Para a maioria das pessoas, manter uma alimentação com grande diversidade de frutas e vegetais é uma das bases de uma dieta equilibrada.
Só que, para quem vive com intolerância hereditária à frutose, até duas mordidas numa fatia de melancia bem suculenta ou alguns tomates secos na salada podem desencadear problemas de saúde graves.
Apesar de envolver comida, essa condição rara não é alergia alimentar nem “sensibilidade” comum. Ainda assim, quando não é reconhecida e manejada do jeito certo, pode evoluir para complicações importantes.
O que é intolerância hereditária à frutose?
A intolerância hereditária à frutose é uma doença genética rara que altera a forma como o organismo lida com o açúcar frutose.
E a frutose não está apenas nas frutas. Ela também aparece no mel, em alguns vegetais, em bebidas adoçadas e em muitos alimentos industrializados - como bolos, biscoitos, molhos e alguns tipos de pão.
Além disso, a frutose pode ser acrescentada no processamento de certos carnes (como frios e salsichas) e também em alguns laticínios (por exemplo, leite achocolatado).
Outro ponto crucial: sacarose (o açúcar de mesa) e sorbitol (um adoçante usado com frequência em goma de mascar, pasta de dente e medicamentos) também contêm frutose ou acabam sendo convertidos em frutose durante a digestão. Por isso, quem tem intolerância hereditária à frutose normalmente também não tolera esses compostos.
O que está por trás do problema é a falta de uma enzima essencial, a aldolase B, necessária para quebrar a frutose.
Sem essa enzima, a frutose se acumula principalmente no fígado, nos rins e nos intestinos. Esse excesso pode causar quadros graves, incluindo convulsões, coma e, em alguns casos, morte por falência hepática e renal.
Com que frequência isso acontece?
A intolerância hereditária à frutose é herdada quando a pessoa recebe o gene alterado do pai e da mãe (ou seja, ambos são portadores). É considerada rara e atinge aproximadamente 1 em cada 10.000 pessoas.
Em geral, os sinais começam a aparecer quando o bebé passa a comer alimentos sólidos - incluindo frutas, vegetais ou papinhas adoçadas que contenham frutose.
Já em adultos, a condição pode passar despercebida ou ser confundida com outros diagnósticos, como doença de armazenamento de glicogénio, transtorno alimentar ou hepatite recorrente.
Como os sintomas podem se sobrepor, muitos adultos permanecem sem diagnóstico por anos.
Por que não é a mesma coisa que alergia ou sensibilidade alimentar?
A intolerância hereditária à frutose é bem diferente de uma alergia alimentar. Na alergia, o sistema imunitário reage a um alimento (como proteína do leite de vaca) como se fosse uma ameaça. Isso pode gerar sintomas como urticária, vergões, inchaço na boca e até dificuldade para respirar.
Ela também não é igual a uma sensibilidade alimentar, como intolerância à lactose ou sensibilidade ao glúten não celíaca. Nesses casos, não há participação directa do sistema imunitário, mas podem ocorrer desconfortos como distensão abdominal, alteração do hábito intestinal e dor de barriga.
Na intolerância hereditária à frutose, o problema é genético: trata-se de uma intolerância alimentar por falha metabólica, sem relação com resposta imune.
É diferente também da má absorção de frutose (que, para confundir, já foi chamada informalmente de “intolerância alimentar à frutose”). A má absorção é um quadro digestivo mais leve, em que o intestino delgado não absorve bem a frutose, levando a sintomas como dor abdominal, inchaço e gases.
Como saber se você tem intolerância hereditária à frutose?
Em bebés e crianças pequenas, os sinais podem incluir vómitos, sonolência fora do habitual, irritabilidade, recusa alimentar e dificuldade para ganhar peso.
Algumas crianças passam a evitar espontaneamente alimentos doces - o que pode “esconder” a condição até mais tarde, na infância ou mesmo na vida adulta.
Em adultos, podem aparecer dor abdominal crónica, cansaço e episódios de glicose (açúcar) baixa no sangue sem explicação clara. Profissionais de saúde podem observar pistas discretas, como aumento do fígado, alterações em exames hepáticos ou sinais compatíveis com doença hepática gordurosa.
