Um estudo controverso, publicado em abril do ano passado, descreveu um fenómeno surpreendente: numa floresta de abetos-da-Noruega (Picea abies), as árvores teriam “sincronizado” a sua sinalização elétrica pouco antes de um eclipse solar parcial.
Agora, uma nova interpretação sugere que o que se observou pode ter sido bem menos extraordinário.
Uma hipótese alternativa: tempestade, arrefecimento e raios - não eclipse solar
Após reavaliar os dados, os ecólogos Ariel Novoplansky e Hezi Yizhaq, da Universidade Ben-Gurion do Neguev (Israel), defendem que a atividade elétrica registada nas árvores é mais compatível com fatores ambientais comuns: uma queda de temperatura, a passagem de uma tempestade e vários raios nas proximidades - elementos que, segundo estudos anteriores, conseguem desencadear respostas elétricas semelhantes em plantas.
Para Novoplansky, o trabalho anterior ilustra um desvio preocupante no modo de interpretar evidências biológicas. Em vez de ponderar explicações simples e bem documentadas - como chuva intensa e um conjunto de descargas elétricas próximas - os autores, segundo ele, teriam preferido a narrativa mais sedutora de que as árvores “antecipavam” o eclipse solar iminente.
O que o estudo original afirmou sobre o eclipse solar nas Dolomitas
Em outubro de 2022, numa floresta das montanhas Dolomitas, no nordeste de Itália, investigadores relataram aquilo que chamaram de “respostas bioelétricas individuais e coletivas a um eclipse solar”. De acordo com essa descrição, árvores mais antigas teriam apresentado sinais mais fortes antes e durante o eclipse.
Ainda segundo a interpretação inicial, esse padrão poderia indicar que a “experiência” das árvores mais velhas com eventos anteriores estaria a ser, de alguma forma, transmitida ao restante da floresta. Em linha com trabalhos prévios sobre perceção ambiental em plantas, os autores sugeriram que os abetos estariam a detetar uma mudança iminente e a coordenar uma resposta - neste caso, ao eclipse solar.
Por que “memória” de eclipses e coordenação não se sustentam, segundo os críticos
No artigo mais recente, Novoplansky e Yizhaq argumentam que a mudança ambiental mais provável não foi o eclipse solar, mas sim a tempestade, e enumeram razões para considerar que a conclusão anterior foi precipitada.
- Eclipses solares não são eventos repetitivos “previsíveis” para uma árvore. A trajetória, a intensidade e a duração variam de forma tão específica que, na prática, não haveria como árvores mais antigas recorrerem a um “conhecimento lembrado” para antecipar o próximo eclipse.
- Os indícios gravitacionais seriam mínimos. Mesmo que variações de gravidade pudessem servir como alerta, elas seriam muito pequenas - aproximadamente do mesmo nível que as associadas a uma Lua nova.
- Não existia necessidade clara de coordenação para um eclipse parcial. Como se tratava de um eclipse solar parcial, a diminuição de luz seria comparável à de um dia nublado, sem grandes impactos esperados na fotossíntese ou em outros processos fisiológicos.
Novoplansky ressalta ainda que o eclipse reduziu a luz em cerca de 10,5% por apenas duas horas e que, nesse intervalo, a intensidade solar ainda seria aproximadamente o dobro do que as árvores conseguem utilizar de forma prática. Além disso, na área do estudo, oscilações frequentes de nebulosidade alteram a qualidade e a quantidade de luz com amplitudes bem maiores do que as provocadas pelo eclipse.
Uma amostra pequena demais para falar em “resposta coletiva” da floresta
Outro ponto destacado pelos autores da nova análise é a limitação metodológica: o estudo original avaliou apenas três árvores e cinco cepos. Para Novoplansky e Yizhaq, isso está longe de representar uma varredura robusta da floresta.
Nesse cenário, os sinais registados poderiam refletir reações de indivíduos específicos - por exemplo, a perturbações causadas por raios - em vez de indicar uma “colaboração” bioelétrica do ecossistema como um todo.
Antecipação em plantas existe - mas o eclipse solar é um caso frágil
É verdade que plantas já foram observadas a “antecipar” mudanças ambientais: um exemplo clássico é ajustar respostas para lidar com seca quando surgem sinais iniciais no solo. Por isso, a noção de antecipação não é, por si só, descabida.
Ainda assim, como apontam Novoplansky e Yizhaq, aplicar essa ideia a um eclipse solar falha em múltiplos níveis - sobretudo porque o fenómeno é breve, pouco disruptivo (no caso de eclipse parcial) e dificilmente “aprendido” de forma útil para previsões futuras.
(Novo) Como raios e microclima podem confundir medições de sinalização elétrica
Em florestas de coníferas, descargas elétricas atmosféricas e variações rápidas de microclima podem introduzir perturbações capazes de se parecerem com “sincronização”. Mudanças súbitas de temperatura, humidade e condutividade do solo - além de campos elétricos associados a tempestades - podem influenciar potenciais elétricos nas plantas e até em madeira cortada. Sem um controlo ambiental rigoroso (meteorologia local, distância e intensidade de raios, humidade do solo e vento), corre-se o risco de interpretar correlações como comunicação ou coordenação.
(Novo) O que ajudaria a testar a hipótese de “resposta coletiva” com mais rigor
Para separar resposta individual de um suposto comportamento coletivo, seriam úteis amostras maiores e um desenho experimental que inclua mais árvores em diferentes idades e posições, sensores meteorológicos no local e registos independentes de atividade elétrica atmosférica. Também seria importante comparar dias com eclipse a dias sem eclipse, mas com condições climáticas semelhantes, reduzindo a chance de atribuir a um eclipse solar o que pode ser efeito de tempestade.
O eletroma das árvores continua a intrigar - com cautela na interpretação
A investigação sobre os eletromas das árvores - isto é, o conjunto de moléculas carregadas que circulam pelas células - segue em frente. Apesar da controvérsia em torno deste caso específico, o campo tende a produzir descobertas relevantes.
Novoplansky reforça que a atividade elétrica em árvores é real, mas que a área ainda é recente. Para ele, sugerir que variações de sinais elétricos - observáveis até mesmo em troncos mortos - codificariam memória, antecipação ou responsividade coletiva exige saltos extraordinários que não foram sustentados pelos dados do estudo original. Na sua avaliação, a floresta já é suficientemente impressionante sem que se adicionem alegações irracionais, embora aparentemente fascinantes, baseadas apenas em correlação.
A pesquisa foi publicada na revista Tendências em Ciência das Plantas.
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