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Avanço: Cientistas criaram um rim "universal" compatível com qualquer tipo sanguíneo.

Equipe de cientistas em laboratório estudando um rim artificial em biorreator translúcido.

Depois de cerca de dez anos de trabalho contínuo, investigadores estão mais perto do que nunca de um avanço decisivo em transplantes de rim: conseguir transferir rins entre doadores e recetores com tipos sanguíneos diferentes. Se esta abordagem se confirmar, poderá reduzir de forma relevante o tempo em listas de espera e, consequentemente, salvar vidas.

Um “rim universal” para ultrapassar a barreira dos tipos sanguíneos no transplante de rim

Num estudo divulgado no ano passado, uma equipa de várias instituições do Canadá e da China descreveu a criação de um “rim universal” que, em teoria, poderia ser aceite por qualquer paciente, independentemente do grupo sanguíneo.

O órgão experimental foi implantado no corpo de um recetor com morte cerebral, cujo familiar autorizou a participação na investigação. O rim transplantado manteve-se viável e em funcionamento durante alguns dias, oferecendo uma oportunidade rara de observar o comportamento do enxerto num contexto humano.

“É a primeira vez que vemos isto acontecer num modelo humano”, afirmou o bioquímico Stephen Withers, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, quando o trabalho foi publicado em outubro. “Isto dá-nos uma visão inestimável sobre como melhorar os resultados a longo prazo.”

Se quiser, há um resumo em vídeo (não incluído aqui) que explica a ideia central.

Porque o tipo O pesa tanto nas listas de espera

Na prática atual, quem tem sangue tipo O e precisa de um rim costuma depender de um rim também tipo O para ter maior compatibilidade inicial. Isso é particularmente crítico porque pessoas com tipo O representam mais de metade dos que aguardam por um órgão.

Ao mesmo tempo, rins tipo O podem funcionar em recetores de outros tipos sanguíneos, o que aumenta a procura e torna esses rins mais escassos. O resultado é um gargalo: justamente quem mais precisa de um rim tipo O enfrenta, muitas vezes, uma espera mais longa.

O que já existe hoje - e porque ainda é difícil

Já é possível realizar transplantes de rim entre tipos sanguíneos diferentes, recorrendo a protocolos que “treinam” o organismo do recetor para não rejeitar o órgão. Porém, essa estratégia está longe de ser ideal na rotina clínica.

Segundo os investigadores, o processo atual pode ser demorado, caro e trazer riscos adicionais. Além disso, tende a ser mais viável com doadores vivos, porque o recetor precisa de tempo para preparação antes da cirurgia.

Como a equipa “transformou” um rim tipo A em tipo O

Neste novo trabalho, os cientistas essencialmente converteram um rim tipo A em um rim tipo O, usando enzimas especiais (já identificadas em pesquisas anteriores) que removem moléculas de açúcar - os antígenos - que servem como marcadores do sangue tipo A.

A equipa compara essas enzimas a uma espécie de tesoura à escala molecular. Ao “cortar” partes das cadeias de antígenos do tipo A, o tecido pode assumir um estado sem antígenos ABO, semelhante ao que caracteriza o tipo O.

“É como tirar a tinta vermelha de um carro e revelar o primário neutro por baixo”, explicou Withers. “Depois disso, o sistema imunitário deixa de ver o órgão como algo estranho.”

Obstáculos antes de chegar aos ensaios em humanos

Apesar do avanço, ainda há muitos desafios antes de se considerarem ensaios em humanos em larga escala.

No caso observado, o rim transplantado começou a apresentar sinais de tipo A novamente por volta do terceiro dia, o que desencadeou uma resposta imunitária. Ainda assim, essa reação foi menos intensa do que seria normalmente esperado, e houve indícios de que o organismo estava a tentar tolerar o enxerto.

Um ponto central para os próximos passos será entender por que essa “reversão” parcial aconteceu, e como garantir que a remoção dos antígenos se mantenha estável por mais tempo, reduzindo o risco de rejeição.

O impacto potencial em números - e por que isto importa

As estatísticas associadas ao problema são duras: atualmente, 11 pessoas morrem por dia à espera de um transplante de rim apenas nos Estados Unidos, e a maioria dessas pessoas aguarda por rins tipo O.

Por isso, ampliar o número de rins compatíveis com esses pacientes pode fazer uma diferença concreta e imediata no sistema de transplantes.

Outras frentes de pesquisa que correm em paralelo

A ciência está a atacar o problema por vários caminhos ao mesmo tempo. Entre as alternativas em desenvolvimento estão o uso de rins de porco (xenotransplantes) e a criação de novos anticorpos e estratégias de modulação imunitária para diminuir rejeições.

O conceito de um rim com compatibilidade ampliada, porém, tem um apelo particular: em vez de depender apenas de suprimir o sistema imunitário do recetor, tenta-se tornar o próprio órgão “mais neutro” do ponto de vista dos antígenos ABO.

O que ainda será essencial para a adoção clínica

Para que uma abordagem como esta chegue ao dia a dia dos hospitais, não basta funcionar por alguns dias: será necessário demonstrar segurança, durabilidade do efeito enzimático e previsibilidade dos resultados em diferentes condições clínicas.

Também será importante avaliar como este método se integraria à logística real de transplantes - por exemplo, tempo disponível para tratar o órgão antes do implante, compatibilidade com a preservação em frio e padronização do processo para diferentes centros.

“É assim que se parece quando anos de ciência básica finalmente se ligam ao cuidado ao paciente”, disse Withers. “Ver as nossas descobertas a aproximarem-se do impacto no mundo real é o que nos faz continuar a avançar.”

A investigação foi publicada na revista Nature Engenharia Biomédica.

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