Não é apenas o corpo que precisa de “treino”. O cérebro também se beneficia de exercícios regulares para se manter mais jovem e em boa forma.
Exercício cerebral digital: BrainHQ, da Posit Science Corporation, em avaliação na McGill University
Um exercício cerebral digital desenvolvido pela empresa norte-americana de biotecnologia Posit Science Corporation foi avaliado por neurologistas da McGill University, no Canadá, e os resultados iniciais chamaram a atenção.
Como foi o estudo: ensaio controlado randomizado e duplo-cego
Num ensaio controlado randomizado e duplo-cego considerado rigoroso, 82 adultos saudáveis com mais de 65 anos foram distribuídos aleatoriamente para jogar, durante 30 minutos por dia, ou o aplicativo BrainHQ (da Posit) ou um jogo de computador recreativo.
Após 10 semanas, exames cerebrais indicaram diferenças entre os grupos.
O que os exames mostraram: aumento de atividade colinérgica no ACC com o BrainHQ
As varreduras do cérebro revelaram que os participantes que utilizaram o BrainHQ, focado em desafios baseados em velocidade, apresentaram aumentos mensuráveis na atividade colinérgica (isto é, no sinalização colinérgica, um tipo de comunicação do cérebro).
Essa alteração foi observada numa região chamada córtex cingulado anterior (ACC), associada a funções como atenção seletiva, controlo inibitório e memória.
Segundo os pesquisadores, o aumento da sinalização colinérgica teve uma magnitude semelhante à do encolhimento que o ACC costuma apresentar ao longo de 10 anos.
“O treino restaurou a saúde colinérgica a níveis normalmente vistos em alguém 10 anos mais jovem”, afirma o neurologista Etienne de Villers-Sidani, da McGill. Ele acrescenta: “Esta é a primeira vez que qualquer intervenção, medicamentosa ou não, demonstrou fazer isso em humanos”.
Disponibilidade e alegações da empresa
O aplicativo BrainHQ está disponível para compra por meio de assinaturas mensais e anuais. A empresa afirma que a tecnologia foi desenvolvida com base em evidências científicas e testada em centenas de artigos revisados por pares.
O que ainda não está claro: duração do efeito e impacto no dia a dia
Evidências preliminares sugerem, de facto, que o aplicativo pode afetar o cérebro e que essas mudanças podem ser benéficas. No entanto, ainda não se sabe se essas alterações persistem ao longo do tempo nem se se traduzem em melhorias reais e perceptíveis em memória, atenção e aprendizagem no funcionamento cotidiano de pessoas mais velhas.
Além disso, o estudo recente é pequeno e existe um incentivo ligado ao lucro da empresa, o que justifica cautela na interpretação. Por outro lado, o trabalho foi desenhado de forma rigorosa e utilizou técnicas avançadas de neuroimagem em colaboração com neurologistas da McGill.
“Usámos uma tecnologia rara”, diz de Villers-Sidani. “O Montreal Neurological Institute-Hospital é um dos poucos centros no mundo capaz de produzir o traçador e realizar o exame.”
Por que o sistema colinérgico importa: ligação com o hipocampo, aprendizagem e memória
O sistema colinérgico conecta diversas áreas do cérebro, incluindo o hipocampo, fortemente envolvido em aprendizagem e memória. Em teoria, se esse sistema for fortalecido, poderia ajudar a aliviar sintomas comuns do envelhecimento, como a perda de memória.
Ainda assim, observar mudanças no sistema colinérgico após treino cerebral é apenas um passo: são necessários novos ensaios, com amostras maiores e grupos mais diversos, para compreender melhor a extensão e o significado clínico dessas alterações.
Implicações e próximos passos para a saúde cerebral
Os autores do estudo destacam que “identificar e implementar estratégias eficazes para apoiar a saúde do cérebro tem potencial para reduzir custos em saúde, aumentar a participação no trabalho e o engajamento na comunidade, além de melhorar a qualidade de vida”.
Eles concluem também que “estes achados sustentam o uso desta intervenção promissora, de baixo risco, e contribuem para uma compreensão mecanicista do treino cognitivo, estabelecendo uma base para estudos futuros”.
Um ponto relevante para investigações futuras é comparar o treino digital com outras abordagens não farmacológicas já associadas à saúde cognitiva em idosos, como atividade física regular, sono adequado e socialização - tanto isoladamente quanto em combinação - para entender se há efeito somatório.
Também vale considerar aspetos práticos de adesão: para muitas pessoas acima de 65 anos, a facilidade de uso, a motivação para manter a rotina de 30 minutos diários e a acessibilidade (custo de assinatura, acesso a computador ou dispositivo) podem influenciar diretamente os resultados no mundo real.
O estudo foi publicado na JMIR Serious Games.
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