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Veja a expansão de uma supernova ao longo de 25 anos em um impressionante timelapse da NASA.

Pessoa analisando uma galáxia colorida em um computador, com tela grande da NASA ao fundo.

O drama cósmico da Supernova de Kepler (SN 1604) ganhou um novo capítulo em vídeo, oferecendo uma perspectiva privilegiada de transformações que, em termos astronómicos, aconteceram num piscar de olhos.

Em 1604, astrónomos de várias partes do mundo registaram o aparecimento de uma “nova estrela” no céu. Durante séculos, a humanidade acompanhou, direta e indiretamente, a evolução desse fenómeno.

Hoje sabemos que não se tratava de uma estrela recém-nascida, e sim da morte explosiva de uma anã branca: uma supernova, cujos detritos formaram uma nuvem de ejeta em expansão - que continua a aumentar de tamanho a velocidades impressionantes até aos dias atuais.

Graças ao Observatório de Raios X Chandra, da NASA, é possível ver essa evolução com os próprios olhos.

Remanescente da Supernova de Kepler (SN 1604) em 25 anos de imagens

Num vídeo recém-apresentado, astrónomos reuniram 25 anos de observações do remanescente da Supernova de Kepler, também conhecido como SN 1604, revelando mudanças surpreendentes mesmo numa escala de tempo tão curta para o Universo.

O material foi apresentado por Jessye Gassel (Universidade George Mason e Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA) e Brian Williams (Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA) durante o 247.º Encontro da Sociedade Astronómica Americana.

Este remanescente é particularmente valioso para a astronomia por dois motivos centrais. Primeiro, é um caso raro de supernova com “data de início” bem documentada, com registos que remontam a mais de 400 anos. Segundo, está a cerca de 20.000 anos-luz de distância: não é perto, mas é suficientemente acessível para que os instrumentos atuais acompanhem a sua evolução com grande precisão.

Por que uma supernova do Tipo Ia é tão importante

Uma parte do fascínio vem da natureza da explosão que originou a nuvem: uma supernova do Tipo Ia. Esse tipo de evento ocorre quando uma anã branca num sistema binário acumula tanta massa da sua estrela companheira que se torna instável - e o resultado é uma explosão colossal.

As supernovas do Tipo Ia são essenciais por várias razões. Quando explodem, apresentam um pico de brilho absoluto bem conhecido. Isso permite medir distâncias com elevada exatidão, usando-as como verdadeiras “réguas” cósmicas.

Além disso, são uma das principais fontes de elementos pesados no Universo. Ao explodir, a anã branca lança para o espaço os produtos das reações nucleares do seu interior, enriquecendo o meio interestelar - e esse material acaba por ser incorporado na formação de novos objetos.

As explosões de supernovas e os elementos que elas arremessam para o espaço são a força vital de novas estrelas e planetas”, afirma Williams. “Entender exatamente como elas se comportam é fundamental para compreendermos a nossa história cósmica.”

Como complemento, observar o remanescente em raios X é especialmente útil porque essa faixa de energia destaca o gás extremamente quente produzido quando a ejeta colide com o meio ao redor. Em outras palavras, o Chandra ajuda a mapear onde estão as regiões mais energéticas e como elas se deslocam e mudam com o tempo.

Velocidades da ejeta e das frentes de choque

O remanescente da Supernova de Kepler funciona como um laboratório natural para estudar esse processo, e por isso tem sido acompanhado de perto há décadas. A expansão é rápida o suficiente para que alterações pequenas sejam detetadas mesmo a 20.000 anos-luz.

Um estudo publicado em 2020 já havia mostrado que alguns nós na nuvem em expansão - verdadeiras concentrações de detritos, como “entranhas” estelares - atingem velocidades de até 8.700 km/s.

O novo vídeo reúne registos do remanescente feitos em 2000, 2004, 2006, 2014 e 2025. Embora ainda não exista um artigo publicado especificamente sobre este conjunto, os investigadores pretendem concentrar-se em medições do movimento da ejeta, apoiando-se nos resultados de um trabalho de 2022 que mapeou as velocidades das frentes de choque da ejeta em diferentes regiões.

A análise da visualização também indica outras partes do choque deslocando-se entre 6.170 km/s e 1.790 km/s - o que corresponde, respetivamente, a cerca de 2% e 0,5% da velocidade da luz.

Apesar de essas velocidades serem maiores do que a velocidade de escape da Via Láctea para uma estrela, a frente de expansão avança por gás e poeira, o que reduz significativamente o seu impulso ao longo do tempo. No fim, o material continuará gravitacionalmente ligado à galáxia.

O que acontecerá com os detritos ao longo de milénios

Com o passar de milhares de anos, os detritos da supernova tendem a dispersar-se e a misturar-se com o meio interestelar. É uma sorte extraordinária conseguirmos observar este remanescente numa janela tão curta do ponto de vista cósmico - e ainda por cima com detalhes suficientes para medir movimentos internos.

O enredo da história de Kepler está apenas a começar a revelar-se”, diz Gassel. “É notável podermos assistir a estes restos de uma estrela destruída a colidirem com material que já tinha sido lançado para o espaço.”

Esse tipo de acompanhamento contínuo não só mostra a transformação do remanescente ao vivo, como também ajuda a refinar o entendimento sobre como as supernovas semeiam o cosmos com elementos - matéria-prima que, mais tarde, pode tornar-se parte de novos sistemas planetários.

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