A confirmação costuma exigir teste genético ou um teste especializado de tolerância à glicose. Porém, para muita gente, o diagnóstico só chega depois de anos de dúvidas, frustração e tentativas de dieta por conta própria.
Intolerância hereditária à frutose: por que o diagnóstico pode atrasar?
Como frutas e vegetais são, em geral, vistos como sinónimo de alimentação saudável, é comum que sintomas após o consumo desses alimentos não levantem suspeita imediata. Em vez disso, a pessoa pode ser rotulada como “enjoada”, “restritiva” ou ansiosa, e isso atrasa a investigação.
Além disso, como a exposição à frutose pode variar muito entre dietas e rotinas (papinhas, bebidas adoçadas, “alimentos fitness”, produtos sem açúcar com sorbitol), os sintomas podem parecer inconsistentes - o que aumenta a chance de confusão com outras doenças.
Como é feito o manejo?
Não existe cura para a intolerância hereditária à frutose. O controlo, no entanto, é possível com evitação rigorosa de frutose, sacarose e sorbitol. No dia a dia, a leitura de rótulos vira uma necessidade, já que esses açúcares podem aparecer até em molhos, medicamentos e pasta de dente.
Quem tem a condição deve ter atenção especial aos seguintes grupos:
- frutas: evitar todas as frutas, sumos, frutas enlatadas e qualquer produto derivado de fruta
- cereais/grãos: evitar cereais com açúcar adicionado, mel, melaço, frutas secas ou aromatizantes doces. Massas, arroz e outros grãos simples, como quinoa ou trigo-sarraceno, costumam ser seguros - mas é importante evitar versões prontas, temperadas ou aromatizadas
- vegetais: a maioria é bem tolerada, com exceção dos mais adocicados, como ervilhas, milho, beterraba, cebola, abóbora, batata-doce, cenoura e curgete
- pães: apenas os preparados sem açúcar ou adoçantes adicionados são adequados
- sobremesas e laticínios: evitar sobremesas adoçadas e iogurtes com sabor (iogurte natural, em geral, é aceitável). Atenção a bebidas vegetais, como “leite” de amêndoas, que frequentemente têm açúcar adicionado
- proteínas: carnes vermelhas, frango, peru, peixe, feijões e lentilhas, ovos, tofu e tempeh sem adição de açúcar ou aromatização costumam ser seguros. Já carnes processadas (salsichas/frios) e carnes marinadas devem ser evitadas
- outros alimentos: cuidado com molhos, temperos prontos, dressings e condimentos, que podem esconder açúcares ou sorbitol. Quando possível, prefira versões caseiras com ingredientes compatíveis
Nutrição e vida social com intolerância hereditária à frutose
O impacto não é apenas físico: a restrição de alimentos comuns em festas, restaurantes e encontros (sobremesas, bebidas adoçadas, molhos prontos) pode dificultar a vida social. Planeamento, comunicação com familiares e amigos e acompanhamento com nutricionista podem ajudar a manter uma alimentação segura e suficientemente variada dentro das limitações.
Também vale lembrar que “sem açúcar” nem sempre significa seguro: muitos produtos usam sorbitol e outros polióis para adoçar, o que exige atenção redobrada aos ingredientes.
Consciência faz diferença
Se alguém evita determinados alimentos ou se sente mal após comer fruta, não é adequado assumir que é frescura ou dieta da moda - pode ser intolerância hereditária à frutose.
Mais informação sobre essa condição rara pode levar a diagnósticos mais precoces e a suporte melhor para quem convive com ela.
Para pais e cuidadores, perceber uma aversão súbita ou intensa a doces, vómitos repetidos ou crescimento lento pode ser um sinal importante.
E, para médicos, incluir a intolerância hereditária à frutose como hipótese diante de queixas digestivas sem causa clara, glicose baixa no sangue ou alterações hepáticas pode ser determinante.
Lauren Ball, Professora de Saúde Comunitária e Bem-Estar, The University of Queensland; Emily Burch, Nutricionista (Accredited Practising Dietitian) e Docente, Southern Cross University; e Mackenzie Derry, Nutricionista, Dietista e Doutoranda, The University of Queensland
Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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