O envelhecimento é fácil de notar por fora - rugas, manchas escuras, cabelos brancos e tudo o mais. Só que, com o passar dos anos, o corpo também se transforma por dentro, inclusive no sistema digestivo.
Por volta dos 80 anos, é comum que o revestimento liso do intestino passe a apresentar vários pequenos “saquinhos” salientes espalhados ao longo do trato gastrointestinal.
Diverticulose e diverticulite: o que são os divertículos no intestino
Essas pequenas bolsas em forma de saco, chamadas divertículos, aparecem como pontos mais frágeis na parede muscular do intestino. Na maioria das vezes, não causam qualquer problema e muita gente nem desconfia que eles existem.
Por isso, não é raro alguém ficar assustado ao receber, após uma colonoscopia, a informação de que tem diverticulose - mas, na maior parte do tempo, esse achado não é motivo para preocupação.
Veja o vídeo abaixo para um resumo sobre essa condição.
A situação muda quando essas bolsas ficam inflamadas ou infectadas: aí se trata de doença diverticular, também chamada de diverticulite. Os sintomas costumam ir e voltar e frequentemente incluem constipação, diarreia, dor abdominal, distensão (“inchaço” na barriga) e febre.
A gastroenterologista Janyll Castineira, da Universidade de Miami, comentou em julho deste ano que a semelhança entre os nomes atrapalha: “Isso certamente não ajuda, porque os termos são parecidos, então pode confundir”.
Ela conta que tenta criar um truque de memória com seus pacientes: diverticulose lembra “bolsas”, e diverticulite lembra “inflamação”.
Quando a diverticulite aparece: sintomas e tratamento
A boa notícia é que, mesmo quando a pessoa desenvolve diverticulite, o mais comum é haver melhora em poucos dias apenas com repouso e uma dieta líquida. Mais de 85% dos pacientes ficam bem com essas medidas. Em situações raras e mais graves, pode ser necessário usar antibióticos - e, em casos selecionados, até cirurgia.
Ainda não se sabe exatamente por que os divertículos se formam desde o início. Por isso, as abordagens atuais tendem a priorizar algo mais prático: ajudar o intestino a funcionar com mais fluidez, reduzindo a chance de “engarrafamentos” no trânsito intestinal.
É por esse motivo que, durante a recuperação, costuma-se recomendar uma alimentação rica em fibras, na faixa de 25 a 30 gramas por dia. Isso não “apaga” os divertículos que já existem, mas pode diminuir a probabilidade de surgirem novos.
Um ponto importante (e às vezes subestimado) é que o tempo que as fezes permanecem no corpo pode ter implicações maiores para a saúde do que parece à primeira vista.
Uma revisão de 2023, que reuniu dados de dezenas de estudos, encontrou diferenças claras entre os microbiomas intestinais de pessoas com trânsito intestinal mais rápido (“aceleradas”) e de quem tem trânsito mais lento (“lentas”).
Como o microbioma intestinal está intimamente ligado à saúde, isso sugere efeitos potenciais que talvez tenham passado despercebidos até agora.
Fibras, microbioma intestinal e fatores de risco na doença diverticular
De acordo com o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), pessoas entre 50 e 70 anos que seguem uma dieta rica em fibras apresentam 40% menos risco de hospitalização por doença diverticular quando comparadas a quem tem a menor ingestão de fibras.
Mesmo assim, permanece incerto como as fibras e outros fatores que influenciam o intestino - como antibióticos ou probióticos - interferem no surgimento inicial dessas bolsas. Uma revisão de 2024 aponta que o tema ainda é controverso e precisa de mais investigação.
A diverticulose é bastante comum em países ocidentais (como Estados Unidos, Austrália e Reino Unido), onde a alimentação tende a ter menos fibras, e relativamente incomum na África e na Ásia, regiões em que as dietas costumam ser mais ricas em fibras.
Outros fatores de risco possíveis incluem obesidade, sedentarismo e tabagismo - provavelmente uma combinação complexa de elementos contribuindo ao mesmo tempo.
Um cuidado prático para quem está aumentando fibras: vale subir a quantidade aos poucos e manter boa hidratação ao longo do dia. Em algumas pessoas, elevar fibra de forma abrupta pode piorar gases e distensão abdominal no início, o que atrapalha a adesão. Ajustes graduais e individualizados costumam ser mais sustentáveis.
Além disso, atividade física regular costuma ajudar o funcionamento intestinal e pode ser um componente útil do plano geral, especialmente quando há constipação. Não é um “tratamento” isolado para divertículos, mas favorece o trânsito intestinal e o condicionamento geral, o que pode contribuir na prevenção de crises.
Onde os divertículos aparecem e por que podem sangrar
Embora os divertículos possam surgir tanto no intestino delgado quanto no intestino grosso, no mundo ocidental cerca de 95% dos pacientes apresentam divertículos no cólon sigmoide.
Essa região trabalha sob pressão elevada para empurrar as fezes em direção ao reto.
Depois que as bolsas se formam - possivelmente devido a pressão excessiva - elas podem sangrar quando irritadas, de forma semelhante às hemorroidas (que podem surgir dentro e fora do reto e ao redor do ânus).
Estima-se que o sangramento diverticular seja responsável por 30% a 65% dos casos de sangramento gastrointestinal baixo. Em geral, é indolor e tende a se limitar sozinho, mas ver sangue nas fezes é um sinal sério, porque também pode indicar outras condições graves.
Por isso, especialistas orientam que qualquer pessoa que note sangue nas fezes procure avaliação médica imediata, mesmo que suspeite que a causa seja apenas relacionada aos divertículos.
Diagnóstico, quando operar e prognóstico
A diverticulose costuma ser identificada por tomografia computadorizada (TC) ou por colonoscopia.
A cirurgia fica reservada para situações graves - por exemplo, quando há formação de abscesso ou ruptura.
Ainda assim, mesmo nesses casos, os resultados costumam ser muito bons. Aproximadamente 90% dos pacientes não voltam a apresentar sintomas depois que a parte mais problemática do intestino é removida.
A gastroenterologista Francesca Raffa, também da Universidade de Miami, resume que “o tratamento depende da gravidade do episódio”.
Segundo ela, “a maioria dos casos é leve e pode ser conduzida em regime ambulatorial. O profissional de saúde provavelmente vai orientar uma dieta líquida no começo, analgésicos de venda livre e avaliar se um ciclo de antibióticos é apropriado”.
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