O nosso intestino é habitado por uma multidão de microrganismos - bactérias, fungos e vírus - que ajudam a decompor os alimentos, funcionam como uma barreira contra invasores nocivos e ainda participam da comunicação entre o sistema digestivo e o cérebro. Em conjunto, essas comunidades microbianas mantêm o equilíbrio do organismo.
Uma pesquisa de grande porte sugere, porém, que o uso de medicamentos pode desorganizar esse “ecossistema” de forma mais profunda e duradoura do que se supunha. Em vez de um efeito passageiro, algumas mudanças no microbioma intestinal permanecem perceptíveis mesmo vários anos após a medicação ter sido usada.
Evidências em dados do Biobanco da Estónia
A análise foi conduzida por uma equipa liderada pelo genomicista Oliver Aasmets, da Universidade de Tartu, na Estónia. Os investigadores avaliaram registos de 2.509 participantes do Projeto Biobanco da Estónia, incluindo um subconjunto com 328 avaliações de seguimento.
Com esses dados, foi possível observar como iniciar e interromper certos medicamentos se associava a alterações no microbioma dos participantes ao longo do tempo. Segundo os autores, esse padrão reforça a possibilidade de um efeito causal.
Em termos de amplitude, os resultados chamam a atenção: entre 186 fármacos avaliados, 167 (quase 90%) estiveram associados a mudanças nas amostras fecais usadas para caracterizar o microbioma intestinal.
Antibióticos não são os únicos: psicolepticos, antidepressivos, inibidores da bomba de protões e beta-bloqueadores
A equipa argumenta que o impacto do uso de medicamentos sobre o microbioma tem sido subestimado. E o problema não se limita aos antibióticos.
De acordo com o estudo, os efeitos de diferentes classes são detetáveis vários anos após o uso, incluindo:
- antibióticos
- psicolepticos
- antidepressivos
- inibidores da bomba de protões
- beta-bloqueadores
Os autores também relatam que medicamentos “dirigidos a alvos humanos” parecem reduzir a diversidade do microbioma ao eliminar grupos específicos de microrganismos (táxons).
Benzodiazepinas e microbioma intestinal: efeitos comparáveis aos de antibióticos de amplo espectro
Entre os achados, um dos mais marcantes envolve as benzodiazepinas, frequentemente prescritas para ansiedade. No conjunto de dados analisado, essa classe apresentou um impacto equivalente ao de antibióticos de amplo espectro, conhecidos por afetar de forma significativa os ecossistemas internos.
Além disso, os efeitos não foram uniformes entre os diferentes fármacos da mesma classe. O alprazolam (conhecido no mercado como Xanax) mostrou uma influência mais ampla sobre a diversidade microbiana do que o diazepam (Valium). Isso sugere que, no futuro, pode ser importante otimizar escolhas terapêuticas considerando não apenas o controlo de sintomas, mas também o potencial de “poupar” o microbioma intestinal.
Uso repetido, efeito acumulado e “rastro” ao longo do tempo
O estudo também aponta que os impactos podem somar-se. Em outras palavras, quanto maior o uso de uma medicação, mais forte tende a ser a associação com alterações no microbioma. A equipa descreve a presença de efeitos persistentes (carryover) e efeitos aditivos.
Pesquisas anteriores em ratos já haviam sugerido que o uso prolongado de antibióticos pode afetar a camada mucosa do intestino, o que poderia contribuir para ganho de peso. Diante disso, os autores defendem mais investigação para esclarecer as consequências de exposições prolongadas em diferentes classes de medicamentos, não apenas antibióticos.
Por que o histórico de medicamentos pode mudar a leitura de estudos do microbioma
Um ponto destacado por Aasmets é metodológico e clínico: muitos estudos sobre microbioma consideram apenas os medicamentos em uso no momento da coleta. No entanto, os dados analisados indicam que o uso passado pode ser tão relevante quanto - e, de forma surpreendente, um fator forte para explicar diferenças individuais entre microbiomas.
Os investigadores esperam que isso incentive tanto cientistas como profissionais de saúde a incorporarem o histórico medicamentoso ao interpretar resultados de microbioma intestinal.
O que este tipo de achado implica para a prática e para futuras pesquisas
Se alterações no microbioma intestinal podem persistir por anos, torna-se mais importante contextualizar resultados laboratoriais e sintomas gastrointestinais com informações de longo prazo - por exemplo, períodos prévios de uso de antibióticos, inibidores da bomba de protões, antidepressivos, psicolepticos, beta-bloqueadores e benzodiazepinas.
Ao mesmo tempo, os próprios autores reforçam, de forma implícita, a necessidade de estudos adicionais para entender o que é causa, o que é consequência e quais mudanças são clinicamente relevantes. Em termos práticos, isso aponta para uma medicina mais personalizada, em que a decisão terapêutica pode considerar também a preservação da diversidade do microbioma intestinal, sempre ponderando riscos e benefícios.
A pesquisa foi publicada na revista mSystems.
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