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Ritmos do corpo: a física compartilhada entre cérebro e intestino

Médico analisando hologramas do cérebro e intestinos com laudo e tablet na mesa em laboratório.

O nosso organismo vive em um vai e vem contínuo: do ar que entra e sai dos pulmões aos líquidos que, noite após noite, ajudam a “limpar” o cérebro. Agora, cientistas identificaram que ritmos essenciais do cérebro e do intestino podem obedecer a princípios físicos semelhantes.

Em outras palavras, padrões de oscilação conhecidos por participar da digestão também parecem ocorrer nos vasos sanguíneos do cérebro, contribuindo para levar oxigénio e nutrientes exatamente quando são necessários. Essa convergência pode mudar de forma relevante a maneira como entendemos os dois sistemas biológicos.

O que motivou o estudo: entender a vasomotricidade cortical

O achado vem de uma equipa internacional interessada em esclarecer como os vasos sanguíneos cerebrais comandam alterações rítmicas no fluxo de sangue - fenómeno chamado vasomotricidade cortical.

Antes de encarar um dos sistemas mais complexos do Universo (o cérebro), os pesquisadores optaram por começar por um cenário mais “simples” de oscilações: o peristaltismo intestinal, responsável por empurrar o alimento ao longo do aparelho digestivo.

Do peristaltismo intestinal ao modelo de Ginzburg–Landau (GL)

Com base em estudos anteriores, o grupo desenvolveu uma versão mais completa de um modelo matemático para descrever os ritmos e as ondas envolvidas, conhecido como modelo de Ginzburg–Landau (GL).

Em seguida, verificaram se o modelo atualizado era capaz de reproduzir os mesmos padrões de oscilação observados em experiências realizadas no intestino de gatos - e o resultado confirmou que sim, o modelo conseguia replicar o que era visto nos dados experimentais.

Osciladores acoplados e os limiares de sincronização

A abordagem matemática proposta detalha como grupos próximos de oscilações podem sincronizar-se, isto é, acoplar-se entre si, desde que as diferenças iniciais não sejam grandes demais. O trabalho também aponta que existem limiares específicos em que essa sincronização acontece - e outros limiares em que ela deixa de ocorrer.

Isso ajuda a explicar padrões de fluxo no sistema digestivo e, de modo surpreendente, a física descrita parece alinhar-se com a que rege certos comportamentos associados aos neurónios no cérebro.

“Os osciladores acoplados ‘conversam’ entre si, e cada segmento do intestino funciona como um oscilador que se comunica com os segmentos próximos”, afirma o físico Massimo Vergassola, da Universidade da Califórnia em San Diego.

Vergassola acrescenta que, em geral, osciladores acoplados são estudados em condições homogéneas, nas quais todos operam em frequências muito parecidas. “No nosso caso, os osciladores eram mais variados, tal como no intestino e no cérebro”, explica.

Semelhanças na física, diferenças na anatomia

Apesar do paralelismo na dinâmica, intestino e cérebro continuam a ser muito diferentes. Um exemplo direto: o intestino é essencialmente um trajeto de sentido único para o alimento, enquanto o sangue pode circular por múltiplas direções através da rede de vasos do cérebro.

Assim, o estudo descreve comportamentos semelhantes - não uma ligação direta entre os dois órgãos. Ainda assim, a equivalência de princípios pode abrir caminho para compreender melhor pulsações no cérebro e no intestino que, em certos contextos, sinalizam alterações de saúde mental ou até antecipam quadros de demência.

O que essa aproximação pode permitir (e o que ainda falta)

Ao encontrar um enquadramento comum para ritmos biológicos, torna-se mais plausível desenvolver ferramentas que comparem, em termos quantitativos, oscilações em diferentes tecidos - algo útil para interpretar medições fisiológicas e identificar quando o corpo sai do padrão esperado.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que modelos matemáticos, por mais robustos que sejam, dependem de medições cuidadosas e de hipóteses sobre como os sistemas interagem. Um próximo passo natural é testar até que ponto o modelo de Ginzburg–Landau (GL) mantém poder preditivo quando aplicado a redes vasculares mais complexas, com ramificações e trajetos alternativos, como ocorre no cérebro.

A ciência como caminho em espiral

Para o investigador Kleinfeld, a própria trajetória do trabalho ilustra como a investigação avança.

“O cérebro é infinitamente mais complicado do que o intestino, mas isto é a ciência no seu melhor”, diz Kleinfeld. “Você faz uma pergunta, ela leva a outro lugar, você resolve aquele problema e então volta à pergunta original.”

A pesquisa foi publicada na revista Cartas de Revisão Física.

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