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Nova pesquisa questiona método tradicional de tratamento do câncer.

Médica e paciente analisam imagem holográfica e exame digital do corpo humano em consultório clínico.

Remover linfonodos durante a cirurgia de câncer já foi (e muitas vezes ainda é) uma estratégia que salvou inúmeras vidas em diversos tipos de tumores. Mesmo assim, evidências científicas recentes vêm colocando em dúvida partes importantes dessa prática tradicional.

Pense nas defesas do corpo como uma cidade, e nos linfonodos como centrais onde “equipes” especializadas se reúnem, trocam informações e coordenam respostas rápidas. Se muitas dessas centrais forem retiradas, o que acontece com a capacidade de reação do organismo? Essa pergunta passou a ocupar um lugar central na oncologia cirúrgica contemporânea.

Cirurgia de câncer e linfonodos: por que eles eram removidos

Na prática clínica, os cirurgiões retiram linfonodos principalmente por dois motivos: descobrir se o câncer se espalhou e reduzir a chance de disseminação para outros órgãos. Durante décadas, esse raciocínio foi considerado o melhor padrão de cuidado.

Quando um tumor consegue ultrapassar o local de origem, células cancerígenas frequentemente migram pelos vasos linfáticos e se instalam nos linfonodos mais próximos, que funcionam como filtros biológicos. Encontrar células do câncer nesses linfonodos costuma indicar um risco maior de a doença voltar após o tratamento.

Ao remover linfonodos, a equipe médica consegue estadiar a doença com mais precisão e, em alguns cenários, aumentar a probabilidade de eliminar todas as células tumorais remanescentes. Além disso, esse achado orienta oncologistas a indicarem terapias pós-operatórias mais intensas quando necessário.

Linfonodos não são só “filtros”: eles treinam a imunidade

O ponto que vem ganhando força é que linfonodos não são apenas paradas passivas no caminho da metástase. Eles também participam ativamente da resposta imune, servindo como locais de encontro onde células de defesa “compartilham” informações sobre o câncer.

Uma das linhas de pesquisa mais recentes indica que os linfonodos ajudam a sustentar um tipo específico de célula imune, as células T CD8 positivas, capazes de destruir células tumorais. O microambiente dentro do linfonodo contribui para ativar e manter essas células prontas para agir.

Sem essas “centrais”, a resposta imune anticâncer - especialmente durante imunoterapia - pode ser mais fraca do que se imaginava. Os dados sugerem que determinadas células presentes nos linfonodos favorecem um impulso inicial importante de atividade anticâncer. Por enquanto, porém, isso foi demonstrado em condições de laboratório, e ainda não diretamente em pessoas.

Os efeitos colaterais de remover linfonodos

A retirada de linfonodos também pode trazer custos para a qualidade de vida. Entre os problemas possíveis estão:

  • Inchaço (linfedema)
  • Maior risco de infecção no membro afetado
  • Dor crônica em alguns pacientes
  • Limitações de mobilidade em determinados casos

Além disso, cresce a preocupação de que, embora a remoção diminua riscos imediatos de disseminação tumoral, ela possa enfraquecer de forma involuntária as defesas imunes no longo prazo - justamente em uma era em que tratamentos modernos dependem cada vez mais da imunidade do próprio paciente, em linha com os achados do estudo recente.

Por que, então, os cirurgiões ainda retiram linfonodos?

Em muitos tumores sólidos, o risco de metástase continua relevante, e o comprometimento de linfonodos segue sendo um dos melhores indicadores de recidiva do câncer.

Além disso, a retirada de linfonodos fornece informações essenciais para escolher os tratamentos mais eficazes após a cirurgia. No câncer de mama, por exemplo, é comum utilizar a biópsia do linfonodo sentinela: remove-se apenas o primeiro linfonodo para o qual drena o líquido vindo do tumor. Ao analisar somente esse linfonodo, é possível verificar sinais de disseminação reduzindo a quantidade de linfonodos retirados e, com isso, diminuindo a chance de efeitos adversos.

