Todo mundo sente dor de cabeça. Todo mundo já deixou o telemóvel em algum lugar, trocou as chaves ou esqueceu um nome de vez em quando. Na maior parte das vezes, esses episódios não têm importância - são consequência de stress, cansaço ou simplesmente de uma mente sobrecarregada.
Ainda assim, esses mesmos sinais podem, em situações raras, ser exemplos de sintomas que apontam para algo muito mais grave: um tumor cerebral.
Como, então, diferenciar um tumor cerebral de uma cefaleia tensional comum, do stress, de uma noite mal dormida ou até de uma ressaca?
No meu trabalho sobre formas de detetar mais cedo tumores cerebrais, conversei com pessoas que receberam esse diagnóstico. As histórias repetiam um padrão: doentes e profissionais da atenção primária (como médicos de família e clínicos gerais) frequentemente minimizaram os primeiros sintomas, e isso por vezes atrasou a investigação e a confirmação do problema.
Esse padrão coincide com resultados de estudos anteriores, que mostram como os sinais de alerta são muitas vezes ignorados. E isso importa porque, quando o tumor não é identificado cedo, o tratamento tende a ser mais invasivo.
Parte da dificuldade é que os sintomas de tumor cerebral podem parecer experiências do dia a dia - fadiga, stress, enxaqueca ou menopausa - e também se confundem com condições muito mais comuns, como ansiedade, sinusite ou dores de cabeça crónicas.
Quando os sinais são discretos, é fácil “explicar” tudo como algo passageiro e seguir em frente. E, num contexto em que conseguir consulta nem sempre é simples (seja no SUS, seja no convénio), muitas pessoas acabam por esperar até o desconforto ficar impossível de ignorar. Uma das pessoas entrevistadas resumiu assim: “Acho que eu já tinha sintomas há, certamente, dois ou três meses.”
A seguir, estão sete sintomas descritos por participantes do estudo - todos fáceis de confundir com outras causas.
É fundamental reforçar: ter um ou mais destes sintomas não significa, automaticamente, que exista um tumor cerebral. Mas, se algo parecer persistentemente “estranho” para o seu corpo - ou claramente fora do seu padrão - vale a pena procurar avaliação.
Além disso, duas atitudes podem ajudar muito quando há dúvida: registar os sintomas (quando começaram, frequência, duração e gatilhos) e pedir que alguém próximo descreva mudanças que você talvez não perceba. Esses detalhes tornam a consulta mais objetiva e podem acelerar a decisão por exames.
1) Dificuldade para encontrar palavras (sintoma de tumor cerebral)
Algumas pessoas notaram que passaram a ter dificuldade para lembrar palavras específicas, montar frases completas ou participar de conversas sem pausas e “travamentos”. Uma delas descreveu a sensação como “estranha e fora do meu jeito”, mas na época preferiu não dar importância.
Outra pessoa contou que começou a anotar o que sentia, porque não conseguia explicar falando - sabia que algo não estava bem, porém “não conseguia colocar em palavras para ninguém o que estava a acontecer”.
Problemas para encontrar palavras podem estar ligados a cansaço, stress ou ansiedade. Mas, quando persistem, surgem de forma súbita ou vêm acompanhados de outras alterações neurológicas, merecem investigação.
2) Névoa mental (brain fog)
Vários participantes relataram uma sensação geral de “mente enevoada”: dificuldade para focar, pensar com clareza ou lembrar coisas simples. Um deles chegou a marcar consulta, mas quando o dia chegou já tinha esquecido o motivo - o que contribuiu para perder uma oportunidade de diagnóstico.
A névoa mental tem muitos desencadeadores, incluindo menopausa, sono ruim e stress. Um familiar lembrou bem o tipo de resposta que ouviram: “Quando os sintomas apareceram, a resposta foi: ‘Ela está a passar pela menopausa.’”
Ainda assim, quando a névoa mental aparece junto de outras mudanças neurológicas - como alterações na fala ou na visão - convém levar a sério.
3) Dormência ou formigamento
Algumas pessoas descreveram formigamento e dormência que “mudavam de lugar” no corpo. Em dois casos, o sintoma parecia concentrar-se num único lado: “Metade da parte de baixo do lado direito do meu rosto e metade da minha língua, metade da parte de dentro da minha boca.”
