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Seu horário de evacuação diz muito sobre sua saúde, revela estudo.

Pessoa segurando relógio na parede com ilustração do intestino sobre a barriga, em banheiro iluminado.

Perguntar “com que frequência você faz cocô?” pode soar íntimo demais, mas a resposta costuma dizer muito sobre a saúde geral.

Um estudo publicado em 2024 analisou a frequência das evacuações de 1.425 pessoas e cruzou esses dados com informações demográficas, genéticas e com diversos marcadores de saúde. O resultado apontou que o padrão mais associado a melhor estado geral foi evacuar uma ou duas vezes por dia - uma espécie de “zona de Cachinhos Dourados” da rotina intestinal.

A equipa, liderada por investigadores do Instituto de Biologia de Sistemas (ISB), observou que evacuar em excesso ou muito pouco se relacionava com problemas subjacentes distintos.

Segundo o microbiologista do ISB Sean Gibbons, autor correspondente do relatório, o trabalho indica que a frequência das evacuações pode repercutir em vários sistemas do corpo e que padrões fora do esperado podem ser um fator de risco relevante para o desenvolvimento de doenças crónicas. Para ele, essas pistas podem orientar estratégias para ajustar a frequência intestinal - inclusive em pessoas consideradas saudáveis - com o objetivo de melhorar saúde e bem-estar.

Veja o vídeo abaixo para um resumo.

Como o estudo avaliou a frequência das evacuações e a saúde geral

Os participantes foram descritos como “geralmente saudáveis”, ou seja, não tinham histórico de problemas renais ou intestinais como doença renal, síndrome do intestino irritável ou doença de Crohn.

Cada pessoa informou com que frequência evacuava, e os investigadores organizaram os relatos em quatro grupos:

  • Constipação: 1 a 2 evacuações por semana
  • Baixo-normal: 3 a 6 evacuações por semana
  • Alto-normal: 1 a 3 evacuações por dia
  • Diarreia: 4 ou mais fezes aquosas por dia

Além disso, a equipa analisou metabólitos e parâmetros químicos do sangue, genética e os microrganismos do intestino identificados em amostras de fezes. Depois, procurou associações entre a frequência das evacuações e esses indicadores, considerando também fatores como idade e sexo.

De forma geral, quem relatou evacuar com menos frequência tendia a ser mulher, mais jovem e com índice de massa corporal (IMC) mais baixo. Ainda assim, mesmo ajustando essas variáveis, os grupos com constipação ou diarreia mostraram ligações claras com alterações associadas a problemas de saúde.

Microbioma intestinal, diarreia e sinais ligados ao fígado

Nas amostras de fezes de participantes com diarreia, apareceram com mais frequência bactérias típicas do trato gastrointestinal superior. Em paralelo, as análises de sangue dessas pessoas mostraram biomarcadores associados a lesão hepática.

Constipação, fermentação de proteínas e toxinas no sangue (indoxil-sulfato)

Já entre pessoas com evacuações menos frequentes, as amostras de fezes apresentaram níveis mais altos de bactérias ligadas à fermentação de proteínas - um risco conhecido em quadros de constipação.

O bioengenheiro do ISB Johannes Johnson-Martinez explicou o mecanismo proposto: quando as fezes permanecem tempo demais no intestino, os microrganismos acabam por consumir a fibra alimentar disponível, fermentando-a e produzindo ácidos gordos de cadeia curta, considerados benéficos. Depois disso, o ecossistema intestinal tende a “mudar de combustível” e passa a fermentar proteínas, gerando várias toxinas que podem alcançar a corrente sanguínea.

De facto, alguns desses subprodutos apareceram no sangue dos participantes. Um composto particularmente elevado foi o indoxil-sulfato, um metabólito associado à fermentação de proteínas e conhecido por poder causar danos aos rins.

Com base nesses padrões, a equipa sugere que os resultados podem ser uma evidência de uma possível ligação causal entre a frequência das evacuações e a saúde global.

Há margem para mudar hábitos - e o intestino pode responder rápido

O estudo também reforça uma ideia promissora: ajustar a rotina pode influenciar a saúde, e o microbioma intestinal pode transformar-se mais depressa do que muita gente imagina.

Como exemplo, uma pesquisa de 2025 feita na Alemanha acompanhou adultos sedentários que começaram treino de força duas a três vezes por semana. Entre os que ganharam mais força, a composição das bactérias intestinais mudou em apenas oito semanas.

Transformações assim podem ajudar algumas pessoas a sair dos extremos - constipação ou diarreia - e aproximar-se de uma faixa mais saudável de frequência intestinal.

O que as pessoas na “zona de Cachinhos Dourados” tinham em comum

Quem estava na faixa considerada ideal relatou:

  • consumir mais fibra;
  • beber mais água;
  • praticar exercício com maior regularidade.

As amostras de fezes desse grupo também mostraram níveis elevados de bactérias associadas à fermentação de fibra.

Além disso, um ensaio clínico publicado em 2025 por investigadores dos Estados Unidos observou que pessoas com muitos microrganismos produtores de metano no intestino são especialmente eficientes em converter fibra alimentar em ácidos gordos de cadeia curta.

Isso sugere que tanto a quantidade de fibra quanto a mistura específica de microrganismos no intestino de cada pessoa fazem diferença - o que ajuda a entender por que duas pessoas com a mesma dieta podem ter resultados de saúde distintos.

Quando o “normal” do dia a dia pode ser um sinal

É comum que qualquer pessoa passe, em algum momento da vida, por um extremo ou outro - por exemplo, após uma virose gastrointestinal ou depois de exagerar em alimentos como queijo. A diferença é que este trabalho avaliou a rotina diária das pessoas, mostrando como o nosso “normal” particular pode indicar questões de saúde que ainda não percebemos.

Vale lembrar: mudanças persistentes na frequência das evacuações, presença de sangue nas fezes, dor intensa, perda de peso sem explicação ou sinais de desidratação são motivos para procurar avaliação profissional, porque podem apontar condições que vão além de variações comuns do intestino.

Também é útil pensar em ajustes práticos e graduais: aumentar fibra aos poucos (por exemplo, com feijão, frutas, verduras e aveia), manter boa hidratação e inserir atividade física regular costuma ajudar o intestino a funcionar de forma mais previsível - embora a resposta varie de pessoa para pessoa, justamente por diferenças no microbioma intestinal.

A investigação foi publicada na revista científica Relatórios Celulares: Medicina.

Uma versão anterior deste artigo foi publicada em julho de 2025.

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