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Pesquisa mostra que algumas roupas esportivas podem liberar disruptores endócrinos de forma discreta.

Mulher em roupa de ginástica ajustando a cintura de legging cinza em ambiente de academia.

Nas academias, nas calçadas e no trabalho remoto, as roupas esportivas feitas com tecidos tecnológicos vendem uma ideia sedutora: desempenho alto com conforto total.

Só que um componente pouco visível - a química por trás desses materiais - passou a entrar no radar de pesquisadores e profissionais de saúde.

Hoje, peças como leggings, camisetas “respiráveis” e shorts de corrida deixaram de ser exclusividade do treino e viraram padrão no guarda-roupa. Elas ajudam a controlar a temperatura, secam depressa e oferecem compressão e sustentação. Em paralelo, estudos recentes sugerem que parte dessas vantagens pode vir acompanhada de um custo discreto: a exposição a substâncias que podem interferir no sistema hormonal, os disruptores endócrinos.

Roupas não são apenas uma “camada” neutra: em certos contextos, podem se tornar uma via cotidiana de contato com compostos capazes de mexer no equilíbrio hormonal.

O que os tecidos esportivos trazem (e nem sempre mostram) na composição

A maioria das roupas técnicas atuais é produzida com fibras sintéticas - sobretudo poliéster, nylon e elastano. Para atingir elasticidade, repelência, resistência a manchas e, em alguns casos, ação antibacteriana, essas fibras costumam receber aditivos e acabamentos químicos.

Entre os grupos mais citados por toxicologistas estão:

  • phtalatos (ftalatos), empregados para aumentar a maleabilidade de materiais plásticos
  • bisfenóis (como o BPA), presentes em diferentes resinas e plásticos
  • retardadores de chama bromados, usados para reduzir a inflamabilidade
  • PFAS, conhecidos como “químicos eternos” pela alta persistência no ambiente e no organismo

O ponto de atenção é que essas moléculas podem imitar ou bloquear hormônios naturais, incluindo estrogênio, testosterona e hormônios da tireoide. A perturbação dessa comunicação hormonal já foi associada, em diferentes contextos de exposição, a alterações de fertilidade, mudanças na puberdade, maior risco de alguns tipos de câncer, ganho de peso, resistência à insulina e disfunções da tireoide.

Durante anos, a discussão sobre disruptores endócrinos ficou concentrada em embalagens, utensílios plásticos, mamadeiras e cosméticos. O que a literatura mais recente reforça é que o vestuário, especialmente o esportivo, também pode contribuir para esse “quebra-cabeça” de exposições.

Quando o treino vira porta de entrada: suor, calor e contato direto

A pele costuma ser tratada como uma barreira eficiente - e, em muitos casos, é. Ainda assim, o cenário muda quando entram em jogo suor, calor, fricção e produtos aplicados antes do exercício.

Disruptores endócrinos em roupas esportivas: suor, calor e fricção facilitam a liberação

Uma pesquisa publicada na revista Ciência e Tecnologia Ambiental avaliou plásticos com retardadores de chama como PBDE (éteres difenílicos polibromados) e HBCDD. O trabalho observou que esses aditivos podem migrar do material para o filme cutâneo - uma película fina formada por suor, sebo e resíduos de cosméticos sobre a pele.

Durante a atividade física, três elementos tendem a se somar:

  • a temperatura corporal sobe e pode acelerar a liberação de substâncias
  • a sudorese aumenta e amplia o contato entre pele e aditivos do tecido
  • a fricção da roupa pode soltar microfibras e partículas

Essas microfibras de tecidos sintéticos funcionam como “transportadores” em miniatura. Quanto mais finas, maior a área de contato com a pele. No estudo, fibras muito finas foram associadas a uma liberação que pode chegar a até o dobro de compostos em comparação com materiais mais espessos.

Exercício intenso, calor, suor e tecidos sintéticos podem criar condições especialmente favoráveis para que aditivos saiam da roupa e alcancem a pele.

Cosméticos antes do treino podem aumentar a absorção

Outro detalhe relevante envolve o que muita gente aplica antes de treinar: desodorante, hidratante, base e protetor solar. A mesma linha de pesquisa apontou que cremes e loções podem alterar a “superfície” da pele, deixando-a mais propensa a permitir a passagem de certas moléculas.

A depender da formulação do cosmético, a quantidade de substâncias liberadas pelos tecidos pode variar bastante. Em alguns cenários experimentais, a presença de creme dobrou a transferência de aditivos do material para o filme cutâneo.

Fator Efeito nos disruptores endócrinos
Suor intenso Eleva o desprendimento de aditivos da fibra sintética
Temperatura elevada Favorece a migração de moléculas do tecido para a pele
Cosméticos na pele Modifica o filme cutâneo e pode aumentar a absorção
Microfibras muito finas Maior área de contato e maior liberação de compostos

Exposição discreta no dia a dia, soma grande no longo prazo

Para aproximar o problema da vida real, pesquisadores montaram cenários simulados de exposição por via cutânea. Em adultos, as estimativas diárias ficaram na faixa de dezenas de nanogramas por quilograma de peso corporal. Em crianças pequenas, que passam mais tempo em contato com chão, tapetes, mantas e roupas, os valores simulados chegaram a ser até 10 vezes maiores.

