Um episódio recente do reality As Kardashians trouxe uma informação que chamou a atenção sobre o cérebro de Kim Kardashian.
Ao comentar um exame cerebral feito por Kim, o médico dela destacou a presença de “buracos” nas imagens e afirmou que isso estaria ligado a “baixa atividade”.
Apesar de a descrição soar alarmante e triste, muitos médicos e cientistas questionam tanto a tecnologia utilizada quanto a forma como ela vem sendo cada vez mais comercializada.
Eu trabalho com saúde cerebral, inclusive com exames de imagem usados para procurar sinais iniciais de doenças neurológicas.
A seguir, explico como essa tecnologia funciona, se ela realmente “encontra buracos” no cérebro e se faria sentido pessoas saudáveis realizarem esse tipo de exame para “checagem”.
O que os exames de imagem realmente conseguem mostrar?
No início deste ano, Kim recebeu o diagnóstico de aneurisma cerebral - um alargamento de uma artéria - após uma ressonância magnética (RM).
O tipo e o tamanho desse aneurisma não foram esclarecidos publicamente. E, pelo que se sabe, não há uma conexão direta bem definida entre o aneurisma e as notícias mais recentes divulgadas no programa.
O que dá para afirmar é que a revelação mais recente veio de um exame diferente, chamado tomografia por emissão de fóton único, conhecida pela sigla SPECT.
Nesse procedimento, substâncias radioativas são injetadas na corrente sanguínea e, depois, uma câmera específica gera imagens em 3D de órgãos - incluindo o cérebro. Essa técnica foi desenvolvida em 1976 e passou a ser aplicada ao cérebro em 1990.
O SPECT pode ser usado para acompanhar e medir o fluxo sanguíneo em órgãos. Na prática médica, ele ajuda a diagnosticar e orientar tratamentos em algumas condições que envolvem cérebro, coração e ossos.
Ainda que o SPECT tenha utilidade clínica em situações restritas, faltam evidências robustas que sustentem seu uso fora desses objetivos bem estabelecidos.
SPECT, celebridades e clínicas privadas: por que isso virou tendência?
A clínica mostrada no episódio de As Kardashians oferece SPECT a seus clientes - inclusive ao clã Kardashian-Jenner.
As imagens do SPECT costumam ter grande apelo popular: cores em tons pastéis, divulgação intensa nas redes sociais e promessas de que o exame serviria para “diagnosticar” uma enorme lista de problemas. Entre as alegações, aparecem condições como estresse (como no caso de Kim), Alzheimer, TDAH, lesão cerebral, transtornos alimentares, dificuldades de sono, raiva e até problemas conjugais.
O problema é que a base científica para usar o SPECT como ferramenta diagnóstica individual - e, principalmente, para tantas condições diferentes - é fraca. Por isso, diversos médicos, cientistas e até ex-pacientes criticam a atuação de algumas dessas clínicas, descrevendo-a como cientificamente infundada e, em termos populares, como “óleo de cobra”.
Em teoria, os exames podem mostrar variações de fluxo sanguíneo. Porém, essas alterações podem ser parecidas em diferentes condições, sem “assinaturas” específicas. Além disso, o fluxo sanguíneo pode mudar conforme a região do cérebro analisada, o horário do dia e até o quanto a pessoa está descansada.
Em alguns laudos e divulgações, regiões com menor fluxo sanguíneo são descritas como “buracos”, “amassados” ou “marcas” nas imagens do SPECT.
No caso de Kim, a redução do fluxo foi interpretada como sinal de “baixa atividade” cerebral. O médico sugeriu que os lobos frontais não estariam funcionando como deveriam por causa de estresse crônico.
Só que não há evidência científica sólida que ligue esse tipo de padrão de fluxo sanguíneo, visto no SPECT, a estresse ou a resultados funcionais na vida real de uma pessoa. Na verdade, hoje não existe uma técnica única, com sustentação científica, capaz de conectar alterações de “função cerebral” em imagens a sintomas e desfechos de um indivíduo de forma confiável.
Esses exames custam caro - e levantam preocupações médicas
Há várias razões pelas quais profissionais de saúde se preocupam quando pessoas sem sintomas buscam SPECT como ferramenta de “diagnóstico”. A primeira é direta: o paciente recebe injeção de material radioativo sem uma necessidade clínica claramente definida.
Outra questão é o risco de o paciente acabar submetido a tratamentos ou receber recomendação de suplementos alimentares com base em um “diagnóstico” derivado de SPECT que não se sustenta cientificamente.
E há o custo: como o SPECT não é reconhecido como exigência médica rotineira nesse contexto, a pessoa geralmente paga do próprio bolso. Os valores podem passar de US$ 3.000 por exame, com suplementos cobrados à parte.
Um ponto adicional, muitas vezes pouco discutido em anúncios, é que qualquer exposição à radiação - ainda que em níveis considerados controlados em contextos clínicos - deve ser justificada por um benefício esperado claro. Em pessoas saudáveis, essa relação risco-benefício tende a ser desfavorável quando o objetivo é apenas “ver como está”.
Eu preciso fazer um exame desses para me avaliar?
Ferramentas como SPECT e ressonância magnética podem, sim, ser úteis para diagnosticar diversas doenças em contextos adequados. Ainda assim, para pessoas saudáveis, não existe uma necessidade médica de realizar esses exames como “check-up” geral.
Quando esses exames são oferecidos para quem não tem queixas, muitas vezes eles são descritos como “oportunistas” em dois sentidos: podem até encontrar algo inesperado em alguém sem sintomas, mas - custando vários milhares de dólares - também exploram a ansiedade das pessoas com a saúde e podem levar a uso desnecessário do sistema de saúde.
Também vale lembrar um efeito comum em exames feitos sem indicação: os achados incidentais. Ou seja, alterações sem relevância clínica que podem gerar medo, desencadear novos exames, consultas e procedimentos, sem melhorar a saúde - e, às vezes, causando mais prejuízo do que benefício.
É compreensível sentir vontade de seguir os passos de celebridades e buscar respostas em exames amplamente divulgados. Ainda assim, o melhor cuidado médico é aquele sustentado por evidências científicas sólidas, conduzido por especialistas e baseado em ferramentas e diretrizes de boas práticas construídas ao longo de décadas de pesquisa.
Sarah Hellewell, Pesquisadora Sênior, The Perron Institute for Neurological and Translational Science, e Pesquisadora, Faculdade de Ciências da Saúde, Curtin University
Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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