Um gás radioactivo que pode ficar aprisionado dentro de casas e outros ambientes fechados está ligado a cerca de 3% a 14% de todos os casos de cancro do pulmão - e, de forma inesperada, as unhas dos pés podem guardar pistas sobre a nossa exposição a esse gás ao longo dos anos.
Esse gás é o radão, invisível e sem cheiro. Depois do tabaco, ele é apontado como a segunda principal causa de cancro do pulmão. Ainda assim, quem nunca fumou, fumou muito pouco ou deixou de fumar há muito tempo frequentemente não se enquadra nos critérios habituais para rastreios de cancro do pulmão, ficando fora das estratégias de detecção precoce.
Radão e cancro do pulmão: uma lacuna no rastreio
Investigadores da Universidade de Calgary (Canadá) identificaram uma forma surpreendentemente simples de estimar a exposição crónica ao radão numa pessoa. A ideia pode ajudar médicos a reconhecer um grupo “invisível” de risco: pessoas com probabilidade aumentada de cancro do pulmão sem relação com o fumo do tabaco, incluindo quem nunca tocou num cigarro, fumou apenas ocasionalmente ou abandonou o hábito há muitos anos.
Unhas dos pés como “arquivo” de exposição ambiental ao radão
As unhas dos pés funcionam como uma espécie de arquivo biológico da exposição prolongada a tóxicos ambientais, como o radão. Num estudo de prova de conceito, uma equipa interdisciplinar liderada pelo bioquímico Aaron Goodarzi e pelo físico Michael Wieser mostrou que recortes de unhas dos pés podem actuar como indicadores consistentes de exposição de longo prazo ao radão.
Se esse método for confirmado em estudos maiores, poderá facilitar o acesso de grupos hoje negligenciados a exames e avaliações potencialmente decisivos para diagnóstico precoce de cancro do pulmão.
Segundo Goodarzi, o processo é bem conhecido do ponto de vista biológico: após ser inalado, o radão transforma-se relativamente depressa num tipo específico de chumbo radioactivo. O organismo lida com esse chumbo do mesmo modo que com outras formas de chumbo, armazenando-o em tecidos de renovação lenta, como pele, cabelo e unhas.
Wieser explica que a equipa mediu isótopos de chumbo nos recortes das unhas e demonstrou que isso pode servir como um método quantitativo, capaz de indicar a exposição ao radão ao longo da vida ao nível individual.
Porque é tão difícil “relatar” a exposição ao radão
Ao contrário do historial de tabagismo, a exposição ao radão raramente é algo que a pessoa consegue descrever com precisão. Em muitos casos, ninguém sabe que esteve exposto. Além disso, os níveis de radão variam conforme a geologia local e também de acordo com a forma como os edifícios são projectados, vedados, ventilados e utilizados.
Existem códigos de construção criados para mitigar o problema, mas eles podem não existir em determinados países, não serem aplicados de modo consistente ou simplesmente não terem sido considerados em edifícios mais antigos.
Como o radão entra e se acumula em ambientes internos
O radão (Rn) é gerado naturalmente no solo e libertado para o ar. Ao ar livre, tende a diluir-se com facilidade; já em locais fechados, pode acumular-se rapidamente. Isso é particularmente relevante em edifícios com ventilação insuficiente e em regiões frias, onde diferenças de pressão podem “puxar” mais radão do subsolo para dentro dos ambientes.
O gás também pode dissolver-se na água, acumular-se e voltar a libertar-se, sobretudo em zonas rurais ricas em urânio, onde a água subterrânea tem grande importância. Alguns materiais de construção também podem contribuir para o aumento do radão em interiores, incluindo betão leve com xisto aluminoso, fosfogesso e tufo italiano.
Os autores observam que, em áreas com elevado potencial geológico para radão - como certas regiões do Canadá - práticas residenciais mais recentes podem, sem intenção, ter agravado a exposição. Ao mesmo tempo, mudanças na forma de trabalhar fizeram com que, em algumas profissões, aumentasse o tempo anual passado a respirar ar de ambientes internos de casas.
O que os cientistas encontraram nas amostras de unhas
Com técnicas ultra-sensíveis, a equipa detectou 210Pb (um isótopo de chumbo gerado pelo decaimento do radão) em 39 de 55 amostras de unhas dos pés analisadas - isto é, 71%.
Nos adultos que respiraram níveis elevados de radão em casa durante, em média, 26,5 anos, foram encontrados cerca de 0,298 femtogramas de 210Pb por nanograma de chumbo estável retidos nos recortes de unha.
Já nas pessoas com baixa exposição ao radão ao longo dos anos, as unhas continham apenas 0,075 femtogramas de 210Pb por nanograma de chumbo.
A diferença chega a 397%, um sinal forte de que o histórico de exposição ao radão pode, de facto, ficar registado nas unhas dos pés.
Outro ponto prático: níveis elevados de radão ainda eram identificáveis nas unhas de participantes até seis anos depois de terem feito alterações na residência para reduzir uma exposição previamente alta.
O próximo passo: validação em grande escala
Para confirmar se o método funciona numa população muito mais ampla e diversa, está em curso um ensaio de validação bem maior. Os investigadores procuram 10.000 residentes canadianos dispostos a medir radão nas suas casas e a enviar alguns recortes de unhas para análise.
Goodarzi afirma que os dados poderão sustentar evidências para incluir mais pessoas - cujos casos de cancro do pulmão não são causados pelo fumo do tabaco - em programas de rastreio e diagnóstico precoce com potencial de salvar vidas.
O que isto pode significar na prática (e porque faz diferença)
Embora o estudo tenha sido conduzido no Canadá, a lógica é relevante para qualquer país: como o radão depende de geologia, construção e ventilação, a exposição pode variar muito entre bairros - e até entre casas vizinhas. Em regiões com solos e rochas com maior teor de urânio (por exemplo, áreas graníticas), e em imóveis com caves, fissuras no piso ou pouca renovação de ar, o risco de acumulação tende a aumentar.
Medidas de mitigação costumam envolver melhorar a ventilação, vedar pontos de entrada (rachaduras, passagens de tubulação, juntas no piso) e, quando necessário, implementar sistemas de despressurização do subsolo. A grande vantagem de um biomarcador em unhas é complementar a medição ambiental: mesmo que a casa actual esteja “normal”, o corpo pode reflectir exposição passada, que o morador talvez nem soubesse que teve.
Esta investigação foi publicada na revista Ambiente Internacional.
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