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Treino de força 2–3 vezes por semana pode remodelar o microbioma intestinal em apenas oito semanas

Homem fazendo agachamento com halteres em sala, com destaque ilustrado do sistema digestivo no abdômen.

Treinar com pesos apenas duas ou três vezes por semana pode mexer de forma relevante com os trilhões de microrganismos que vivem no intestino - e essas mudanças podem surgir em um período tão curto quanto oito semanas.

Essa é a conclusão de um estudo recente (ainda não revisado por pares) que observou que pessoas antes sedentárias, ao iniciar treinamento de resistência (treino de força), passaram a apresentar alterações mensuráveis no microbioma intestinal - o conjunto de microrganismos que habita o sistema digestivo.

O que é o microbioma intestinal e por que ele importa

O intestino abriga bactérias, fungos, vírus e outros organismos microscópicos, com maior concentração no intestino grosso. Em conjunto, eles ajudam a quebrar componentes dos alimentos que o corpo não consegue digerir sozinho. Com isso, o organismo consegue aproveitar melhor nutrientes e vitaminas.

Algumas bactérias são frequentemente associadas a pessoas com boa saúde física e mental. Elas produzem substâncias que parecem contribuir para o bem-estar.

E um ponto-chave: o microbioma intestinal não é imutável. Ele pode variar conforme a alimentação, a idade, a qualidade do sono - e, como este estudo sugere, também conforme a prática de exercícios.

Microbioma intestinal e treinamento de resistência: como foi o estudo

Pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha, recrutaram 150 pessoas que não tinham o hábito de se exercitar. A orientação foi realizar treinamento de resistência duas a três vezes por semana, durante oito semanas.

Os participantes seguiram um de dois modelos:

  • Cargas mais leves, com mais repetições (de 15 a 20)
  • Cargas mais altas, com menos repetições (de 8 a 10)

Os exercícios incluíam supino, exercícios abdominais, flexão de pernas, leg press e movimentos para as costas, sempre com duas séries de cada.

No geral, os dois formatos de treino levaram a ganhos parecidos em força e em composição corporal.

Como os pesquisadores mediram as mudanças no intestino

Para acompanhar as alterações nas bactérias intestinais, a equipa coletou amostras de fezes em três momentos:

  1. No início do programa
  2. Após quatro semanas
  3. Após oito semanas

Durante esse período, ficou claro que algumas pessoas aumentaram a força bem mais rápido do que outras. Os pesquisadores então separaram os participantes em dois grupos extremos:

  • Alta resposta: os 20% com maior evolução - aumento médio de força acima de 33%
  • Baixa resposta: os 20% com menor evolução - ganhos abaixo de 12,2%

O fator que mais pareceu influenciar quem ficaria no grupo de alta ou baixa resposta foi o nível de força inicial.

O que mudou nas bactérias de quem ganhou mais força

Além do ponto sobre força inicial, surgiu um achado curioso: quem teve os maiores ganhos mostrou mudanças discretas, porém significativas, no conjunto de bactérias intestinais - alterações que não apareceram da mesma forma em quem evoluiu menos.

No grupo de alta resposta, houve:

  • aumento em 16 tipos de bactérias
  • redução em 11 tipos

Duas bactérias chamaram mais atenção: Faecalibacterium e Roseburia hominis.

Ambas produzem butirato, um tipo de substância classificada como ácido graxo de cadeia curta. Esses compostos surgem quando bactérias intestinais fermentam fibras e cumprem várias funções, como:

  • fornecer energia ao corpo
  • ajudar a manter uma barreira intestinal saudável, reduzindo a passagem de bactérias potencialmente nocivas para a corrente sanguínea

Outros estudos que investigam a relação entre exercício e intestino também já observaram aumentos semelhantes dessas bactérias. Porém, neste trabalho específico, não foi detectado um aumento direto de ácidos graxos de cadeia curta nas amostras de fezes - o que apareceu foi principalmente o aumento de bactérias capazes de produzi-los.

Não é tão simples classificar bactérias como “boas” ou “más”

Pode parecer natural dividir microrganismos em “bons” e “maus”, mas o intestino humano raramente funciona com essa lógica tão direta. Ao longo do estudo, algumas bactérias frequentemente ligadas a boa saúde diminuíram, enquanto outras associadas a desfechos menos positivos aumentaram.

Isso reforça um ponto essencial: cada microbioma é único. A mesma bactéria pode ter funções diferentes de pessoa para pessoa, dependendo do contexto e do estado geral de saúde.

Também não dá para afirmar com segurança se a mudança nas bactérias causou o ganho de força, ou se ficar mais forte provocou as alterações no microbioma intestinal. Estudos desse tipo identificam associações, mas não comprovam causa e efeito - especialmente porque o microbioma é influenciado por muitos fatores ao mesmo tempo.

Alimentação é uma variável difícil de controlar

A dieta tem um impacto enorme sobre as bactérias intestinais. Os participantes foram orientados a não alterar os hábitos alimentares durante a pesquisa, mas acompanhar com precisão o que as pessoas comem no dia a dia é, na prática, muito difícil.

É plausível que parte do grupo de alta resposta tenha ajustado a alimentação ao ficar mais focada em condicionamento físico. Se isso ocorreu, a mudança na dieta poderia ter contribuído tanto para o ganho de força quanto para as alterações no microbioma intestinal.

O que dá para levar para a vida real

Com mais segurança, é possível dizer que a prática de exercícios tende a favorecer a saúde física e mental e deve fazer parte de um estilo de vida saudável - independentemente de qualquer efeito específico sobre microrganismos intestinais.

Vale lembrar que se trata de um estudo relativamente pequeno e que ainda precisa passar por revisão por pares. Mesmo assim, ele tem potencial para fortalecer um conjunto crescente de evidências de que escolhas de estilo de vida - incluindo o quanto nos movimentamos - podem influenciar o “mundo microscópico” dentro de nós.

Como alinhar treino de força e saúde intestinal (além do estudo)

Se a ideia é apoiar o microbioma intestinal enquanto melhora a força, um ponto prático é olhar para o combo “treino + fibras”. Bactérias produtoras de butirato tendem a usar fibras como substrato; por isso, manter uma ingestão consistente de alimentos ricos em fibra (como feijões, frutas, verduras e cereais integrais) pode fazer sentido dentro de uma rotina voltada à saúde intestinal.

Outro fator que costuma ser subestimado é a regularidade. No estudo, a frequência foi de duas a três sessões semanais, por oito semanas. Para muita gente, esse patamar é realista e sustentável - e a consistência costuma contar mais do que estratégias extremas. Para segurança e melhor progressão de carga, orientação de um profissional de Educação Física pode ajudar, sobretudo para iniciantes.

Rosie Young, doutoranda, Micróbios Intestinais na Saúde e na Doença, Instituto Quadram.

Este artigo foi republicado da plataforma A Conversa sob uma licença CC. Leia o artigo original.

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