Ao mesmo tempo, pesquisadores vêm compreendendo melhor como os linfonodos funcionam ao longo de doenças prolongadas. O estudo recente reforça que eles atuam como campos de “treinamento”, onde células imunes especializadas se desenvolvem, se multiplicam e ganham força - algo particularmente relevante durante terapias que estimulam o sistema imune, como tratamentos de bloqueio de pontos de controle imunológico (checkpoints), hoje usados em vários tipos de câncer.

Esses resultados sugerem que retirar linfonodos não apenas pode limitar vias de disseminação do câncer: também pode remover locais importantes onde o sistema imune vigia o corpo e pode ser reativado para combater a doença.

Cirurgias mais conservadoras e decisões mais personalizadas

Nos últimos dez anos, muitos hospitais passaram a adotar abordagens mais cuidadosas e direcionadas para cirurgia de linfonodos. Em vez de remover todos os linfonodos de uma região, a tendência é reduzir ao máximo a agressão cirúrgica, retirando apenas aqueles com maior probabilidade de conter doença.

Essa mudança diminui complicações e pode ajudar a preservar a força da imunidade. Em alguns casos de câncer em estágio inicial, pode-se até evitar a retirada de linfonodos, acompanhando a possibilidade de disseminação por meio de exames de imagem e biópsias.

Um ponto adicional importante - e muitas vezes pouco discutido fora do consultório - é que a preservação de linfonodos pode impactar o pós-operatório e a reabilitação. Quando há risco de linfedema, medidas como orientação de cuidados com a pele, acompanhamento com fisioterapia e retorno gradual às atividades ajudam a reduzir infecções e limitações funcionais, melhorando a vida cotidiana do paciente.

Também vale destacar que a decisão sobre remover ou não linfonodos raramente é “tudo ou nada”. Ela tende a considerar o tipo de tumor, o tamanho da lesão, achados de imagem, características biológicas e o plano de tratamento sistêmico (como quimioterapia, terapia-alvo e imunoterapia). Em cenários de incerteza, discutir o caso em equipe multidisciplinar e, quando possível, incluir o paciente em estudos clínicos contribui para escolhas mais seguras e alinhadas ao melhor conhecimento disponível.

Novas terapias e um caminho de equilíbrio

Para quem teme as consequências de uma retirada extensa de linfonodos, terapias emergentes trazem perspectiva. Medicamentos de imunoterapia, tratamentos alvo-dirigidos e até vacinas contra o câncer estão sendo desenvolvidos com o objetivo de “reorientar” o sistema imune, mesmo quando parte dos linfonodos já foi removida.

Ainda assim, cresce a evidência de que os pacientes podem se sair melhor quando pelo menos algumas dessas “centrais” permanecem, mantendo a capacidade do organismo de iniciar e sustentar uma defesa contra células tumorais residuais.

No futuro, a cirurgia de câncer tende a se tornar ainda mais personalizada. Ao mapear a atividade dentro dos linfonodos - identificando quais são críticos para a função imune e quais têm maior chance de abrigar células capazes de formar novos tumores - será possível ajustar a cirurgia para maximizar benefícios e minimizar danos.

As descobertas recentes obrigam cirurgiões e oncologistas a ponderar cada decisão com cuidado: não apenas pelo que se retira hoje, mas também pela imunidade e pelas defesas que ficam para o amanhã.

Afinal, remover linfonodos na cirurgia oncológica é uma má ideia? A resposta não é simples. Para muitos pacientes, continua sendo uma conduta adequada e potencialmente salvadora. Porém, a ciência mais recente mostra que os linfonodos são mais do que “marcos” para estadiamento: eles podem ser fundamentais para a proteção imune duradoura.

A promessa para os próximos anos é uma cirurgia mais inteligente e estratégica, preservando mais da defesa natural do corpo enquanto ataca o câncer com maior precisão.

Justin Stebbing, professor de Ciências Biomédicas, Universidade Anglia Ruskin

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