mais tempo sob o sol.

Para funcionar bem, a base precisa cumprir várias tarefas ao mesmo tempo. Ela deve:

  • distribuir os filtros UV de modo homogêneo (sem grumos ou separação)
  • manter estabilidade ao longo do tempo
  • ajudar a proteger os filtros UV contra degradação ao sol
  • permanecer agradável na pele (espalhar com facilidade e aderir bem)

Muitas marcas recorrem à mesma base e fazem ajustes pequenos, como cor ou perfume.

Embora os filtros UV sejam essenciais, eles não trabalham direito sem uma base robusta e bem projetada. Por isso, qualquer protetor solar construído sobre uma fórmula-base fraca ou defeituosa pode render abaixo do esperado. E, quando várias marcas dependem da mesma base, o impacto potencial se multiplica: muitos produtos podem ser afetados ao mesmo tempo.

A TGA informou ter identificado pelo menos 21 produtos que utilizam essa mesma fórmula-base.

Como a fórmula-base do protetor solar pode falhar?

Não está claro o motivo específico da preocupação da TGA com essa fórmula-base em particular. Ainda assim, de modo geral, uma base pode falhar por diferentes razões, por exemplo:

  • dispersão ruim ou agregação: os filtros UV podem se aglomerar ou “assentar”, deixando áreas sem cobertura adequada
  • fotodegradação: sem estabilizantes eficazes, os filtros podem se degradar com a luz solar
  • incompatibilidade química: aditivos, pigmentos ou fragrâncias podem reagir de forma desfavorável com os filtros UV
  • diluição por ingredientes inertes: excesso de “enchimento” reduz a concentração efetiva dos filtros UV ativos
  • instabilidade física: com o tempo, a fórmula pode separar fases, alterar viscosidade ou cristalizar
  • estresse de fabricação ou embalagem: mistura insuficiente, exposição a calor ou luz durante a produção, ou embalagem inadequada podem comprometer a base

Mesmo assim, não é certo que todo produto feito com essa base vá necessariamente falhar. O desempenho (e a proteção resultante) pode variar conforme pequenos ajustes de ingredientes, o rigor no processo industrial, diferenças entre lotes e até as condições de armazenamento.

Como verificar se o meu protetor solar foi afetado?

A TGA disponibiliza em seu site informações sobre marcas e produtos potencialmente afetados - e a Choice também reúne orientações e atualizações.

Cada marca envolvida pode publicar comunicados de recolhimento, condições de reembolso e identificação de lotes.

Outra opção é falar diretamente com o fabricante, informando o número do lote, para confirmar se a sua unidade está incluída.

O que fazer se a minha marca estiver na lista?

Se o seu protetor solar estiver entre os afetados:

  • não dependa dele como principal proteção, sobretudo em exposições prolongadas
  • devolva ao ponto de compra para reembolso ou troca (algumas empresas oferecem reembolso ou voucher)
  • acompanhe novas atualizações da TGA, já que a lista pode aumentar conforme a apuração avança
  • procure um profissional de saúde se houver preocupação com dano cutâneo ou exposições anteriores ao sol

Um cuidado adicional: uso e armazenamento também influenciam a proteção

Mesmo com um protetor solar tecnicamente correto, a proteção pode cair se a aplicação for insuficiente ou irregular. Para aumentar a chance de alcançar, na prática, a proteção mais próxima do FPS rotulado, é importante aplicar uma camada generosa e reaplicar após banho, suor intenso e ao longo do dia, especialmente em atividades externas.

Também vale atenção ao armazenamento: calor excessivo (como deixar o frasco no carro) e uso após o prazo podem alterar características físicas da fórmula, o que, em certos casos, pode prejudicar a estabilidade e a distribuição dos filtros UV na pele.

Qual é a mensagem principal?

Esses problemas recentes não significam que todos os protetores solares sejam pouco confiáveis. Porém, eles reforçam como o desenho do produto, a formulação e as verificações regulatórias são determinantes. As apurações da TGA podem, inclusive, resultar em testes mais robustos, padrões de formulação mais exigentes e orientações mais claras ao consumidor.

Enquanto não houver um panorama completo de todas as marcas e linhas potencialmente impactadas, pode ser sensato optar por marcas reconhecidas - especialmente as que divulgam resultados de testes, adotam práticas transparentes e têm boa reputação.

Por fim, protetor solar é apenas uma parte da segurança ao sol. Combine camadas de proteção: use roupas adequadas, chapéu e óculos escuros, procure sombra e, sempre que possível, evite permanecer por longos períodos sob sol intenso.

Mike Climstein, Professor Associado, Faculdade de Saúde, Southern Cross University; Michael Stapelberg, Professor Associado Adjunto, Faculdade de Saúde, Southern Cross University; e Nedeljka Rosic, Professora Sênior, Faculdade de Saúde, Southern Cross University.

Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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