Isso pode acontecer quando o tumor afeta áreas do cérebro ligadas à sensibilidade e ao controlo motor - regiões que enviam e recebem sinais para diferentes partes do corpo. É verdade que dormência também pode ocorrer por outras razões (nervos comprimidos, alterações circulatórias, enxaqueca), mas sintomas novos, persistentes ou claramente de um lado só devem ser avaliados.
4) Alterações visuais
Mudanças na visão também apareceram como sinal inicial. Uma pessoa passou a ver duplicado enquanto assistia televisão e presumiu que precisava trocar os óculos. Outra relatou que linhas retas pareciam curvas.
Uma fala ilustra a confusão: “Achei que tinham enviado um lote de canecas defeituosas porque todas pareciam ovais - e as pessoas olhavam para mim como quem diz: ‘Do que você está a falar?’”
Alterações visuais podem ter várias causas, como fadiga ocular ou enxaqueca. Porém, distorções súbitas ou incomuns - sobretudo quando acompanhas dores de cabeça, tontura, dificuldade para falar, fraqueza ou dormência de um lado do corpo, ou problemas de coordenação - justificam procurar atendimento.
5) Letra “desajeitada” e piora da coordenação fina
Alguns participantes perceberam mudanças na coordenação olho-mão. Uma pessoa recordou: “Houve um momento em que eu não conseguia escrever. Eu estava a fazer anotações numa reunião e, de repente, virou uma letra toda desorganizada.”
Pequenas falhas podem acontecer por cansaço ou distração. Mas uma piora consistente da escrita, de habilidades motoras finas (como abotoar uma camisa) ou do equilíbrio pode indicar alterações nas áreas cerebrais que coordenam movimentos.
6) Mudanças de personalidade
Mudanças de humor ou comportamento podem ser subtis, mas reveladoras. Uma pessoa atribuiu irritabilidade e perda de motivação ao esgotamento: “Eu não liguei uma coisa à outra. Eu só queria aposentar-me porque estava farto daquilo.”
Oscilações de personalidade podem ocorrer em períodos de stress e mudanças de vida. Mesmo assim, diferenças repentinas ou marcadas - sobretudo quando existem outros sintomas - merecem atenção.
7) Dores de cabeça
Dor de cabeça é muito comum e, na maioria das vezes, não indica nada grave. Porém, em alguns relatos, a dor era constante e não dava trégua, mantendo-se por semanas. Uma pessoa disse: “Durou mais de uma semana e aparecia praticamente todos os dias.”
Vale observar o padrão: dores novas, progressivas, que acordam a pessoa, que pioram com esforço ou que vêm acompanhadas de alterações neurológicas (visão, fala, força, sensibilidade, equilíbrio) são sinais que não devem ser ignorados.
Melhorar o diagnóstico de tumor cerebral
A pesquisa que estou a conduzir hoje procura entender se ferramentas novas podem ajudar médicos da atenção primária a suspeitar mais cedo de tumor cerebral. Entre elas estão testes de função cognitiva, que avaliam memória, atenção e linguagem, e biópsias líquidas - exames de sangue que procuram fragmentos de ADN tumoral a circular na corrente sanguínea.
Como os sintomas de tumor cerebral são diversos e frequentemente se sobrepõem a condições comuns do quotidiano, chegar ao diagnóstico pode ser difícil. Na maior parte das vezes, os sinais listados aqui não terão relação com cancro. Ainda assim, quando mudanças pouco habituais aparecem em conjunto - ou se prolongam mais do que o esperado - não convém “normalizar” e esperar indefinidamente.
E existe um ponto prático importante: se surgir um sintoma neurológico súbito e intenso (por exemplo, fraqueza de um lado, alteração importante da fala, confusão marcada, convulsão, perda visual significativa), o caminho mais seguro é procurar atendimento de urgência.
As pessoas com quem conversei repetiram a mesma mensagem: se algo não parece normal para você, vale investigar. Mesmo que no fim não seja nada grave, a tranquilidade de ter certeza compensa.
Laura Standen, investigadora de doutoramento, Instituto Wolfson de Saúde da População, Universidade Queen Mary de Londres; e Suzanne Scott, professora de Psicologia da Saúde e Diagnóstico Precoce do Cancro, Instituto Wolfson de Saúde da População, Universidade Queen Mary de Londres.
Este artigo foi republicado sob licença Creative Commons a partir do portal The Conversation.
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