Em muitos casos, esses números isolados aparecem abaixo de limites regulatórios adotados por órgãos internacionais, como os da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. A preocupação central, porém, é que a exposição raramente vem de um único lugar.

A mesma pessoa pode absorver traços pela pele, inalar partículas dentro de casa, ingerir resíduos relacionados a embalagens plásticas e ainda usar cosméticos com substâncias semelhantes. Além disso, alguns compostos - especialmente os PFAS - podem persistir e se acumular no corpo por anos, circulando no sangue ou permanecendo em tecidos.

O risco hormonal, muitas vezes, não é “um produto só”: é a soma de pequenas exposições repetidas e pouco perceptíveis.

Como diminuir o contato com disruptores endócrinos no guarda-roupa

Os estudos não propõem jogar fora toda roupa técnica, nem sugerem que o esporte seja um problema. A mensagem prática é priorizar escolhas melhores e ajustar rotinas que reduzem a carga de exposição.

Trocas simples nas roupas do dia a dia

  • Priorize fibras naturais (algodão, de preferência orgânico, linho e lã sem tratamentos intensivos) em peças de uso prolongado e de contato direto com a pele.
  • Desconfie de promessas “milagrosas” sem transparência: “antimicrobiano”, “anti-odor permanente” e “super repelente de água”, quando a marca não apresenta certificação ou laudo.
  • Quando houver essa informação, prefira itens que declarem ausência de phtalatos, retardadores de chama bromados e PFAS.
  • Use selos ambientais consolidados, como o Rótulo Ecológico Europeu, ou equivalentes reconhecidos, como referência para peças com menor carga de aditivos.

Para quem treina com frequência, uma tática útil é vestir uma camiseta interna de algodão sob a camada técnica. Isso reduz parte do contato direto com a pele, principalmente em treinos longos e com muita sudorese.

Cuidados na rotina de uso e lavagem

Lavar roupas novas antes do primeiro uso ajuda a retirar resíduos superficiais do acabamento. Isso não “apaga” os aditivos incorporados à fibra, mas pode diminuir substâncias que ficam na camada externa do tecido.

Também vale evitar secagem com temperaturas muito altas e ciclos agressivos, que podem aumentar o desprendimento de microfibras no ambiente doméstico. Menos microfibras no ar e no piso tende a significar menos contato indireto, especialmente para crianças e animais.

Um cuidado adicional, pouco comentado, é melhorar a limpeza do ambiente onde as roupas são usadas e guardadas. Aspiração frequente (de preferência com boa filtragem) e pano úmido em superfícies ajudam a reduzir a poeira que carrega partículas têxteis - uma medida simples para diminuir a recirculação de microfibras em casa.

Outra estratégia prática é separar o “kit de treino” do restante das peças: guardar roupas esportivas em local ventilado, evitar deixá-las suadas por muitas horas e não misturar com roupas de bebê/criança no cesto. Isso não elimina o problema, mas ajuda a reduzir a transferência de resíduos e odores para tecidos mais sensíveis e de contato prolongado.

Termos que vale entender melhor

Disruptores endócrinos: substâncias capazes de interferir no sistema endócrino, responsável por regular hormônios ligados a crescimento, metabolismo, fertilidade e resposta ao estresse. Não precisam atuar em doses altas para merecer atenção; em alguns casos, quantidades pequenas, repetidas continuamente, já são relevantes.

PFAS: sigla para substâncias per e polifluoroalquil. São usadas para dar repelência à água e à gordura em tecidos. Receberam o apelido de “químicos eternos” porque se degradam muito lentamente no ambiente e podem permanecer por longos períodos no organismo.

Cenários reais: combinações que aumentam o risco

Pense em alguém que corre três vezes por semana usando camiseta sintética, legging de compressão e uma jaqueta com acabamento repelente à água. Antes de sair, passa protetor solar, usa base leve e aplica desodorante em creme. Por cerca de 60 minutos, a pele fica aquecida, suando e em contato constante com tecido e cosméticos.

Nesse contexto, cresce a probabilidade de migração de aditivos para o filme cutâneo. Ao mesmo tempo, cremes e loções podem facilitar a entrada dessas moléculas. E há um detalhe importante: parte dos compostos presentes no tecido pode ser semelhante aos ingredientes encontrados em alguns cosméticos, ampliando a mistura química a que o corpo é exposto.

Para quem tem histórico de distúrbios hormonais - como alterações da tireoide, síndrome dos ovários policísticos ou infertilidade em investigação - faz sentido redobrar a atenção às exposições cumulativas. Não se trata de pânico, e sim de gestão de risco: reduzir o que é possível reduzir, sobretudo em rotinas repetidas.

Há ainda um cenário frequente com bebês e crianças pequenas: longos períodos em contato com mantas, tapetes, brinquedos de tecido e roupas sintéticas, muitas vezes em ambientes onde microfibras se acumulam. Nessa faixa etária, a exposição por quilograma de peso corporal tende a ser maior - justamente um dos motivos pelos quais as simulações chamaram atenção.

A tendência é que a indústria têxtil seja pressionada a entregar materiais que mantenham o desempenho dos tecidos tecnológicos com menos dependência de aditivos controversos. Até isso virar padrão, consumidores bem informados funcionam como um filtro importante, ajustando escolhas de compra e hábitos para que as roupas esportivas não tragam, junto com o conforto, um estresse hormonal invisível.

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