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Por que algumas pessoas sentem dificuldade em desconectar do trabalho no fim do dia

Homem sentado no sofá à noite, tomando chá quente enquanto usa um laptop na mesa de centro.

O relógio crava 19h37. O notebook já está fechado há mais de meia hora, mas a sua cabeça continua sentada naquela reunião das 16h.

Você pega o telemóvel “só para checar uma coisa rapidinho” e, quando nota, está a responder email com a cozinha às escuras e a comida a arrefecer no prato. A família conversa na sala, a televisão está ligada, o cão pede carinho. O seu corpo chegou em casa; a mente ainda está no escritório - no mensageiro da equipa, no WhatsApp do chefe, naquele assunto que não sai da cabeça.

Toda a gente fala em equilíbrio entre vida pessoal e profissional, em autocuidado, em descanso. Só que, na vida real, a notificação vibra e o coração dispara. Um áudio de 1 minuto transforma-se em mais 40 minutos de ruminação. Muita gente se pergunta por que não consegue desligar, por que a cabeça segue acelerada mesmo depois do expediente. E a resposta costuma ser menos óbvia do que parece.

Desconectar do trabalho: quando o expediente acaba, mas a mente continua

Há um hábito discreto que se instalou na rotina de muita gente: trabalhar com o pensamento. O ponto encerra, mas o cérebro continua em serviço. Você lava a louça enquanto escreve, por dentro, um email que nem abriu. Assiste a uma série e, ao mesmo tempo, ensaia mentalmente a apresentação de amanhã. É automático: o corpo cumpre uma tarefa, e a mente insiste noutra. Essa “segunda tela” mental consome energia mesmo sem um único ficheiro aberto.

Quase toda a gente já viveu aquele pós-dia puxado em que, em casa, a cabeça roda como se estivesse presa numa roleta de preocupações. O risco começa quando isso deixa de ser exceção e vira padrão. A linha entre “pensar no trabalho” e “viver em função dele” é fina - e muita gente atravessa sem perceber.

Um analista de marketing de São Paulo contou que passou a considerar normal responder emails de clientes às 22h. No início, acontecia apenas em períodos de campanha grande. Depois, virou praticamente diário. Ele jantava com o notebook ao lado, como se fosse parte dos talheres. “Se eu não respondia na hora, ficava ansioso. Então eu respondia logo para conseguir descansar”, disse. O problema é que o descanso, claro, nunca vinha. Um estudo da FGV apontou que o uso de aplicativos de trabalho fora do horário cresceu em várias áreas desde a pandemia, sobretudo entre cargos intermediários - a turma que precisa “dar conta de tudo”.

Uma gerente de RH lembra que, quando entrou no home office (trabalho remoto), começou a acordar e abrir o email ainda na cama. Era “só para ver” se havia algo urgente. Só que esse “ver” já acionava o modo alerta e, a partir daí, qualquer tentativa de relaxar parecia desperdício de tempo. Ela descreveu como viver com um navegador sempre aberto em segundo plano, a consumir memória. E não é apenas falta de disciplina: existe uma cultura que premia disponibilidade constante. Quem responde rápido vira “engajado”. Quem demora um pouco ganha o rótulo de desinteressado. A mensagem indireta é cristalina.

Há também uma explicação prática, nada romântica, para a dificuldade de desligar. O cérebro aprende por associação: se o telemóvel, o sofá, a mesa da cozinha e até a cama viraram locais de trabalho, esses espaços deixam de significar apenas descanso. Tornam-se gatilhos de produtividade. Qualquer notificação aciona o sistema de alerta. Some-se a isso a insegurança profissional típica de tempos instáveis - medo de perder espaço, de ser esquecido, de parecer “menos comprometido”. O resultado é uma cola invisível que mantém o trabalho grudado na mente fora do expediente.

Um detalhe que piora o quadro - e quase nunca entra na conversa sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional - é a forma como as notificações são configuradas. Quando tudo apita (grupo, email, aplicativo corporativo, WhatsApp), o cérebro interpreta cada vibração como potencial ameaça. Reduzir alertas, silenciar grupos fora do horário e separar canais (o que é “urgente” do que é “para amanhã”) não resolve tudo, mas diminui drasticamente a sensação de estar sempre “de plantão”.

Também ajuda tratar o ambiente como parte do autocuidado: sempre que possível, evitar trabalhar na cama e definir um canto específico para o notebook cria fronteiras visuais e corporais. Mesmo em casa pequena, um gesto simples (mudar a cadeira de lugar, guardar os acessórios num saco, cobrir a mesa) já sinaliza ao cérebro que um turno terminou e outro começou.

Equilíbrio entre vida pessoal e profissional: como “fechar o escritório” dentro da própria mente

Um gesto pequeno pode ter um efeito grande: montar um ritual de fim de expediente. Não precisa ser místico nem demorado. Pode ser anotar num papel as três principais tarefas do dia seguinte, fechar todas as abas, encerrar o email e guardar o notebook fora do quarto. Esse “fecho” manda uma mensagem direta ao cérebro: por hoje, acabou. É como apagar a luz de um cômodo e encostar a porta, mesmo continuando dentro da mesma casa.

Algumas pessoas fazem uma caminhada curta de 10 minutos na rua para simular o trajeto casa-trabalho que desapareceu com o home office. Outras tomam banho assim que desligam o computador, como se “lavassem” o dia. Não existe fórmula perfeita - existe experiência e ajuste. O ponto é ter um marco claro de transição: de profissional para pessoa comum. Vamos ser realistas: ninguém consegue executar isso impecavelmente todos os dias. Ainda assim, quem tenta com alguma regularidade nota melhora na qualidade do descanso.

Muita gente cai na armadilha de pensar que vai relaxar “quando der”, “depois que terminar só mais isto”, “quando a fase melhorar”. Esse “depois” raramente chega. A culpa aparece quando a mensagem do chefe chega às 21h e você hesita em abrir. Dá uma sensação de falha - como se não estivesse a “vestir a camisa”. Esse veneno é lento. E a verdade é dura: ninguém fiscaliza tanto a sua vida quanto você mesmo. Quando você entrega o seu tempo sistematicamente, o mundo não devolve espontaneamente.

É comum, ainda, confundir alta performance com presença permanente. A pessoa responde tudo, a qualquer hora, e chama isso de força. Só que a mente esgotada começa a produzir pior, errar mais e levar o dobro do tempo. O descanso vira quase um inimigo. O equívoco mais frequente é tratar qualquer limite como frescura - e depois se surpreender quando o corpo dá sinais de pane: insónia, irritação, esquecimento, sensação constante de exaustão.

Um psicólogo organizacional resumiu assim: “Desconectar do trabalho não é preguiça, é parte do trabalho bem feito. O cérebro precisa de períodos de baixa para consolidar memória e recuperar foco”.

  • Defina horários-limite para checar email e aplicativos de trabalho, mesmo que sejam flexíveis.
  • Crie um pequeno ritual diário de encerramento, com duração de 5 a 10 minutos.
  • Alinhe expectativas com chefes e colegas sobre urgências reais e urgências inventadas.
  • Afaste o telemóvel do alcance físico (especialmente durante refeições e nos primeiros minutos após chegar em casa).

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