Uma pesquisa com 12.000 voluntárias no Reino Unido identificou uma ligação consistente entre a COVID longa - isto é, sintomas de COVID-19 que continuam mesmo depois de a infeção já ter passado - e alterações no ciclo menstrual.
Além disso, os dados sugerem que a relação pode funcionar nos dois sentidos: assim como a COVID longa pode interferir na menstruação, sintomas menstruais também podem intensificar manifestações típicas da COVID longa. Trata-se de um ciclo de retroalimentação preocupante, mas que abre caminho para abordagens de tratamento mais específicas.
O que o estudo encontrou sobre COVID longa e ciclo menstrual
Segundo os investigadores, quando comparadas a pessoas que não tiveram COVID-19, aquelas com COVID longa relataram aumentos claros em vários aspetos do ciclo:
- Maior volume de fluxo menstrual;
- Duração menstrual prolongada (mais de oito dias);
- Sangramento entre menstruações (sangramento intermenstrual);
- Falhas no ciclo, com episódios de menstruação “perdidos”.
Os autores resumem que esses indicadores foram significativamente mais frequentes no grupo com COVID longa.
Já entre participantes que tiveram COVID-19 aguda (ou seja, a infeção, mas sem evolução para COVID longa), o padrão foi diferente: apenas o volume menstrual pareceu aumentar, e ainda assim sem atingir significância estatística.
Contexto: relatos após a pandemia e a lacuna na investigação
Desde a pandemia, muitas pessoas notaram mudanças na menstruação. Porém, a investigação sobre a ligação entre COVID-19 e ciclo menstrual foi, no geral, irregular, com forte atenção voltada para a vacinação. Um estudo publicado em 2023, por exemplo, indicou que alterações menstruais não diferem de forma relevante quando se comparam grupos separados por estado vacinal, sugerindo que a explicação pode não estar centrada apenas em vacinas.
Como a equipa avaliou 12.000 pessoas que menstruam
Numa investigação de seguimento, uma equipa liderada pela ginecologista Jacqueline Maybin, da Universidade de Edimburgo (Reino Unido), aplicou um questionário a pessoas que menstruam e comparou três grupos:
- COVID longa: 1.048 pessoas
- COVID-19 aguda: 1.716 pessoas
- Grupo controlo (nunca teve COVID-19): 9.423 pessoas
As participantes responderam a perguntas detalhadas sobre o ciclo menstrual e sintomas associados.
Quais mudanças foram mais comuns na COVID longa
Os resultados indicaram que as alterações menstruais mais marcantes se concentraram no grupo com COVID longa, incluindo:
- Menstruações mais longas;
- Sangramento anormal entre ciclos.
Além disso, pessoas com COVID longa relataram um agravamento de sintomas típico do quadro a partir de dois dias antes do início da menstruação, mantendo-se ao longo de todo o período menstrual. Entre os sintomas citados estão:
- Cansaço intenso (fadiga);
- “Névoa cerebral” (dificuldade de concentração e raciocínio);
- Problemas de memória;
- Fadiga pós-esforço (piora após atividade física ou mental).
O que pode estar por trás: inflamação do endométrio e alterações hormonais
Para investigar possíveis mecanismos, os investigadores recolheram soro sanguíneo e tecido endometrial (do revestimento interno do útero) de 10 pessoas com COVID longa e compararam com amostras de pessoas saudáveis.
Os resultados apontam para dois fatores principais associados à desregulação menstrual na COVID longa:
- Inflamação do endométrio;
- Alterações hormonais.
Um ponto importante do estudo é que, apesar dessas alterações, a função dos ovários permaneceu preservada, o que sugere que o problema pode estar mais relacionado ao ambiente inflamatório e à resposta do endométrio do que a falhas primárias na função ovárica.
Por que os sintomas podem piorar perto da menstruação
Os autores também descrevem uma associação entre maior gravidade dos sintomas de COVID longa e a fase secretora tardia/fase menstrual do ciclo - período em que os níveis de progesterona caem rapidamente.
A hipótese proposta é que, durante a fase menstrual, ocorre um aumento na produção de citocinas (moléculas inflamatórias), e que esse aumento teria sido mais elevado em pessoas com COVID longa do que no grupo controlo. Esse “pico” inflamatório poderia ajudar a explicar por que alguns sintomas se intensificam nesse momento do ciclo.
Implicações: necessidade de tratamento mais direcionado
De acordo com os investigadores, os achados reforçam a necessidade de:
- mais estudos para entender os mecanismos envolvidos;
- estratégias terapêuticas adaptadas tanto para a alteração menstrual quanto para a COVID longa em pessoas que menstruam.
Em síntese, o estudo apresenta evidências de uma associação entre COVID longa e sangramento uterino anormal, potencialmente relacionada a aumento de androgénios e a uma resposta inflamatória endometrial alterada durante a menstruação, o que justifica investigações adicionais.
O que fazer na prática: monitorização e quando procurar avaliação
Para quem percebe mudanças persistentes após COVID-19, pode ser útil registar o ciclo (duração, intensidade do fluxo, presença de sangramento intermenstrual e sintomas sistémicos como fadiga e “névoa cerebral”). Esse tipo de acompanhamento facilita identificar padrões, especialmente se houver piora previsível no período pré-menstrual e menstrual.
Também é recomendável procurar avaliação de um(a) ginecologista e/ou equipa que acompanhe COVID longa quando houver sangramento entre ciclos, menstruação com duração consistentemente acima de oito dias, ausência repetida de menstruação sem explicação, ou sintomas que limitem atividades do dia a dia. A combinação de queixas menstruais e sintomas sistémicos pode exigir uma abordagem integrada, considerando inflamação, contexto hormonal e impacto funcional.
Publicação
A investigação foi publicada na revista científica Comunicações da Natureza.
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