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Falhas ocultas foram descobertas em importante área de risco de terremotos nos EUA.

Pessoa em penhasco à beira-mar usando tablet para analisar dados ilustrados digitalmente ao pôr do sol.

Três placas tectónicas gigantes convergem na junção tripla de Mendocino, ao largo da costa do norte da Califórnia, e um estudo recente indica que a geologia abaixo dessa região é bem mais intrincada do que sugerem os modelos atualmente usados.

Junção tripla de Mendocino: o encontro das placas e um “quebra-cabeça” escondido

Ao reexaminar sinais de terremotos pequenos e de baixa frequência captados por uma rede de sismômetros no Noroeste do Pacífico, investigadores dos Estados Unidos identificaram falhas até então ocultas. A conclusão principal é que a junção tripla, em vez de ser descrita apenas por três placas, funciona na prática como cinco blocos em movimento.

Essa complexidade extra pode exigir ajustes nos modelos de previsão e avaliação de risco, aumentando a capacidade de especialistas estimarem quando o próximo grande sismo pode ocorrer. Os autores comparam a descoberta a estudar a parte submersa de um iceberg: o que aparece à superfície é só uma fração do arranjo real.

“Dá para ver um pouco na superfície, mas é preciso entender qual é a configuração por baixo”, afirma o sismólogo David Shelly, do Centro de Perigos Geológicos operado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Como os cientistas confirmaram os sinais: sismômetros e modelos de sensibilidade às marés

Além de analisar os registos dos sismômetros - que detetam vibrações muito subtis do solo causadas por sismos minúsculos, impercetíveis para a maioria das pessoas - a equipa validou as interpretações com modelos de sensibilidade às marés.

O sobe-e-desce das marés, todos os dias, impõe pequenas tensões às rochas em profundidade. Ao modelar essas tensões e testar como as rochas responderiam, os cientistas conseguem verificar se a leitura dos terremotos pequenos e de baixa frequência está correta - e, neste caso, a verificação confirmou a interpretação.

Cinco peças em vez de três: fragmentos, subducção e uma superfície menos profunda

Os investigadores determinaram que uma porção da placa Norte-Americana se desprendeu e está a ser puxada para baixo juntamente com a placa de Gorda (Juan de Fuca). O estudo também reforça a existência, antes apenas teorizada, do fragmento Pioneer - uma secção de rocha mais antiga que está a ser arrastada por baixo da placa Norte-Americana.

De forma clássica, a junção tripla de Mendocino é descrita como o encontro entre a placa Norte-Americana, a placa de Gorda e a placa do Pacífico. Nesse cenário, a placa de Gorda entra em subducção (é empurrada para baixo) sob a placa Norte-Americana e, com o tempo, é incorporada ao manto terrestre. O ponto crítico revelado agora é que a superfície que está a subductar não é tão profunda quanto se supunha.

A fronteira da placa pode estar noutro lugar (e um sismo de 1992 dá suporte ao modelo)

Com os novos dados, muda também o local mais provável da fronteira entre placas. O modelo proposto encontra apoio num terramoto de magnitude 7,2 que ocorreu na Califórnia em 1992: a origem do sismo foi a uma profundidade muito mais rasa do que os modelos vigentes na época indicariam.

“Assumia-se que as falhas acompanhavam a borda frontal da laje em subducção, mas este exemplo foge disso”, explica a geodesista tectónica Kathryn Materna, da Universidade do Colorado em Boulder.
“A fronteira da placa parece não estar onde pensávamos.”

O que muda para o risco sísmico: San Andreas, Cascadia e modelos mais precisos

Para prever sismos e estimar perigos, precisão importa - e é aí que este trabalho pode ter maior impacto. Tanto a falha de San Andreas (onde se encontram as placas Norte-Americana e do Pacífico) quanto a zona de subducção de Cascadia (onde interagem as placas de Gorda e Norte-Americana) são capazes de gerar terramotos devastadores.

A costa oeste dos EUA, incluindo a Califórnia, reúne múltiplas falhas e zonas sísmicas com comportamentos distintos e interligados. Quanto melhor for o retrato dessas peças em movimento, maior a chance de antecipar cenários e preparar infraestruturas, sistemas de alerta e planos de resposta para o que o solo pode fazer a seguir.

Um ponto adicional é que mudanças na geometria e na profundidade das interfaces de subducção também afetam a forma como a energia sísmica se propaga e onde a deformação pode acumular-se. Isso pode influenciar mapas de perigo, prioridades de instrumentação (novos sismômetros e estações geodésicas) e até estratégias de comunicação de risco para comunidades costeiras.

Também vale lembrar que, em contextos de subducção, a avaliação não se limita ao tremor em si: dependendo do tipo de ruptura e do deslocamento do fundo do mar, pode existir potencial para tsunamis. Refinar a localização das fronteiras e das falhas ajuda a melhorar simulações e tempos de resposta, sobretudo em áreas onde segundos e minutos fazem diferença.

“Se não entendermos os processos tectónicos subjacentes, fica difícil prever o perigo sísmico”, afirma a geofísica Amanda Thomas, da Universidade da Califórnia, em Davis.

A investigação foi publicada na revista Ciência.

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