As taxas de diabetes gestacional nos Estados Unidos continuaram a crescer de forma ininterrupta entre 2016 e 2024, segundo um novo estudo conduzido por investigadores da Universidade Northwestern. A análise reuniu dados de quase 13 milhões de primeiros partos de bebé único.
Quando estes resultados são colocados lado a lado com uma pesquisa anterior que avaliou o período de 2011 a 2019, o conjunto de evidências indica que a diabetes gestacional no país vem a aumentar há quase 15 anos.
O cardiologista Nilay Shah resume a preocupação: a diabetes gestacional “vem aumentando de maneira persistente há mais de 10 anos”, o que sugere que as tentativas de enfrentar a diabetes durante a gravidez “não têm funcionado”.
O que é diabetes e por que a gravidez pode desencadear diabetes gestacional
O termo diabetes descreve um grupo de condições em que o organismo tem dificuldade de transportar o açúcar do sangue para dentro das células - um processo regulado pela hormona insulina.
Durante a gestação, substâncias químicas produzidas pela placenta podem aumentar a resistência das células à insulina. Em geral, o corpo compensa esse efeito ao produzir mais insulina.
A diabetes gestacional surge quando essa compensação não acontece de forma suficiente. Isso eleva, no futuro, o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 tanto para a pessoa que gestou como para a criança.
Além disso, níveis altos de glicose no sangue podem acelerar o crescimento do feto, porque mais açúcares e gorduras atravessam a placenta. Esse mecanismo pode resultar em maior peso ao nascer e em dificuldades no parto.
O tratamento é individualizado e depende do quadro e das necessidades de cada pessoa, podendo incluir:
- alterações na alimentação;
- prática de exercícios;
- monitorização da glicemia;
- aplicações de insulina;
- acompanhamento clínico mais próximo.
Estudo da Universidade Northwestern: como os dados foram medidos e o que mudou de 2016 a 2024
A equipa de Shah espera que os novos resultados apoiem estratégias melhores de prevenção e manejo, sobretudo entre os grupos mais atingidos.
Ao somar os nove anos de 2016 a 2024, os autores observaram que as taxas de diabetes gestacional aumentaram 36% no total. Para chegar a essa estimativa, eles usaram certidões de nascimento do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde referentes a todos os primeiros partos de um único bebé no período analisado.
Nos Estados Unidos, o diagnóstico de diabetes gestacional costuma ser assinalado na certidão de nascimento quando foi necessário tratamento para intolerância à glicose durante a gravidez.
Diferenças por raça e etnia na diabetes gestacional (com aumento em todos os grupos)
Ao separar os dados por raça e etnia, os investigadores identificaram crescimento em todos os grupos. Ainda assim, algumas populações apresentaram taxas substancialmente mais altas: mães Indígenas Americanas/Nativas do Alasca, Asiáticas e Nativas Havaianas/Ilhas do Pacífico foram muito mais frequentemente diagnosticadas.
Em 2024, as estimativas foram:
| Grupo (mães) | Casos de diabetes gestacional em 2024 (por 1.000 partos) |
|---|---|
| Indígenas Americanas/Nativas do Alasca | 137 |
| Asiáticas | 131 |
| Nativas Havaianas/Ilhas do Pacífico | 126 |
Para Shah, compreender por que as taxas variam entre grupos específicos é um tema prioritário para pesquisas futuras.
O que pode explicar as diferenças entre grupos
O estudo aponta explicações possíveis que podem atuar em conjunto, como:
- carga de fatores de risco (quando um grupo fica mais exposto a condições que aumentam a probabilidade da doença);
- comportamentos de saúde e acesso a cuidados;
- exposições sociais;
- discriminação em ambientes de atendimento em saúde.
Um exemplo citado a partir do estudo anterior (2011–2019) é que pessoas Hispânicas/Latinas apresentavam, em média, índice de massa corporal mais elevado e menor escolaridade, dois fatores associados a maior risco de diabetes gestacional.
Por outro lado, indivíduos Indianos Asiáticos tiveram as maiores taxas de diabetes gestacional naquele trabalho, apesar de exibirem IMC mais baixo e maior escolaridade - um contraste que reforça que as diferenças não se explicam por um único fator.
Rastreamento e cuidados: uma peça essencial (e o que acontece depois do parto)
Embora o estudo se concentre nas tendências e desigualdades, um ponto prático decorrente destes dados é a importância de rastrear e acompanhar a diabetes gestacional com consistência ao longo do pré-natal - e não apenas tratar quando o problema já está avançado. A detecção atempada permite ajustar alimentação, atividade física e monitorização da glicemia, reduzindo complicações na gestação e no parto.
Também é relevante manter vigilância após o nascimento do bebé. Como a diabetes gestacional aumenta o risco de diabetes tipo 2 no futuro, o acompanhamento no pós-parto e a continuidade de hábitos saudáveis podem ter impacto direto na saúde de longo prazo de toda a família.
O recado para políticas públicas e saúde coletiva
Na avaliação de Shah, “estes dados deixam claro que não estamos a fazer o suficiente para apoiar a saúde da população dos Estados Unidos, especialmente de mulheres jovens antes e durante a gravidez”.
Ele defende que intervenções de saúde pública e políticas devem priorizar que todas as pessoas consigam acessar cuidados de alta qualidade e tenham tempo e condições para manter comportamentos saudáveis.
A pesquisa foi publicada na JAMA Medicina Interna.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário