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Especialistas alertam: rara condição ocular ligada a tatuagem pode causar perda de visão.

Homem tatuado aplicando colírio no olho esquerdo em frente a uma janela em banheiro iluminado.

Fazer uma tatuagem pode ser empolgante - embora geralmente doa.

Na Austrália, cerca de um terço da população tem pelo menos uma tatuagem, e muita gente encara o procedimento como um verdadeiro rito de passagem. Ao mesmo tempo, um grupo pequeno, porém crescente, de australianos vem recebendo o diagnóstico de uma doença ocular rara ligada às tatuagens: a uveíte associada à tatuagem, capaz de provocar perda permanente da visão.

O que, afinal, é essa condição? E por que algo na pele poderia afetar os olhos?

Como uma tatuagem pode afetar os meus olhos?

As tintas de tatuagem usadas na Austrália e em vários outros países podem conter substâncias tóxicas, já associadas ao desenvolvimento de alguns tipos de cancro. Isso levanta preocupações do ponto de vista regulatório: em comparação com outras regiões, a Austrália tem regras menos rigorosas sobre quais ingredientes podem entrar na composição das tintas. A União Europeia, por exemplo, proíbe várias tintas que ainda são permitidas em território australiano.

Do ponto de vista da saúde, a maioria esmagadora das pessoas não apresenta reação a esses compostos. Ainda assim, em certos casos, eles podem desencadear uma resposta imune prejudicial. Nessa situação, o sistema imunitário interpreta a tinta como uma ameaça e passa a “atacar” a área tatuada, causando inflamação tanto na pele quanto, por vezes, em outras partes do corpo.

Quando isso ocorre, células inflamatórias originadas na tatuagem podem atravessar a barreira hemato-ocular - uma estrutura semelhante a uma parede, cujo papel é proteger o interior do olho. Se essa barreira é ultrapassada, a inflamação pode espalhar-se para diferentes regiões oculares.

Uma dessas regiões é a úvea, a camada média do olho, que ajuda na focagem de objectos próximos. A úvea também inclui a parte colorida do olho, a íris.

Se a úvea inflamar, pode surgir a condição rara chamada uveíte associada à tatuagem. Entre os sintomas, destacam-se dor súbita, olho vermelho e aumento da sensibilidade à luz.

Nos quadros mais graves, a uveíte associada à tatuagem pode evoluir para glaucoma (um conjunto de doenças em que há dano do nervo óptico) ou para cicatrização no olho. Ambas as complicações podem causar cegueira caso não sejam tratadas - ou se o tratamento for atrasado.

Quem tem maior risco de uveíte associada à tatuagem?

Num estudo de 2025, um grupo de especialistas australianos em saúde ocular analisou 40 casos conhecidos de uveíte associada à tatuagem notificados entre 2023 e 2025. Com esses registos recentes, o total de casos no mundo duplicou desde 2010.

Apesar de continuar a ser uma condição rara, investigadores alertam que ela pode estar subdiagnosticada - e alguns já a descrevem como um problema relevante de saúde pública.

Nesse estudo de 2025, os autores observaram que a uveíte associada à tatuagem vinha acompanhada, de forma consistente, de inflamação no local tatuado. O início dos sintomas variou bastante: houve pessoas que desenvolveram inflamação desde três meses até dez anos após fazer a tatuagem.

Uma revisão de 2026, que reuniu estudos relacionados, sugere que tatuagens maiores e tatuagens feitas com tinta preta tendem a estar mais associadas ao aparecimento de uveíte associada à tatuagem.

A literatura disponível indica que a doença atinge homens e mulheres de forma semelhante. No entanto, quem tem um sistema imunitário mais reativo pode ter maior probabilidade de desenvolver uveíte.

Isso parece ser especialmente importante em pessoas com condições médicas pré-existentes, como esclerose múltipla, alguns tipos de artrite e doenças intestinais. Além disso, há indícios de que indivíduos com sarcoidose - doença que provoca inflamação principalmente nos pulmões - possam apresentar risco aumentado de uveíte associada à tatuagem.

Como tratar a uveíte associada à tatuagem?

É possível tratar, mas o tratamento não funciona igualmente bem para toda a gente.

Nos casos mais leves, pode-se usar colírios com corticoide. Eles actuam reduzindo a actividade das células imunitárias que sustentam a inflamação e também ajudam a reforçar a barreira hemato-ocular, dificultando a entrada de substâncias nocivas no olho.

Já na maioria dos casos, oftalmologistas precisam aplicar corticoide por injecção no globo ocular. O objectivo é fazer com que o medicamento chegue directamente à área mais inflamada, actuando de modo rápido e eficaz. Em algumas situações, a pessoa também pode precisar de fármacos imunossupressores por meses - ou até anos - como metotrexato ou adalimumabe.

Ainda assim, nem sempre a resposta é boa: mesmo após tratamento, aproximadamente 75% dos pacientes apresentam perda visual temporária e 17% evoluem com perda visual permanente. Muitos também desenvolvem catarata e glaucoma, duas condições que podem resultar em perda visual definitiva ou cegueira.

Quando procurar ajuda e como reduzir riscos

Se você tem tatuagem e percebe inchaço, vermelhidão, dor, endurecimento ou alterações persistentes na área tatuada, procure um optometrista o quanto antes - sobretudo se esses sinais surgirem junto com queixas oculares.

Faça o mesmo se tiver qualquer problema de visão, como dor súbita, olho vermelho ou fotossensibilidade. Se o optometrista suspeitar de uveíte associada à tatuagem, poderá encaminhar para tratamento ou para avaliação com um oftalmologista.

Como medida prática, também ajuda manter um registo do que foi feito: data da tatuagem, cores utilizadas (especialmente se houve tinta preta em grande quantidade), local do corpo e - quando disponível - marca/lote do pigmento. Essas informações podem facilitar a investigação clínica caso apareçam sintomas anos depois.

Para quem está no Brasil e planeia tatuar, vale reforçar escolhas que tendem a aumentar a segurança geral do procedimento: estúdio com boas práticas de higiene, materiais descartáveis, esterilização adequada e orientação clara de cuidados pós-tatuagem. Embora isso não elimine o risco de reacções imunes raras, reduz complicações comuns (como infecções) e incentiva acompanhamento adequado quando algo foge do esperado.

O que ainda não sabemos

Ainda há muito a aprender sobre a uveíte associada à tatuagem. E como as tatuagens seguem populares - em especial desenhos maiores e com grande uso de tinta preta - é possível que o número de casos na Austrália continue a crescer.

James Andrew Armitage, professor de Optometria e director do curso de Optometria, Universidade Deakin; e Linda Robinson, responsável por Avaliação em Optometria Clínica, Universidade Deakin.

Texto republicado sob licença de partilha aberta, com base num artigo académico-jornalístico.

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