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Pequena mudança em ondas cerebrais pode antecipar a doença de Alzheimer em mais de dois anos

Paciente idoso com capacete EEG sendo examinado por médico em clínica neurológica com tomógrafo.

Uma alteração discreta na atividade elétrica do cérebro pode indicar a doença de Alzheimer com mais de dois anos de antecedência em relação ao diagnóstico clínico, de acordo com um estudo recente. Esse sinal tem potencial para se tornar um biomarcador bastante sensível de declínio cognitivo.

Magnetoencefalografia (MEG) e ondas beta: o que os pesquisadores avaliaram

Para investigar o problema, neurocientistas da Universidade Brown (Estados Unidos), da Universidade Complutense de Madri e da Universidade de La Laguna (Espanha) utilizaram uma técnica de imagem não invasiva chamada magnetoencefalografia (MEG). Com ela, analisaram a atividade de ondas cerebrais em repouso de 85 pacientes com diagnóstico de comprometimento cognitivo leve.

A MEG mede os campos magnéticos gerados pela atividade neuronal e, por isso, consegue captar mudanças rápidas na dinâmica cerebral. Na prática, isso permite observar padrões que nem sempre aparecem quando se analisam apenas marcadores estruturais do cérebro.

Padrões que diferenciam quem evolui para Alzheimer

Ao comparar os participantes, a equipe identificou diferenças claras nos padrões de ondas cerebrais entre aqueles que posteriormente desenvolveram doença de Alzheimer e aqueles que não evoluíram para Alzheimer no mesmo intervalo de acompanhamento.

O grupo que progrediu para a doença apresentou ondas beta com: - menor frequência de ocorrência (produzidas em um ritmo mais baixo); - potência mais fraca (sinal menos intenso); - duração mais curta (rajadas que terminavam mais cedo).

Em outras palavras, as rajadas de ondas beta foram, ao final, mais breves em quem acabou desenvolvendo Alzheimer.

Por que a forma de analisar a MEG muda tudo

Estudos recentes com MEG já tinham associado alterações muito pequenas nas ondas cerebrais a aprendizagem, memória e funções executivas, reforçando o uso da técnica como biomarcador de comprometimento cognitivo.

Ainda assim, os autores destacam que os resultados dependem diretamente de como os dados são interpretados. Com frequência, os registros de MEG são examinados como médias, o que pode “alisar” o sinal e esconder detalhes relevantes. Neste trabalho, os pesquisadores optaram por uma análise mais minuciosa e próxima da dinâmica real, focando nas características das rajadas de atividade - e não apenas em valores médios.

Relação com envelhecimento, controle inibitório e declínio cognitivo

Os padrões observados se alinham a uma mudança importante na atividade de ondas beta que costuma ocorrer por volta dos 60 anos em pessoas saudáveis. A partir dessa fase, essas rajadas tendem a diminuir; no entanto, em pessoas com Alzheimer, essa redução costuma acontecer de maneira mais acelerada.

Há indícios de que rajadas de ondas beta distribuídas pelo cérebro estejam associadas ao controle inibitório. Por isso, os autores suspeitam que a capacidade de ajustar (modular) essas rajadas conforme a demanda de uma tarefa cognitiva seja necessária para um funcionamento ideal.

Nesse contexto, eles escrevem que o declínio cognitivo observado em quem progrediu para Alzheimer “pode estar diretamente relacionado à falta de controle cognitivo inibitório”.

Essa interpretação também combina com uma hipótese influente sobre os estágios iniciais da doença, segundo a qual o Alzheimer começa com neurónios hiperexcitáveis.

Um marcador precoce para prever progressão em até dois anos e meio

“Detectámos um padrão nos sinais elétricos da atividade cerebral que prevê quais pacientes têm maior probabilidade de desenvolver a doença em até dois anos e meio”, afirma a coautora principal e neurocientista Stephanie Jones, da Universidade Brown.

“Conseguir observar de forma não invasiva, pela primeira vez, um novo marcador precoce da progressão da doença de Alzheimer no cérebro é um passo muito empolgante.”

Próximos passos: modelagem neural computacional e testes terapêuticos

Com as características dos eventos beta associadas à progressão para Alzheimer já descritas, o grupo pretende agora investigar como esses sinais são gerados usando ferramentas de modelagem neural computacional.

Segundo Jones, a ideia é reconstruir, em modelos, o que estaria “dando errado” no cérebro para produzir esse padrão. Se for possível reproduzir o mecanismo, a equipe quer trabalhar com colaboradores para testar terapêuticas que possam corrigir o problema.

O que isso pode significar na prática

Se esses achados forem confirmados em estudos maiores e mais diversos, a MEG pode vir a complementar avaliações clínicas e outros biomarcadores, ajudando a identificar, mais cedo, quem tem maior risco de progressão a partir do comprometimento cognitivo leve. Esse tipo de antecipação pode ser crucial para planeamento de cuidados, inclusão em estudos clínicos e decisões de acompanhamento.

Ao mesmo tempo, qualquer aplicação clínica exigirá critérios bem definidos: como interpretar o risco individual, como comunicar resultados de forma responsável e como integrar esse sinal com outras informações para reduzir falsos alarmes.

O estudo foi publicado na revista Neurociência por Imagens.

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